TERAPEUTAS, RELIGIÃO, FAMÍLIA, e VISÕES.

Terezinha Lapa Tude de Souza
CRP 23745 - 5ª RA - Psicóloga
Gestalt-Terapêuta

Hoje, dia 19 de outubro de 1998, tenho o prazer de me apresentar na Sociedade Pestalozzi do Brasil, e na presença de todos para mostrar a importância da família junto ao trabalho do terapeuta e de como o caminhar juntos é parte integrante do nosso desejo de estar em uma Sociedade que se pretenda ser cada dia mais forte e unida, e também tentar esclarecer funções deste nosso caminhar.

O trabalho conjunto, será a participação de todos num debate posterior, numa conclusão que sempre será flexível e que através do debate nos forneçam idéias agradando um pouco a cada um de nós.

Do grego Thérapeutais, deriva do verbo therapeuem, servir,curar, quer dizer : servidores de Deus ou curadores. Praticavam e até hoje praticam as virtudes, Filon, filósofo de Alexandria discípulo de Platão foi o primeiro a se referir a eles. Chamamos atualmente de Terapeutas pessoas de diferentes categorias profissionais, mas que possuem como objetivo desde o curar doenças físicas ou não, minorando os sofrimentos. Podemos tomar como exemplo uma das equipes desta Sociedade na qual estamos e que se compõem: de um psicólogo, neurologista, psicomotricista, psicopedagogo, arte-terapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, pediatra, e outros.

Essênios, que eram agricultores, cerca do ano 150 antes de Cristo, fundaram uma associação moral e religiosa, cujos costumes suaves e virtudes austeras, ensinavam o amor a um Deus e ao próximo, e a imortalidade da alma, condenando a escravidão, que pelas dificuldades econômicas, que nos dias atuais podemos aproximar do tráfico de drogas, que não existia naquela época Guerra seria hoje a luta do dia a dia dentro da violência urbana, e a ou falta de emprego, já que seus bens eram comuns, e partilhados igualitariamente.

Sócrates, um filosofo grego, combateu pela verdadeira virtude acima da hipocrisia e da ilusão do formalismo, era contra os preconceitos, fossem eles o que fossem, como a distinção de cor, que nada mais é do que uma forma química orgânica chamada melanina, status social criado pela diferença financeira em que vale mais quem ganha mais, os preconceitos são atualmente coisas que no passado não tinham tanta importância, apesar de que já existiam, visto que a concepção do mundo era diferente da atual, e, o poder separava e separa aquele que " sabe" dos que "ainda não sabem", pois o saber é um bem adquirido em cada cultura e vem pelo exercício individual do querer de cada um de nós, e que variando de pessoa para pessoa, tanto em anos como em necessidade de aprendizado, e não deve ser visto como um fato de Ter que passar de ano ou Ter ficado reprovado por uma ou mais vezes, já que o aprendizado está ligado a outros fatores que antes não se reconhecia.

Platão seu seguidor nos mostra nesta época o dogma da unicidade de Deus, tivesse ele o nome que fosse de acordo com cada local, e da imortalidade da alma, reconhecida na maioria das Religiões até hoje, e uma de suas falas é : O homem se perturba e confunde quando liga-se a objetos sujeitos e as transformações, ( que são os fantasmas que nos seguem durante a vida) mas ao contemplar sua própria essência volta ao puro, eterno, e imortal (sabedoria).

O afastamento do mundo visível (fantasmas) virá, ao fundamentar resoluções, vem quando resolve ter menores defeitos e maiores virtudes e idéias intuitivas, sendo feito o progresso intelectual e moral, a partir das normas e regras de sua sociedade que passam a ser respeitadas mesmo quando ele não está de acordo com elas.

A doutrina dos Anjos guardiões ou Espíritos protetores ou gênios (daimon, dómon)que nos levavam ao Hades, parte desta época e destes princípios, assim como ressaltamos que da palavra, Daimon não se originou demônio, mas sim Espíritos Superiores chamados deuses. Isto nos mostra, que, a origem das palavras se deturpam com o passar dos tempos, tomando características que antes não possuíam.Da mesma forma, O Homem não havia chegado as estrelas, não tínhamos nem a tecnologia nem os avanços científicos de agora. Jornais, Rádio, Televisão não eram então conhecidos meios de comunicação verbal e visual.

