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  No parque - at Cidade de Toronto Park

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Minha experiência como guarda florestal.

Por quinze anos tenho morado perto de uma área natural verde.

Promulgada reserva florestal ecológica desde 1995, através de

abaixo assinado popular junto à Prefeitura da Cidade.

A área tem sido destruída várias vezes por ano pelo fogo ateado

por um único morador local, descontente com o loteamento de condomínios.

Isso não quer dizer que se sacrifica a natureza que a região ostenta

por causa de um descontentamento pessoal. O incêndio é criminoso, mas

pela alta influência do indivíduo na sociedade local, ninguém influente

realmente liga para o que acontece e assiste passivamente ao incêndio

ou à disponibilidade do Corpo de Bombeiros do setor.

Com minha experiência preventiva, tenho conseguido manter a maior área

possível intacta contra o fogo por cerca de dois anos seguidos, restabelecendo

o nível de umidade do solo, o que torna a propagação do incêndio mais lenta.

E isso também garante abrigo maior para os pássaros e animais, além de

farta fonte de alimentos para os insetos. Existem também arbustos frutíferos

que alimentam os mesmos pássaros e a vegetação rasteira alimenta uma

comunidade selvagem de préas, pequenos mamíferos herbívoros. Existem

no topo da cadeia alimentar: falcões e gaviões, apesar do recente corte

dos eucaliptus por uma companhia madeireira de ocasião, que burlou a

legislação vigente desde 1995. Essas aves de rapina dependem de árvores

altas para seu nicho.

Como controlar um incêndio na mata, desde que ela seja predominantemente

rasteira, capim, grama, pequenos arbustos de até vinte centímetros de

altura. Mais alto que isso somente em teoria funcionaria. Isso se você

tivesse três metros de altura e umas cinco toneladas de peso. Porque a

fumaça de plantas queimando, normalmente composta de muito vapor e

quantidade razoável de gás carbônico e um pouco de cinzas, quando

é inalada em grande quantidade, não é nada legal nas horas seguintes:

dor de cabeça e um pouco de enjôo.

Primeira providência: tirar as pessoas da área próxima e quaisquer

objetos pessoais e doméstico que estiverem próximo ou na mata próxima

ao foco, ou normalmente a linha de fogo.

Segunda providência, chamar e implorar que os bombeiros venham. Pois

quando a situação é apenas fogo na mata, eles costumam descartar a

vinda. Depois disso, só se você for um guarda florestal em férias na

cidade e tiver um bom amigo do lado: um outro guarda florestal e

ferramentas. E lógico ter tido uma refeição leve e saudável e com

muito líquido, ou não suportará a fumaça e o calor terá que apagar

no segundo tempo, e daí o fogo poderá ter se alastrado para

árvores ou arbustos, onde costumam existir ninhos de aves em extinção.

As ferramentas: um vizinho atencioso pronto para jogar água, coisa

rara por aqui, mas que tenha o telefone do serviço de resgate,

uma boa pá de preferência com apoio em forma de triângulo, luvas

de couro, como as de lixeiro. Molhe seus cabelos, isso ajuda a você

ter confiança e previne fagulhas de chamuscarem o penteado.

Use roupas de tecido grosso não inflamável, eu prefiro algodão

índigo, calção até o joelho, ajuda a medir o perigo das chamas e

a manter uma distância segura. Uso sapatos de couro com cano alto

e sola de borracha vulcanizada, não aconselhável, pois borracha é

inflamável em condições extremas, apesar de estar sempre abafada

contra o solo. O solo baixo e úmido não costuma se cauterizar, tanto

que tenho visto sempre após o incêndio, pequenas mudas e líquens

vivos e frescos em pequenas manchas onde não havia mato.

Uso de boné? Sim se você tiver cabelos muito curtos, boné de couro

sempre é o melhor, apesar de não ser politicamente correto, material

sintético nem pensar, ou estará com explosivo na cabeça. O calor

próximo às chamas pode inflamar tecidos sintéticos como o nylon.

