Mesa Redonda : O pop cross

 

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From: "Antero Gandra"

Subject: Pop-Cross

Date: Mon, 21 May 2001 20:58:46 +0100

 

Caríssimos,

 

Permita-se-me um comentário:

Logo no primeiro attachement depois do "black out" recebo uma foto de "pop cross" ("pop" de popular???)

Sei que, muito provávelmente, irei chocar muitos com a minha opinião, mas

estamos numa lista da "internet" que por si só deve ser sinónimo de liberdade.

A minha relação com os 2cv é uma ligação antiga, feita de carinho e respeito por este carrinho tão simpatico e tão vulnerável, bebidos de um tio muito amigo que, com muitos sacrificios, comprou o seu primeiro automóvel, um 2cv, por volta de 1955.

Depois disso comprou outros, foi o carro "dos noivos" no meu casamento e também o meu primeiro carro.

Custa-me por isso ver estas fotos, em que o carro é usado para um fim para o qual não foi feito, num certo desprezo pela sua fragilidade, numa certa violência, em que é apenas usado por ser um carro barato e portanto quase descartável.

O que foi feito dos carros que fizeram esses "pop crosses"? Resistiu algum?

Algum foi recuperado?

Bom...de novo...desculpem-me o desabafo...mas já desabafei!!!

 

Um abraço a todos

 

Antero

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Caro Antero

 

Não me chocou.

Concordo com a sua adoração, carinho e respeito pelos 2cv. No seu lugar, acho que o meu sentimento, estaria em consonância com o seu. Claro que tenho a minha própria maneira de gostar deles. Por isso, também fico chocado com o fim inglório de alguns destes nossos amigos sobretudo quando sacrificados pelo pilão dos sucateiros, como se assistiu mas, felizmente, já quase não se assiste. Porque agora eles sabem que as peças são valiosas!

Agora, peço-lhe que considere o seguinte:

Pelos anos 70 já eu estava ligado a estes veículos, pois a minha oficina era

quase unicamente frequentada, sobretudo pelos 375 (sim, ainda rolavam!), 424, AKS, e Dyanes.

O 2cv, era um veículo pelo qual, QUASE não havia uma admiração especial. Era muitas vezes o único veículo a que muitos jovens tinham acesso, por razões ecomómicas.

Por todo o país, existiam centenas, ou mesmo milhares de 2cv e das agora

raríssimas AZU e AKS, que nessa altura começavam a 'encostar' pois não se achava que merecesse a pena recuperar dado o pouco valor que tinham. Terá sido também importante, a revolução japonesa na indústria automóvel com a aparição do Datsun 1200, por exemplo e outros carros em que começaram a despontar as tecnologias viradas para o conforto, que hoje atingiram o estado que sabemos. O 2cv avaria... quanto custa a reparação... tanto dinheiro... já estou empregado... vou comprar um japonês... são tão lindos... 2cv? o que é isso?... Ah! tenho lá em baixo um... Olha já lhe rasgaram a capota... E o capot está amolgado... Se alguem o levasse era um favor... Isto era o fim típico dos 2cv da cidade.  

Muitos outros, nos meios rurais, morreram inglóriamente, enterrados sob

toneladas de terra, detritos vários e lixo comum, ou simplesmente servindo de vasos a enormes plantas que se foram desenvolvendo no seu interior. Alguns, sobretudo as AZU, ainda tiveram o privilégio de ser habitadas por simpáticos galináceos, trazendo-lhes assim, durante mais algum tempo, a recompensa de umas limpesas.

E é neste cenário que surge o pop-cross.

Os primeiros a ser escolhidos, foram muitos dos abandonados pelas cidades. Esta procura, inflacionou o valor da oferta e a isso se valeu não terem sido

sacrificados muitos dos ainda rolantes.

Só então se descobriu que, fora dos centros urbanos, existiam os tais 'vasos' 'capoeiras' e 'caixotes do lixo', que muitas vezes, eram adquiridos a custo zero.

Acredito que se tenham sacrificado muitos 2cv ainda em bom estado, mas grande número dos carros em pista, sobretudo nos primeiros anos, eram feitos a partir dos tais condenados. Concordemos: Ao massacre feito a carros ainda bons, correspondeu a ressurreição de outros, em que até alguns morreram em glória, numa pista de pop cross, mostrando para a posteridade, mais uma faceta das suas capacidades. 

Quanto á sua dúvida acerca de sobreviventes, saiba que não será viável reverter um 2cv de cross para carro circulante. Mas ainda se encontram alguns desse tempo mais ou menos bem conservados e operacionais. Penso que apenas por razões sentimentais. Acompanhei uns tempos o actual pop cross nacional e não vi lá um só dos 'velhinhos'.

