Tanta coisa é nada
Régis Antônio Coimbra
Novembro de 1999
Tantos anos de psicanálise
que já não tenho mais do que me queixar
exceto como assumido prazer secreto
que já não adianta mais psicanalizar
Tantos versos já li e escrevi
que já não tenho mais o que experimentar
exceto a liberdade de repetir fórmulas
ou suas ainda mais manjadas superações
Tantos filósofos eu já estudei e, pior, entendi
que não me restam mais questões para levantar
mas para inconvenientemente responder ou deixar à fé
ou para a simétrica descrença, ou mais provável dúvida
Tantas mulheres eu já amei e não gostei
que já não me restam ereções ou sequer desejos
embora isso sempre aconteça de novo, quando menos espero
nas ocasiões mais inadequadas e indesejáveis - o que é o normal
Tantas mulheres eu abandonei
que não me restam paixões
mas recaídas
que já nascem, como tudo o que nasce
com um travo indisfarçável de morte
Tantas mulheres eu decepcionei
que evito dar esperanças
e por isso mesmo as encho de mais esperanças
e por isso mesmo levo às mais terríveis decepções
Tantas mulheres me decepcionaram
que não espero senão por ilusões
inclusive as que sei que duram pouco
e por isso mesmo são tão preciosas
Tantos sonhos e concretas maravilhas viraram pó
que só me resta o suor para grudar o pó
e dar forma concreta aos sonhos com os sonhos desfeitos
e as lembranças das concretas maravilhas destruídas
Tantas vezes eu expirei pela última vez a cada vez
que só me resta inspirar mais uma vez de cada vez
pois não está sob meu poder deixar de respirar
embora eu já deseje a morte, que nunca terei
Tantas coisas eu quis que jamais terei
e tantas tive que não queria mais, que entendi
que mesmo as que eu desejei, perdi ao receber
pois tudo o que eu tenho é não ter não sei o que
Tantos versos agora eu já escrevi neste poema
que por hora e neste eu paro para mudar em outro
exceto se for meu último momento de fazer qualquer coisa
o que, se for, jamais saberei, nem tem qualquer importância
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