Pois bem ao trabalho: minha experiência é num terreno de morro,

com os aclives recortados em forma de degrau. Comece sempre pela base

do fogo, no ponto mais baixo da linha de fogo, onde geralmente

o fogo queima por si. As partes mais elevadas do terreno em chamas

contam com a torrente de calor da parte mais baixa e são desgastantes

de se apagar, tal como nadar contra a correnteza. Sempre bata na base

do fogo, umas duas três vezes, pois com o vento, o fogo pode voltar.

E sempre fique atento se onde fora apagado há dois minutos, não voltou

a se incendiar: fogo no mato é fogo na palha, queima relativamente

rápido, gera calor razoável, muito vapor e poucos gases e cinzas, mas

também pode avivar a chama rapidamente.

Onde fica e onde não fica a parte mais baixo do terreno em chamas?

Na encosta com aclive superior a trinta graus não fica, pois vira

uma parede que reflete muito calor como uma fornalha. Pegue o terreno

plano abaixo, a menos que seja um buraco, e apague o que tiver de chamas,

dando preferência ao final da linha de fogo. Bata onde ela queima, não

onde se vê a chama, pois o fogo está realmente pegando é na ponta do

mato ou capim ou grama, tal como aquele vício social terrível.

Caso o fogo na encosta muito próxima da vertical esteja passando por

uma fase de recuo, por falta de vento ou comburente, oxigênio do ar,

é hora de espancar, abafando o fogo com a face da lâmina da pá.

Conseguindo evitar que o fogo crescesse pela encosta, o próximo passo

é subindo no patamar do degrau superior do morro. Lembre-se estamos

falando de um terreno em morro, cuja encosta foi tratada por

terraplanagem contra erosão do solo.

No próximo degrau o fogo deve estar maior, mas já não recebendo mais

a fonte de calor vindo da encosta. O começo é apagar o início da linha

de fogo, preferencialmente devemos estar do lado onde o fogo começou,

porque lá não resta muito o que o fogo possa queimar. Mas é aconselhável

bater o terreno antes de pisá-lo, vai economizar a sola do sapato contra

fagulhas. A quina do degrau costuma ser o começo da linha de fogo, vá

batendo, até apagar, é como se estivesse limpando um rastro, não se faz

pelo meio, mas pelo começo. Faça-o até que não reste fumaça, mesmo assim

pode voltar a se incendiar uma vez ou duas, a menos que já não reste

o que queimar ao redor da fagulha. Elimine a linha do fogo a golpes de

pá até chegar a próxima encosta, apagando o fogo a partir da parte mais

baixa, a menos que aquilo tenha grandes proporções e seja difícil se

aproximar por causa do calor. Daí ou aguarde o fogo entrar em fase de

recuo, para começar a apagar a partir da parte mais baixa, eliminando

a torrente de calor para o resto das chamas, ou caso a encosta não tenha

mais que dois metros de altura, escale e apague a linha na parte

horizontal do degrau de cima, ganhando tempo contra o alastramento e

depois volte a outra encosta e tente apagá-lo e evite que ele volte

para baixo. É muito difícil que ele volte rapidamente para baixo, mas

não impossível, faça plantão e comece a apagar tão logo as chamas

diminuam na encosta. Pronto voltando ao degrau superior, verá que

mesmo que algo tenha voltado a se incendiar ou que a linha de fogo

voltado das partes mais altas em chamas, será tão fácil de apagar

em três a quatro vezes. Leis da Física e da Química: sem calor vindo

por baixo e já com pouco combustível ao redor, é muito mais fácil

apagá-lo. Nota-se que tanto na encosta seguinte como nos degraus

superiores, o poder das chamas diminuiu visivelmente. É que apagando

as chamas nas partes mais baixas, o incêndio perde a fonte de calor.

Apagando se esta encosta, vem o plano do degrau superior. Ele começa

sempre na quina e do lado onde o fogo já virou cinzas. Sempre fique

atento ao vento, a chama pode se avivar e você terá que simplesmente

se afastar, logo saiba o que tem atrás de seus pés, é como um jogo

de futebol: sua colocação é muito importante.

