Declarações de amor talvez romântico
Régis Antônio Coimbra
11 de janeiro de 2000
Minha cara esposa, eu te amo
mesmo além do contrato
mesmo além da minha paciência
mesmo quando perdes a paciência comigo
mesmo quando não dormes comigo
ou quando eu não te desejo
e, sintomático, ao demorares
imagino, entre preocupado e esperançoso,
que algo horrível possa ter ocorrido
que morreste
que me deixaste
que foste para não voltar
Minha fulminante paixão, eu te amo
muito além do que seria sensato
Por isso mesmo é que sei que estou apaixonado
e dou graças por isso, enquanto durar
Sei que te amarei ainda por muito tempo
mesmo quando a paixão passar, e passará
mesmo quando houver mais lembranças que vida
mesmo quando houver mais rancor do que amor
e ambos nos sentirmos traídos, enganados
quando a apaixonada atração já tiver se convertido
num patológico asco...
ou será um terapêutico asco?
Minha complicada amante, eu te amo
ainda que não me dês muita bola
justo por, paranóica, achares que não te dou bola
E te amarei mesmo que me empurres para fora
ou para outra, ou adiante, ou te sumas
pois depois de tanto arreto e uma única transa
em local público, aliás,
guardei com carinho a lembrança pueril
do abraço e da dança que suamos juntos
e o vislumbre de teus seios, teus pentelhos
tua vulva... e a textura de tudo isso...
tuas coxas vigorosas e macias...
enfim, essas coisas românticas... acho...
e as coisas românticas que não escreveste para mim
mas que escreveste, e eram tão belas
Minha querida amiga, eu te amo
há tanto tempo e já tão escaldado
que por vezes até pensas que já não te amo
que te quero só um pouquinho
e que esse suposto pouquinho é insuficiente
Mas eu simplesmente te amo ainda e mais ainda
e essa convicção sem militância
essa afeição serena e essa atração tranqüila
são o tesouro peculiar que conquistamos
e que, espero, saberemos desfrutar
Minha querida esperança, eu te amo
sem nem te conhecer nem te amar pessoalmente
apenas tolamente enfeitiçado por teu jeito de falar
pelas estrias nos cantos de tua boca
pelo teu altivo e delgado porte
tua pele tão alva em contraste com teu pêlo
Eu te amarei sempre
mesmo se ou quando eu perder as esperanças
e te mostrares impossível
provavelmente por me considerares impossível
se não, com alguma razão, asqueroso e doentio
Minha querida estranha, eu te amo
embora nem teu nome eu saiba direito
e sejas amiga de outra que me dá esperanças
sem me iludir
Eu te amarei mesmo depois de te conhecer
e ver que não és bem assim
assim do jeito que eu nem sei bem como esperava que fosses
pois também apenas viajei no jeito de teu sorriso
no contraste de tua pele contra teus cabelos e olhos
no teu porte mais roliço ao lado de tuas amigas
no teu cabelo mais crespo e curtinho...
numa rápida contemplação de teu decote...
enfim, nada mais do que uma coleção de fetiches
que são nada... e valem tanto
Minha querida senhora, eu te amo
apesar ou justo por seres mãe de alguém
e ainda seres tão bela, gostosa e provavelmente
como de certo modo até já provei
mais fogosa que tua filha
Eu te amarei mesmo depois que embagulhares
eu não tiver mais grande atração por ti
e muito menos preferência
o que se dará muito depois do que pensas
ainda que em grande parte porque assim pensas
e me fazes pensar sobre como pensarei e pensarão
quando eu for um senhor
no sentido pouco respeitoso do termo
algo como titio
o que se é que está distante
não está tão distante assim...
Minha querida mulher que passas, eu te amo
às vezes tão bela, outras tão gostosa
sempre tão variada e ao meu gosto
pois só noto tua sexual presença
quando e porque passas
a cada vez numa versão diferente
que sempre me atrai
Eu te amarei mesmo depois que passares
depois que eu te esquecer quase que completamente
quando ainda volta e meia te reencontrarei em outra
ou mesmo em algumas das mesmas
que se repetem diferentes a cada passagem
Minha querida filha, eu te amo e
justo por isso reluto tanto em te conceber
Outro tanto, é claro, reluto
por preguiça, medo e imprevidência
mas te amarei mesmo se ou depois que nasceres
por mais que tua realidade me contrarie
ou mesmo por mais que me contrariares
pois lá pelas tantas, estou certo
o termo "minha", como se espera
será apenas retórico
e cuidarás de teu nariz e teu rabo
quer eu queira, quer não...
Minha querida mãe, eu te amo
há mais tempo do que a qualquer outra
e ainda que eu não seja de beijos e abraços
o relativo asco e desconforto é artificial
protetor, para facilitar o respeito às regras
que mesmo assim vivemos no limite
Eu te amo mesmo agora que somos estranhos
que nossos interesses não são opostos nem simétricos
apenas diferentes
sem obediência ou rebelião
Minhas queridas tantas, eu vos amo
mesmo as que nem existem, são tantãs, ou
ainda, são completamente diferente do que suponho
Só não vos amarei mais quando eu passar
dessa para nenhuma
perdendo-vos todas
minha voz
o mundo
e a mim mesmo
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