Sobre "Morte e Vida Severina"

R�gis Ant�nio Coimbra
1999

Morte e vida severina � um longo poema de Jo�o Cabral de Melo Neto - que, na verdade... desconfio s� conhecer de uma adapta��o cantada feita h� anos para a televis�o... - em que um retirante medita sobre a vida e a morte. Num primeiro momento, no sert�o, o faz no contexto de um enterro de um infeliz morto por uma bala perdida. Num segundo momento, no litoral nordestino, o faz no contexto de um enterro de um infeliz assassinado. Num terceiro momento, no mangue, reflete sobre a lama e a sujeira da vida e inclina-se ao suic�dio, mas o nascimento de uma crian�a e o discurso do pai dessa crian�a o demove desse intento - ou falta de.

No primeiro cen�rio n�o falta estado, falta riqueza. Para os nordestinos sertanejos bastaria migrar para o litoral que a vida melhoraria muit�ssimo. Morreriam muitos, � claro, mas acontece que a prosperidade mata. De cacha�a, comida ou mesmo HPs de pot�ncia e o pessoal come�a a se matar, sem querer. No segundo cen�rio, no litoral, sim, falta estado. Falta, entretanto, o estado liberal, pois � bem sabido que o estado patrimonial n�o deixa de endossar aquelas distor��es denunciadas no poema, e tal estado, suas estruturas e custos � o que mais, na pr�tica, vem sendo defendido pelas esquerdas brasileiras, ficando a saud�vel e necess�ria reforma, lamentavelmente, para as por contraste tidas por direitas - � incr�vel, mas mesmo o ACM, expoente do estado patrimonial (em cujas regras, ali�s, n�o se pode negar que fosse um bom pol�tico), tem sido um mais construtivo reformador do que os antigos cr�ticos do estado do qual ACM era, como j� disse, um expoente.

Seja como for, se o estado n�o se metesse tanto, eu j� estaria morto ou j� teria matado umas 50 pessoas que resolveram engrossar comigo. E h� as inst�ncias pr� estatais que erram na forma mas nem tanto nos objetivos. J� nas s�ries iniciais tive vontade de matar uns colegas que eram violentos comigo (acabei advertido por morder a m�o de uma menina muito mais velha que eu que tentou me arrastar � for�a para o banheiro das meninas - eu, confesso, achei muito estranho que minha leg�tima defesa tenha sido recriminada, afinal a menina n�o tinha o direito de me arrastar � for�a, muito menos para onde era proibido - se fosse o contr�rio, eu estaria gravemente encrencado).

O �ltimo cen�rio j� n�o � pol�tico social, mas psicopatol�gico e, talvez, filos�fico. Pois j� n�o se trata de pobreza ou opress�o, mas de est�tica. O mangue � riqu�ssimo assim como um lix�o de um metr�pole. Em caso de guerra ou outro desastre eu provavelmente ficaria contente se pudesse comer um rat�o de esgoto ou lavar roupa e tomar banho no Guahiba (� assim que se escreve?) ou riachos ainda mais suspeitos; de barriga cheia, me sinto eventualmente deprimido e sem perspectivas se n�o posso freq�entar certos restaurantes ou bares pelos pre�os proibitivos, e possivelmente preferia morrer a ter de comer restos do lixo - mas comeria, � claro, se tivesse tempo para me acostumar com a id�ia, se tivesse filhos para alimentar e outras curiosas armadilhas.

N�o estou brincando: se agora eu tivesse de escolher entre comer do lixo e ser executado a tiros, talvez eu preferisse ser executado a tiros. Na verdade j� arrisquei a vida por bem menos. E se eu tivesse que cuidar de terceiros (filhos ou animais de estima��o, por exemplo) e o lixo fosse a �nica alternativa, eu provavelmente n�o s� o recomendaria como tamb�m a ele recorreria. Como se diz, para poder continuar minha miss�o. E, na verdade, penso que j� me submeti a algumas indignidades compar�veis, suportadas sem maiores problemas apenas porquanto dentro de um contexto em que contavam apenas como meios para obter certos resultados com os quais eu me sentia identificado.

A vida, hoje, � muito f�cil, e estamos todos muito bem preparados para ela. A prova � a abund�ncia sem paralelo de gente viva em condi��es tamb�m sem paralelo. Muito miser�vel de hoje � mais forte e saud�vel que a m�dia de outrora, e mesmo de muita gente at� remediada de outrora, por exemplo, de h� 100 anos. Isso n�o significa que n�o tenhamos problemas s�rios.