Apagando toda a encosta e os degraus se chega a parte mais difícil:

o topo do morro. Num terreno plano não há aclive, logo não há uma base

de torrente e o calor vem todo de acordo com o vento. Mas a potência

também é relativamente menor, não existem torrentes verticais que

ajudem a chama crescer para o lado. Existe lógico o calor irradiado

pelas chamas em todas as direções, mas o que sobe vai para o espaço

celeste e não para outro foco. Continue começando pela linha e sempre

estando do lado já incendiado e saiba antes os acidentes do terreno

para não sofrer injúrias físicas, caso o vento o obrigue a se afastar

do fogo. Mas é difícil apagar num terreno plano, pois diferente de

degraus não existem barreiras que atrasem o avanço, como a transição

nas quinas. Ás vezes tem que se apagar o fogo não pelo início da linha,

pois no topo do morro, o fogo se alastra em todas as direções e nem

sempre a menor chama está no início, ou então uma chama baixa ameaça

chegar próximo de um arbusto ou de uma árvore, desastre tanto para

a árvore quanto para o combate ao incêndio. As chamas ganharão maior

potência. Caso já tenham alcançado, nem chegue perto da árvore, essa

classe de incêndio requer mangueiras com água e muito pressão a distância

e ainda pode ocorrer explosão no caule. O que acontece com as bananeiras

daqui sempre que o fogo consegue chegar lá. Quanto aos arbustos, caso

as chamas encontrem obstáculo e diminuam, pois normalmente o fogo atinge

os arbustos pelas folhas e galhos mais altos, você pode detonar os galhos

em chamas para o chão e espancá-los até o final do fogo, melhor uns galhos

que todo o mato. Por falar em mato, caso seja uma variedade de capim

de dois metros de altura, esqueça, queima muito rápido, gera bastante

calor no processo, muita fumaça e se apaga em quinze minutos por conta

e depois vai passando rasteiro para o lado. Caso esteja apenas começando

pode proceder como no arbusto: bata na parte de cima onde o fogo costumaria

pegar. Costumaria, pois normalmente num capim daquele tamanho, mesmo

a base é facilmente incendiável. Geralmente se perde pois ele começa a

pegar fogo enquanto se preocupamos em deter a expansão do incêndio pelo

terreno e não há como salvar uma planta muito inflamável no processo.

Notadamente, a medida que se apaga as partes mais fracas do incêndio,

as partes mais fortes diminuem em evolução. É a falta de calor para

manter a expansão do fogo. Aqui no clima da região, não é exagero dizer

que um incêndio neste local se apaga sozinho a noite. O frio e a alta

umidade do ar a noite não propicia os incêndios. Motivo pelo qual o

autor desses crimes não provoca mais incêndios a noite e sim bem por

volta do meio-dia, horário em que os filhos ainda estão na escola

e em que provavelmente tem a desculpa perfeita de ir almoçar e o mesmo

fazem o resto da população havendo praticamente nenhuma testemunha.

O fascinante, é que há quinze anos tem feito esses incêndios e como

numa evolução, ele aprendeu que a noite, apesar da máscara da escuridão

não é um bom horário para incêndios. E que o melhor horário é o do

almoço.

Por que não se faz nada contra o autor do crime? Como já foi dito é uma

pessoa muito influente socialmente do bairro, para se ter uma idéia das

perspectivas dos jovens de lá nesses últimos quinze anos. Pessoalmente

minha influência é somente com os poucos amigos que tinha cultivado desde

os meus tempos de colégio, e que por vários motivos, nós mal nos

mal nos encontramos. A maioria trabalha o dia todo, muitos são

profissionais liberais como eu, mas infelizmente não têm a mesma

inclinação por ecologia, ou estão mais atarefados que eu. Lembro-me

que no dia anterior o último incêndio conseguiu varrer a área de arbustos

que consegui preservar por mais de dois anos, mas não conseguiu queimar

umas trepadeiras de uma árvore, onde existem vários ninhos de um pequeno

pássaro, notadamente, também em extinção. Aqueles arbusto têm resistência

a passagem rápida do fogo e o solo estava relativamente úmido apesar da

época do ano, o problema serão algumas semanas sem folhas para alimentar

a fauna. Mas torço para que o fogo não tenha afetado a floração que deverá

ocorrer nos próximos dois meses. Existem muitas espécies de abelhas

melíferas no morro ou na região. Tive que sacrificar um compromisso que

me renderia algum lucro comercial. Mas o que é um atraso de um dia em

relação a preservar uma área que mantem o fundo da paisagem sempre verde,

vivo e vibrante? É um privilégio morar próximo a uma área nativa, onde

existe ainda exemplares da flora e fauna originais.

