Vaca marcada pelo cabra marcado para...
R�gis Ant�nio Coimbra
Novembro de 1999
Se bem me lembro, para Freud, o grande mist�rio de que ele se recordava, mesmo, era se a m�e dele era "marcada" por e para aquele que diziam ser seu pai, ou por e para um de seus meio-irm�os mais velhos, que parecia mais veross�mil para o papel. Mas que j� tinha dono e que o dono ou senhor tinha que ter certas virtudes para dar conta do recado ou responsabilidade, isso parecia estar bem claro para o menino Freud.
Ent�o, neste momento, em que a m�e tem como propriedade essencial o pertencer ao pai ou amante (seja l� quem que realmente ocupa esse papel), a posse do falo j� est� referida ao pai ou possuidor real, por desejado, da m�e, e a identidade de "falo para mim" j� est� referida na m�e, supostamente boa de possuir. � crian�a, que n�o � e tampouco tem o falo, resta se comportar direitinho, o que tanto pode significar bem como mal, conforme o pacto familiar, sob o qual se d� aten��o � crian�a.
No caso de Freud, ele foi ensinado a tentar ser um grande homem com o esperado futuro brilhante que seria, tamb�m conforme se esperava dele, decorrente de seus esfor�os intelectuais, desde muito pequeno. A m�e de Freud o mimava e dizia que ele seria um grande homem, um g�nio, e tinha at� certa corrobora��o mitol�gica familiar, mediante o vatic�nio de uma cigana, em cena bastante marcante para Freud; o pai de Freud, ao contr�rio, o desafiou duramente, por exemplo dizendo, diante de certa incontin�ncia urin�ria do pequeno Freud: "esse menino nunca vai ser nada!".
Penso, ali�s, que a admira��o de Freud pelo seu pai era at� bem maior e expl�cita do que sua pouco lisonjeira d�vida faz parecer. N�o s� o questionamento sobre se era aquele velho mesmo, sen�o o seu pai, o marido ou possuidor de sua m�e, mas mesmo a vergonha de Freud diante da resigna��o de seu pai diante das provoca��es humilhantes a que sua condi��o de judeu o expunha, por vezes at� na frente de seu futuramente famoso filho, podem ter sido mecanismos de prote��o narc�sica, j� que um pai realmente muito poderoso e perfeito dificilmente poderia ser um alvo veross�mil para ser atingido ou superado.
Eu lembro que n�o conseguia acreditar, realmente, que eu chegaria, um dia, a ser t�o maravilhoso como meu pai. At� porque a propaganda que minha m�e fazia de meu pai era monstruosamente grande: ele era, segundo ela, malvado, irrespons�vel, pol�gamo, ego�sta... e ela, ainda assim, evidentemente, se devotava relativamente resignada a tudo isso. Ent�o ele devia ter alguma coisa misteriosa, que eu evidentemente n�o tinha, e que compensava tranq�ilamente todas aquelas reclama��es.
Depois que meus pais se separaram, de modo relativamente espetacular, a coisa n�o ficou melhor, pois n�o apenas a propaganda paradoxal continuou, da parte de minha m�e, como meu pai de fato se escancarou como pol�gamo - enquanto minha m�e tratava muito menos generosamente os seus novos namorados. Ent�o meu pai era para mim um monstro superpoderoso, imposs�vel de atingir, e profundamente invejado e idealizado.
E, tanto pior, minha m�e parecia exercer, com seus namorados, o absoluto poder que meu pai exercera e de certo modo ainda exercia (j� que ela ainda se queixava), sobre ela. Felizmente, acho, ela reclamava que eu era igualzinho a meu pai. Eventualmente, nessas reclama��es, me davam a entender, ou ao menos eu especulava, que eu tinha os defeitos e n�o tinha as qualidades de meu pai. Mas como ela n�o me expulsava de casa e, ao contr�rio, tentava mimar e realmente acabava muitas vezes conseguindo, eu desconfiava que, talvez, eu tivesse algumas qualidades misteriosas, ao menos potencialmente, o que me dava algumas esperan�as. No entanto, realmente, eu tinha sempre a pessimista impress�o de que eu era uma fraude, que eu jamais seria t�o maravilhoso quanto meu pai, at� porque eu tinha horror a ser t�o "malvado".
Ali�s, meu pai era, quando eu era crian�a, um personagem extremamente incompreens�vel para mim, pois era extremamente simp�tico, calmo e divertido; cheio de amigos e de mulheres. Mesmo antes de se separar de minha m�e, eu o via pouco no dia a dia, pois nossos hor�rios n�o fechavam, dado ele chegar muito tarde em casa (pois ia beber com os amigos), quando vinha; e, em casa, estava quase sempre dormindo. Enfim, era um le�o soberano e inquestion�vel, que eventualmente dava o precioso ar de sua gra�a.