Um � a vaidade. O romance epistolar "Liga��es perigosas" daquele franc�s bem mostra o potencial mort�fero a vaidade e sofistica��o - e o filme holliwodyano (com a G. Close, a M. Pfiffer e o...) foi extremamente recatado na adapta��o do final moralista original, bem pintado com as pragas e mazelas da �poca, comuns � pobres e ricos, apenas mais disfar�ada por estes.

Outro, psicopatol�gico, � a depress�o e suas variantes. Tratamos muito bem a �gua e, s� por isso, nossa expectativa de vida � muito maior do que em mil�nios mesmo de vida civilizada, e uma s�rie de outras doen�as e conflitos que nos dizimaram por mil�nios hoje s�o t�o raros que temos mais horror a eles do que nossos antepassados, para quem faziam parte do dia a dia. Sobram ainda, entretanto, uma s�rie de pequenas enfermidades que sempre nos acompanharam e, mesmo j� na antiguidade cl�ssica, foram descritas. S� que, enquanto as duras condi��es mesmo dos mais abastados relegavam essas perebas como curiosidades e idiossincrasias, hoje, como dizem os m�dicos, a prosperidade sem precedentes as transformam em epidemias: ou seja, como n�o morremos e n�o sofremos com outros e mais rudes males, acabamos morrendo e sofrendo - igualmente, ao menos no fim, embora o tamanho e a qualidade do antes e do meio fa�a toda a diferen�a - das perebas que v�o sobrando. Enfim, se n�o morremos violentamente, ou com alguma infec��o, ou de c�ncer... bem, morreremos de alcoolismo ou obesidade, ou de caspa, ou de pregui�a, ou de vergonha...

Por fim, h� a quest�o filos�fica: j� que n�o precisamos nos preocupar tanto para sobrevivermos... ahmn... mas para que �, mesmo, que serve a vida? Por que nos preocupamos tanto em sobreviver, n�o s� como indiv�duos mas como grupos, culturas e mesmo esp�cie? Como Arthur C. Clark em "Fim da Inf�ncia", eu me pergunto que gra�a haveria na humanidade caso entr�ssemos em contato com culturas e esp�cies muito mais avan�adas que a nossa, que fossem tudo o que gostar�amos de ser e at� mais, que nem entender�amos muito bem... Eu, francamente, acharia muito chato viver numa esp�cie de reserva para animais e civiliza��es ex�ticas, mesmo que tal reserva fosse de dimens�es planet�rias ou mesmo gal�ticas - curiosamente, toda a tradi��o judaico-crist� v� o homem justamente como um animalzinho de estima��o de um ser superior, que vai gradualmente ficando mais e mais omnipotente conforme as sucessivas descri��es que recebe.

O "Severino retirante" vai gradualmente pegando nojo pela vida conforme come�a a tentar a enquadrar por perspectivas demasiado cr�ticas e filos�ficas, genialmente abordadas sempre o tanto quanto poss�vel pela curiosa ret�rica "objetivista" de J.C.M. (ali�s, n�o sei bem que reparos ele queria fazer no poema, mas talvez tenha achado o poema um tanto melodram�tico e subjetivo... mas a� o poema ficou famoso e, como ele dizia, "j� n�o se sentia no direito de mexer"). No fim, � trazido � vida com um muito concreto expediente. Depois de alguns enterros, em que "Severino retirante" vai se acostumando a morrer, com um nascimento e um exemplo de resignado entusiasmo pela vida (do pai, "Jos�, mestre Carpina"), desiste de desistir.

Se J.C.M. fosse um rom�ntico, seu "Severino, retirante" teria, certamente, se afogado no rio... e o pr�prio J.C.M. provavelmente morreria de tuberculose ou s�filis, ou em alguma revolu��o... ou de tuberculose e s�filis em meio a uma revolu��o, que o neg�cio era meio agitado e miser�vel na Europa rom�ntica, e at� � guerra civil estadunidense as guerras matavam mais de peste que nos combates (o problema � que a paz tamb�m matava uma barbaridade - e, mesmo hoje, parece que todo mundo morre... s� que mais bem mais tarde, ap�s longas e ricas vidas, mesmo na m�dia dos mais miser�veis).

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