Tenho pensado em mudar o equipamento que tenho usado, apesar de tentar

me enganar que não precisarei mais enfrentar incêndios que eles não

ocorrerão mais. Mas dizem ser um vício a atitude de incendiar mato e

não uma decisão pessoal. Portanto, mesmo que sempre se consiga controlar

o fogo, o indivíduo com péssimas intenções continuará destruindo a

região sempre que chegar a estação fria e de estiagem. Ele é uma mistura

de planejamento racional e vontade ou crença de benefício em incendiar

mato inconseqüentemente.

O equipamento apropriado por minha experiência e neste lugar seria: um

boné de couro semelhante ao de aviadores da primeira guerra, protegendo

o cabelo, óculos de policarboneto, apenas contra as fagulhas e fumaça,

não contra o fogo diretamente. Sobretudo padrão dos bombeiros, resistente

ao calor, basicamente o uniforme do corpo de bombeiros, com restrição

as calças, duvido que tenha mobilidade necessária e possa saber se as

chamas estão crescendo antes de se tornarem visíveis, o fogo se propaga

a partir de uma massa de ar bem quente e invisível a curta distância.

Uma pá de cabo bem resistente, se não uma pá com cabo metálico, não

há o perigo de se queimar com cabo metálico, pois se bate no fogo e

não se deixa a pá lá dentro. Equipamentos acessórios: um grande cantil

de água, para emergências como uma chama muito grande. Algo mais

criativo, como uma ceifadeira totalmente de metal, que era o equipamento

padrão da empresa que cuida de capinar embaixo de toda a linha de força

da cidade, onde houver mato. Essa foice ou ceifadeira seria muito útil

para que ao invés de se apagar diretamente o fogo, apenas se cortasse o

caminho dele. Lógico isso tem que vir acompanhado de um garfo para palha

ou feno, pois deve-se retirar o que foi cortado e jogar contra onde já

foi incendiado, para que não gere no futuro, mais combustível para

novos incêndios. Acredito que seria muito bem feito queimar esse mato

que foi ceifado, logo atrás do incêndio, eliminando o problema futuro.

Mas isso pode gerar controvérsias: não seria legal incendiar enquanto

as autoridades apenas vêem do lado de fora? E ser confundido com o autor

das chamas? Não sou um guarda florestal por profissão e muito menos por

treino em quartel, não tive tempo para isso, mas me obriguei a combater

esses incêndios, pois sempre que soube que deve se preservar a vida.

Mesmo a de animais e plantas, o que é contra a cultura da maioria do

bairro, que vive apenas num paraíso comercial, onde até o jantar costuma

ser encomendado numa pizzaria.

Última nota, desaconselho apesar de todo o texto a faça você mesmo. Mas

espero que isso ajude como nota de relevância para conscientizar as

novas gerações a preservar e convencer seus pais da necessidade de

respeitar a natureza. E também acredito que isso ajude o treinamento

de guardas florestais e bombeiros, especialmente estes, pois não faz

parte do treinamento saber se é melhor apagar por baixo ou por cima,

um incêndio. Normalmente, eles atacam o avanço, o final da linha de fogo,

o que além de gastar muito tempo, ainda pode evoluir em novas linhas

de fogo, pela demora em se combater a região inicial.

Infelizmente, aqui os bombeiro são os únicos que podem atender o bairro,

ficando a guarda florestal restrita a regiões externas da cidade. E a

disponibilidade dos bombeiros depende convencê-los que as linhas de força

do bairro também estão ameaçadas.

Meu trabalho aqui é por convicção de que é melhor morar num bairro com

mato vivo, do que em bairros com jardim de pedra e grama, onde não

existem outras formas de vida, se não cachorros, pessoas e às vezes

pombos. Cenário muito triste e ao meu ver sem futuro. Não tenho tido

nada melhor nessa última década do que acordar e olhar a natureza,

verde e tranqüilizadora pela minha janela. cartão de visitas


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