No que me diz respeito, sinto muita pena de não ter tido possibilidades de

conservar o meu. Porque também há uma maneira de gostar e acarinhar um 2cv de cross...

 

Um abraço

 

Augusto Águas

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De:  "J. A. Calazans"

 

>O que foi feito dos carros que fizeram esses "pop crosses"? Resistiu  algum? Algum foi recuperado?

 

--Ainda hoje em dia exista um campeonato de pop-cross em portugal, e em frança no ano passado chegaram a correr mais de 100 carros.

Penso que a grande maioria, se não a totalidade, desses carros, se não estivessem a correr estariam em sucatas, e não teriam sido recuperados.

 

Zé Calazans

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De: "Augusto Brito"

 

viva!

 

Amigo Antero, compreendo a sua reacção face ao pop (de popular) cross.

Eu próprio tenho uma relação de amor/ódio com essa disciplina dos desportos motorizados e se é com prazer que vejo as suas fotos ou filmes é um prazer que raia o sado mazoquista...

Por outro lado estou em crer que muita daquela violência, como diz, é mais

espectáculo e poeira que outra coisa. não esqueçamos que o 2cv é um dos

carrinhos mais resistentes da história automóvel.

 

>Custa-me por isso ver estas fotos, em que o carro é usado para um fim para o qual não foi feito, num certo desprezo pela sua fragilidade, numa certa violência, em que é apenas usado por ser um carro barato e portanto quase descartável.

 

Penso que a nível europeu o 2cv foi um dos primeiros 'carros descartáveis'.

depois de cumprida a sua função de carro utilitário na frança do pos guerra, o 2cv cedo foi relegado para o lugar de primeira viatura até haver

dinheiro para comprar outra.

Com a entrada nos anos 70 confirma-se a vocação consumista da indústria

automóvel e o 2cv não escapou... antes se definiu fortemente como carro de ocasião e moda, dirigido especialmente para um público jovem que vinha

afirmando o seu poder económico e estava pronto para à primeira oportunidade (gravata) trocar o 2cv por outra coisa mais de acordo com os padrões pretendidos pela indústria/capital .

'Malgré tout', dos milhares de viaturas construidas algumas conseguiram

cumprir outros destinos que não o de morrer afogados em ferrugem .

deram a volta a muitos universos, alimentaram esperanças de liberdade e

mundos novos . alguns até chegaram às nossas mãos para serem acarinhados

como a gente sabe...

 

>O que foi feito dos carros que fizeram esses "pop crosses"? Resistiu algum?

>Algum foi recuperado?

 

Aqui sou capaz de concordar com o amigo Calazans : provavelmente se não

andassem na pista, muitos destes carros teriam sido reduzidos a latas de

sardinha muito cedo ...

Do ponto de vista do 2cv é talvez preferível 'morrer na batalha' .

 

um abraço

 

a.

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From: "Antero Gandra"

 

Caro Augusto Águas ( a quem espero conhecer no 4º encontro..)

 

Fiquei muito satisfeito pela maneira cordata e séria como respondeu ao meu mail, que lhe não era especialmente dirigido.

Como em tudo na vida as coisas não têm um lado só e nesta questão (será? ou apenas vontade de esgrimir argumentos?) isso acontece também.

É um pouco como a argumentação contra e a favor da caça ou das touradas...mas convenhamos que, destruir os carrinhos (não servem depois para mais nada..) é uma estranha forma de amor!

Não concordo consigo quando diz

"O 2cv, era um veículo pelo qual, QUASE não havia uma admiração especial".

Sempre o achei um carro especial, com soluções engenhosas e inovadoras (não sou mecânico e fico-me só pela perspectiva do utilizador).

Ainda agora, ao conduzir o meu 2vc de 62 e ao utilizar a embraiagem centrifuga me espanto...

Mas compreendo e respeito a sua relação, bem diferente da minha, com os 2cv.

 

Um abraço

 

Antero

 

PS. Por falar na embraiagem centrifuga:é normal aquela pequena "pancada" quando se muda de velocidade e se embraia (ou desembraia?) ?

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comentário posterior :

 

Caro Antero

 

Certamente por lapso, não devo ter respondido a este email, do que peço desculpa.

Embora tardiamente, agradeço as suas palavras, que retribuo.

Ah! Quanto á pancada creio que será uma ou mais cruzetas de cardan que já têm folga. Convém verificar, pois se a folga aumentar exageradamente, há o perigo de se inutilizar o resto da transmissão. 

 

Augusto

 

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