Datam de época remota, as relações dentre os que procuravam a cura de seus sofrimentos quer físicos, quer mentais e daqueles que se propunham a aliviá-los. Assim todas as questões do dia a dia e que são geradoras daquilo que chamamos de "problemas" são de fato o motivo pelo qual todos estamos aqui agora.A importância do contato da família junto aquele que vem e é tratado dentro desta Instituição é um fato extremamente importante já que a modificação de um membro desta família terá repercussão e será causa de mudança para todos.Como até bem pouco tempo atrás, a relação entre as pessoas era mais próxima e portanto as suas verdades discutidas de forma igual dentre iguais, respeitando-se a sabedoria dos mais antigos (anciões) os jovens procuravam seguir suas pegadas e melhorar aquilo que estudavam.

O ensino antigo também teve grande influência pois a discussão das teses dentre os doutores de tais tempos eram defendidas perante toda a população do local. Que apoiava ou não tal ou qual idéia.Temos hoje uma relação de acordo moldada parte no estilo antigo, parte no moderno, o que leva por vezes a interpretações errôneas de parte a parte.

Pensando agir corretamente, alguns não informam aqueles que o procuram seus métodos e formas de trabalho, da mesma maneira, intimidados pelo "saber" daquele a quem procuraram para auxilia-los a melhorar seus dia a dia, deixam de perguntar, ou inquirir qual o método ou forma usada por aquele "Doutor", que na realidade tenta por vezes explicitar não ser o psicólogo um "doutor" mas sim alguém que se formou dentro da área da saúde mental visando a auxiliar a diminuição do sofrimento mental de cada um individual ou coletivamente caminhando lado a lado para melhor entender as emoções que levam ao conflito que gera muitas vezes sintomas orgânicos.

Muitas das vezes, é esta falta de comunicação que leva ao abandono de um tratamento que parece muitas vezes não estar surtindo o necessário alívio ao sofrimento do outro. Diferentes perspectivas do que seja saúde /doença; bem estar/mal estar ... Daí a importância dos diálogos e trocas entre terapeutas e familiares.

Por outro lado, o excesso de informações também pode levar a dúvidas que fazem com que as pessoas sentindo-se intimidadas e confusas abandonem seus tratamentos ou que os familiares sem entenderem as modificações que passam a ocorrer no comportamento de quem está sendo tratado, interrompam algo que lhes parece amedrontador e perigoso.Por esta razão luta um Terapeuta de qualquer área de Saúde contra fatores outros que ficam separados do seu Profissional diário, ou seja, além de terem que lidar com o Seu instrumental diário, devem ainda procurar ir mais além, sem ultrapassar uma tênue linha de conduta e respeitando a ética que lhe aponta seu conselho titular, até onde seja possível para abreviar não só o tempo como a possível Recuperação daquele que se põe sobre sua guarda de forma confiante resguardando como num confessionário tudo o que lhe diga aquela pessoa, e ao mesmo tempo tentado interagir para que fatos que sejam necessários levar a conhecimento da família não venham a atingi-la de maneira não apropriada.

Num caldeirão como no nosso País, onde várias formas religiosas estão presente, e onde cada muitas das vezes se recusa a reconhecer outras formas não só dentre a forma de respeito a sua religião como no referente a miscigenação natural do País, vemos que o problema do preconceito, é na maioria das vezes, o causador da exclusão social de uma criança ou de um adulto, e de dificuldades de trocas.

UM DOS PRECONCEITOS RELIGIOSOS

Podemos exemplificar esta questão pela palavra tão vulgarmente conhecida como "Macumbeiro, ou Macumba", designando uma pessoa de baixo calão e que está sempre prejudicando outra, quando na verdade designa pessoas que praticam quer a Umbanda ou o Candomblé, trazidos pelos antigos escravos e mantidos fora da lei da época por ser considerada não como uma forma religiosa mas sim como um culto pagão, o que mostra, o preconceito no aceitar a forma de ser de outra pessoa achando sempre que a sua forma é a única a ser correta ou verdadeira, e nisto demonstrando falta de conhecimentos não só cultural como dando uma conotação de desrespeito para com a fé e o conhecimento de alguém que julgamos saber menos do que nós. Hoje em dia sabemos que pessoas de todas as classes sociais, de qualquer cor ou raça freqüentam e gostam de ser espíritas defendendo-se do preconceito através da sua forma de fé, com a mesma intensidade que qualquer outra pessoa tem pelo sua forma de cultuar o seu Deus, já que ele lhe parece diverso do Deus do outro, seja pelo ritual ou pela fala verbal.