E minha m�e n�o ficava para tr�s, exceto em rela��o a ele. Primeiro, contava sempre hist�rias incr�veis de que, com a minha idade (lembro disso mais ou menos relativamente �s idades comparadas de 3 anos), ela j� trabalhava, lavava ch�o, latrina, ajudava na cozinha e tal. Al�m disso, havia uma bolsinha onde ela guardava o dinheiro, e me parecia m�gica, pois eu s� via ela tirar dinheiro daquela bolsinha, onde sempre havia dinheiro ou cheques, sei l�. Para mim j� havia algo fant�stico naquela bolsinha, como a bolsa do gato F�lix. N�o bastasse isso, um dia, quando eu devia ter entre tr�s ou quatro anos, um pivete de uns doze anos roubou, no centro, a bolsa (grande) de minha m�e e... e n�o � que ela, sem pensar duas vezes, saiu correndo atr�s do pivete e pegou a bolsa de volta? e ainda se lamentou por n�o ter podido dar uma cama�ada de pau no azarado pivete.
Ah! e ela tinha v�rias medalhas de, quando adolescente, atirava com arco e flecha, coisa bastante ex�tica e, digamos, b�lica e viril. Entretanto, num dia em que ela aporrinhou meu pai al�m do incr�vel limite que ele ag�entava, levou tapas na cara, sangrou bastante, ficou com a cara toda inchada e roxa... E, � claro, foi no dia seguinte muito orgulhosa, assim, para o trabalho, no funcionalismo p�blico, onde ali�s tamb�m meu pai trabalhava. Bem, desse dia em diante meu pai n�o voltou para casa, e visitando-o, ou mesmo veraneando algumas vezes com ele, vi outra mulher tamb�m o provocar at� ser afastada com um forte empurr�o, bater com a cabe�a, sangrar, latir que ia dar queixa na pol�cia... e ficar por isso mesmo. Em seguida j� estava lambendo meu pai. Ah! e era uma mulher talvez mais bonita e gostosa que minha m�e...
Assim, realmente, era dif�cil, para mim, levar minimamente a s�rio o cristianismo. Afinal, eu me via em meio a deuses quase literalmente ol�mpicos. Deuses que nada tinham de bonzinhos, coerentes ou moderados. E devo confessar que sou profundamente grato a meus pais por isso. Pois assim cresci e descobri que eles n�o eram divindades ol�mpicas, mas humanos, demasiado humanos, e que isso eu n�o s� podia ser como h� muito era, ainda que do meu jeito - que tamb�m eu n�o fora bobo de desafi�-los em suas especialidades.
S� uma coisa ainda admiro como um mist�rio em meus pais, que � a disposi��o deles em terem filhos. Ainda n�o conclu� se s�o simplesmente diferentes de mim ou superiores mesmo. Se bem que eu, o primog�nito de ambos, nasci quando eles tinham mais ou menos a minha idade atual (minha m�e tinha um ano a menos do que eu agora, e meu pais menos uns 3 ou 4 anos).
Minha m�e, al�m e depois de mim, deu � luz um menino, que viveu poucas horas, e depois � uma menina, que viveu por aproximadamente um ano. Bastante tempo depois, adotou, informalmente, primeiro uma rapariga de uns 12 ou 14 anos, depois uma menina de uns 10 anos - o que melhorou infinitamente a minha vida, pois ela passou quase que exclusivamente a aporrinhar essas duas, e a mim deixava n�o apenas em paz como com absurdos poderes e privil�gios em rela��o a elas.
Meu pai teve um filho com aquela do empurr�o e, um pouco antes, uma filha com outra mulher, com quem vive at� hoje; e depois outro filho, tamb�m com essa com quem vive at� hoje.
Assim consegui a proeza de, at� mais ou menos meus 12 ou 13 anos, ser filho �nico, e acho que quem foi filho �nico at� os 12 anos foi filho �nico e pronto. Depois ganhei uma meia-irm�, chamada Regina (que agora deve ter uns 17 anos, e tem um filho de uns 6 meses)... depois um meio-irm�o, que deve ter uns 16 ou 15 anos, depois mais outro meio-irm�o, de uns 12 ou 13 anos, isso da parte de meu pai. Por parte de minha m�e, nos meus 15 ou 17 anos, ganhei uma irm� de cria��o que veio com uns 12 ou 14 anos (que j� tem uma filha de uns 7 anos, e outra de quase um m�s); e, meses depois, mais outra irm� de cria��o, que veio com uns 9 ou 10 anos.
Isso, � claro, me trouxe algumas dificuldades diante daqueles exerc�cios elementares em cursos de l�nguas, em que se pede para que descrevamos nossa fam�lia... mas penso que essas dificuldades, entre outras, n�o me atrapalharam, e sim me ajudaram a me desenvolver.
Para quem essas coisas atrapalham e causam danos... lamento sinceramente, mas talvez mere�am esses "tormentos" em dobro. Se n�o por puni��o, para ver se aproveitam a vida - se acham que isso atrapalha, � porque receberam doses sub-cl�nicas ou toxicas.
No meu caso, o desafio seria a paternidade. Pois, na verdade, ser filho me pareceu muito bom, justo pelas perip�cias. E meus pais me pareceram verdadeiramente entusiastas, sen�o generosos, nessas fun��es.
Mas n�o me obrigo a ser mais parecido com eles do que realmente sou - se bem que tampouco menos.
|