Vingança, quando, como e por que vingar-se... ou não.

Régis Antônio Coimbra,
14 de julho de 2001

Cabe falar apenas da vingança premeditada, pois a irrefletida é imprevisível e, mesmo quando somos nós que a fazemos ou deixamos de fazer, não raro surpreendendo-nos com nossas reações (ações e omissões). Além disso, a reação espontânea mais ou menos imediata talvez nem seja propriamente uma vingança pois a vingança parece se referir mais a um sentimento que remói que a um sentimento que inflama, diferente da indignação.

Vingança, segundo um ditado, "é um prato que se come frio". Isso, por um lado, como classicamente é ressaltado, indica que para uma vingança ser efetiva é recomendável premeditar as ações (planejar, esperar o momento adequado). Por exemplo, se um parente ou amigo é assassinado e queremos vingança, em outros tempos seria prudente matar os assassinos em emboscada; hoje, é melhor deixar isso (ou provavelmente algo muito mais brando) por conta do estado (policiais, poder judiciário, etc).

Por outro lado, essa imagem do "prato que se como frio" permite evocar, também, que a vingança não é algo que propriamente se saboreia; ao contrário, algo a lamentamos ou sofremos, como um prato que seria desejável comer quente mas só é seguro ou possível comer frio, e somos como que obrigados a comer frio.

O desejo de vingança é muito forte e leis hoje aparentemente cruéis como a do "olho por olho, dente por dente" foram formas de tentar regulá-lo. Pois a tendência é querer, por um olho, matar o agressor e toda sua família, raça, nacionalidade, gênero e assemelhados. Atualmente as leis são muito mais restritivas em relação à vingança e, paradoxalmente, justo quando mais importa vingar-se, os limites legais - que devem ser respeitados - tornam a vingança prudente e legítima tão frustrante que não vale a pena. E quando importa menos, também pouco vale a pena.

O problema é que o desejo de vingança costuma sobreviver à avaliação de que não vale a pena e pode se tornar uma obsessão. Há o estilo "Charles Bronson" na série de filmes "Desejo de matar" e suas variações mais ou menos extremas. E há o estilo "vou me vingar estando e mostrando que estou bem". O humorista estadunidense Seinfeld ironizou esse segundo estilo deslocando-a para a posição dos personagens de Charles Bronson, imaginando um monólogo do tal personagem mais ou menos assim "vocês mataram minha família? Pois bem, vou comprar um carro novo, mudar o guarda-roupa e, divertindo-me, mostrar a vocês o que é vingança."

Se ou quando é possível fazer isso, de fato, é a melhor opção. Mas nos geralmente defrontamos com a impossibilidade de recuperar pessoas ou estilo de vida perdido (supondo a morte de um ente querido, uma mutilação, a perda da honra ou posição) em decorrência de uma justa ou injusta agressão ou prejuízo (lembrando, o sentimento de vingança nem sempre decorre de uma violência ou prejuízo injusto que sofremos). Como se isso já não fosse o bastante, defrontamo-nos também freqüentemente com a impossibilidade de dar o troco que achamos devido ou que, supomos, nos aplacaria. E, para completar, mesmo quando nos vingamos, não raro descobrimos que a realização da vingança é menos satisfatória do que podíamos antecipar ou, pior, deveras onerosa pois, por exemplo, acabamos nos identificando com os agressores, simpatizando com eles ou deplorando em nós mesmos o que inicialmente deploramos neles... pois, ao nos vingarmos, acabamos nos mostrando quase tão ou tanto mais cruéis.

Para quem sente ou pensa assim, é melhor não se dedicar à vingança e tentar superar o desejo de vingança de outros modos. Só para quem não pensa ou sente assim pode valer a pena se dedicar à vingança com satisfação. Nesses casos recomendo, entretanto, que se respeitem os limites legais, pois é geralmente de interesse de todos que as leis sejam seguidas, e uma das melhores maneiras de aumentar a probabilidade disso acontecer é dando o exemplo e, a partir disso, cobrando comportamento similar dos demais membros de uma sociedade e segregação (expulsão, confinamento ou extermínio estatais) dos que não se comportam de modo adequado (que não respeitam, pelo menos, as proibições previstas em lei) num estado de direito não autoritário ou totalitário.

Quanto à expulsão, confinamento ou extermínio estatais como formas de vingança indireta ou regulada, parece ser pouco eficaz. Pois, para as vítimas, pensar no agressor é geralmente mais um prejuízo, e o que o estado faz ou deixa de fazer é sempre frustrante, exceto se permitir esquecer o agressor ou não pensar mais nele como tal. Mesmo a tortura, estatal ou privada, envolve severos riscos e custos para quem a eles recorre para fins de vingança e parece que, quando muito, funcionam apenas para causar medo ou, em casos raros, obter informações, ainda assim com tantos ônus - especialmente na cultura contemporânea - que a maioria dos estados abdicou ao menos oficialmente desse recurso.

Nesse sentido parece haver alguma sabedoria na recomendação cristã e de outras religiões e morais no sentido do perdão aos agressores. Não porque seja justo para com os amigos ou inimigos agressores mas porque é mais confortável para os (justa ou injustamente) agredidos. Em parte isso pode decorrer da influência de certos aspectos da ideologia cristã e outras; por outra parte, parece que há nisso um bom conselho de prudência.

Fora de um estado de direito (o que pode acontecer dentro do território de um estado de direito, dentro de uma organização criminosa, por exemplo) ou num estado totalitário (onde alguns cidadãos podem ser tratados como não cidadãos, por problemas raciais, ideológicos, de gênero ou quotas, etc), entretanto, a questão da vingança pode ser essencial para desestimular outras agressões bem como pretexto para obter vantagens. Mas, mesmo nesse contexto, a vingança geralmente dá pouca satisfação íntima, ou só a custos elevados que podem trazer mais benefícios, mesmo íntimos, se puderem ser direcionados em outros sentidos.

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