Na verdade todas as Religiões tem um mesmo princípio básico que são a caridade, a humildade, a fé e a esperança, que cada um guarda a sua maneira dentro de si, e que aumentando um pouco mais nosso conhecimento nos comprova que Deus é um ser que está em todas e quaisquer Religiões sejam elas quais forem e tenha ele o nome que tiver, porém preferimos ignorar a usar o nosso raciocínio na aceitação de alguma coisa que poderá nos levar a um conhecimento maior e melhor do outro por termos medo de reconhecer que somos preconceituosos e que discriminamos no outro aquilo que não entendemos como nosso. Ao que chamamos de etnocentrismo.Isto nos leva a pensar o passado e tentar reverter tal situação de maneira lógica e de forma compreensível a todos, prevendo um futuro melhor e maior entrosamento dentre todos não só partindo da premissa da igualdade como da própria expressão de liberdade individual e coletiva que sempre deverá haver para que o respeito " ao outro" seja mantido.

E que melhor forma de respeito existe do que reconhecer que não existe em nenhuma parte do nosso conhecido planeta, e mais particularmente do nosso País, em que haja alguém que seja exatamente como nós.Cada pessoa é uma pessoa, tem em si uma mistura genética (hereditariedade) peculiar que passará aos seus descendentes, assim como também recebeu uma herança genética, a importância de respeitar, tentando compreender as peculiaridades de cada um daqueles que conhecemos e de quem muitas vezes nos afastamos simplesmente por não sabermos aceitar aquela pessoa como ela é, assim como queremos ser aceitos por todos.O que isto quer dizer na verdade, é que cada um de nós, tem em seus antepassados uma mistura características de cor, raça, religião e que lhe dá gostos de alimentação, vestuário e forma de agir diferente do seu próprio vizinho de quem gosta tanto.A primeira coisa que geralmente fazemos ao brigarmos com outra pessoa, seja ela da nossa família ou não é apontar aquilo que não nos agrada nela, sem parar para pensar o porque nos incomoda tanto aquela forma diferente de ser.

ÂNGULOS DIFERENCIADOS (ou Visões)

Assim, o terapeuta para aquele que está junto dela representa alguém que não censura não tem preconceitos nem critica sua forma de agir ou pensar, mas leva a ver outras visões de um mesmo fato.Quando assistimos um filme todos sabemos conversar a respeito dele, porém cada qual tem sua opinião sobre o agir ou falar de um mesmo ator numa mesma cena, assim, cada situação vivida pela família tem para cada um de seus membros uma forma de visão diferente.

O Terapeuta tenta ver todas as formas de visões, mostra-las com nitidez e levar a repensar cada ato de cada uma das cenas que dia a dia vivemos no nosso meio familiar, E muitas vezes ao criticarmos numa criança seu desapego ou sua forma de agir, estamos na verdade criticando a cada um de nós por alguma coisa que achamos que deveria Ter sido feita e não o foi.Geralmente ouvimos pessoas dizerem - " mas ele/a tem tudo, muito amor e carinho, brinquedos e diversão -". Mas a repressão exercida pelo núcleo familiar se faz na exigência de que aquele que tem tudo, deve ser o melhor de todos (o que na verdade significa que -" eu que tudo dou, sou o melhor para ele e portanto tenho que Ter tudo que sonhei e não consegui até hoje".- Nestes casos sabemos que o sofrimento está não só naquele que nos é trazido como naquele que o traz, e que portanto ambos necessitam de um apoio que os ajude a voltar a viver sem o sofrimento que tanto os incomoda, e realmente passarem a sentir o mesmo afeto e carinho que costumam partilhar por algo que ambos sintam e que lhes faça bem. Este é o nosso papel exercido da melhor forma e com a melhor intenção possível, foi para tal que dedicamos cada um dos nossos dias de estudante, e foi este o nosso desejo sincero.Servir, e sempre servir, cada vez mais e cada vez melhor,buscando sempre estarmos atualizados não só no referencial de nossa área de atuação como no todo que se passa dentro e fora do Nosso País de maneira a nunca perdermos de vista o social e as diferenciações de tradição e cultura para enfim cumprir nossos papeis.
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