Sexo e amor
R�gis Ant�nio Coimbra.
1999
Um participante de uma lista de discuss�o por correio eletr�nico enviou uma mensagem sobre sexo e amor, e no in�cio come�ou se desculpando por achar que o texto estava muito confuso e tal. De fato, fez alguns breves coment�rios sobre libido e puls�o que me pareceram um pouco obscuros. Lamento que nem todos conhe�am o texto dele, mas... mas nem tanto.
N�o achei o texto desse participante da tal lista mais confuso do que o debate a que se prop�s. � claro que seria desej�vel que, com dedica��o exclusiva, fizesse um herc�leo trabalho e deixasse tudo muito claro... a� bocejar�amos no meio do texto e n�o o terminar�amos de ler, at� para n�o perder o mist�rio que fazemos quest�o de preservar neste assunto. Come�o a desconfiar que os psicanalistas ou simplificam demais para ningu�m levar muito a s�rio, ou complicam demais para ningu�m ter uma id�ia muito clara do que est�o falando... assim sustentando uma edificante f� - e sendo sustentado por par�quias edificadoras ou assim "edificadas". Temo que, em todo caso, eu esteja provavelmente incorrendo um pouco em ambos v�cios agora e espero que o leitor seja bem esperto e escaldado.
Na quest�o um tanto �rida - ou, ao contr�rio, demasiado f�rtil - da puls�o e da libido, considero que h� uma s� puls�o, que chamamos disso ou daquilo conforme sua rela��o com certa regi�o do corpo (oral, anal, e sei-l�-mais-o-que) e com o objeto (er�tica) ou o eu (mortal). Libido objetal e objetivada, para mim, tamb�m � uma libido s�, diferenciada conforme seu objeto (o objeto externo ou o pr�prio eu). Tudo bem que o eu � conhecido conforme se tem consci�ncia da falta do objeto, falta que, doendo, nos d� ci�ncia de nossa constitui��o, essencialmente deficiente, e por isso interessada. Ah! e quando n�o precisamos de nada, estamos mortos... e, mortos, n�o precisamos - nem podemos - saber disso.
Mas isso � demasiado �rido... ou demasiado f�rtil. Para mim � metaf�sica e l�gica. O assunto seria sexo e amor...
Sexo e amor s�o dois destinos independentes da puls�o. Posso amar o sexo, posso amar algu�m e posso amar e ter interesse sexual por algu�m. Sexo com amor � mais gostoso, mas sem amor tamb�m envolve amor e � gostoso. Ahn?! � o seguinte: quando fa�o s� sexo, sozinho, por exemplo, al�m do amor pr�prio, tamb�m tenho amor pela bela - ou interessante de algum outro modo - imagem da posi��o sexual preferida nestes casos: homem reclinado, mulher na revista. Se me concentro direitinho, � gostoso; e se estou encucado com outras quest�es, h�, digamos, ejacula��o sem orgasmo... mas isso tamb�m acontece no sexo oficial, com coito vaginal e tudo... embora a� seja mais comum broxar no meio... ou no fim, sem gozar nem ejacular... Mas dando uma de mulher e dizendo que foi bom mesmo assim, e bl�-bl�-bl�... ou sendo franco, com um sil�ncio ou franqueza constrangedores...
As coisas podem se complicar de tal modo que n�o apenas se tem sexo sem amor como se tem sexo sem sexo, que por isso � um sexo (transa) danado de ruim. Em parte porque se transa pelas mais variadas raz�es, desde por paix�o at� por cortesia. Ou ainda, por vezes, se come�a a transar por curiosidade, se insiste para ver se n�o melhora com o entrosamento... mas fica cada vez pior. O engra�ado � que se pode ter umas dificuldades iniciais, certa tens�o misturada com falta de entusiasmo, ou mesmo acidentes dolorosos que tiram drasticamente o interesse... Mas com "boa vontade" vai-se perdendo essa falta de jeito, pegando alguns macetes do modo peculiar de transar de alguma mulher... e a� tudo funciona bem... mas continua uma droga. N�o � que seja ruim... mas n�o � bom, d� mais trabalho que prazer e, enfim, se se pensa nisso, as coisas v�o muuuuito mal.
O sexo com amor! � t�o bom... mas n�o me lembro de ter sexo com amor quando amava, e sim quando estava apaixonado. E, para ser franco, nem sempre eu estava transando com a mulher pela qual eu estava apaixonado... As considera��es de que seria melhor ainda o sexo com a mulher por quem eu estava apaixonado... bem, parecem-me fazer parte das bobagens que se diz ou pensa quando se est� apaixonado... e que s�o muito gostosas de dizer ou acreditar... Eu sei que n�o � verdade, experimentei contra exemplos em que a paix�o e as rec�procas idiossincrasias n�o colaboraram... mas se consigo me concentrar e me entregar ao transe da paix�o... bem: "ah! que maravilhoso seria, mais ainda, se..."
Eu amo profundamente qualquer mulher com a qual eu goste de transar... isso n�o quer dizer que eu goste de conversar com ela. E da� se deduz que n�o amo tal mulher. O problema � o pre�o. O sexo bem que podia valer por si mesmo: cada vez que � bom, � bom. Mas... mesmo que todo o rito do longo e refinado sexo oficial recomendado pelas revistas femininas seja seguido, com muitas car�cias, algum coito e ternura subseq�ente... bem, as mulheres s�o infinitamente exigentes com homens generosos... � uma esp�cie de compuls�o � pechincha amorosa. Talvez seja uma manifesta��o da inveja do p�nis - seja ou n�o t�o genital assim (ali�s, o p�nis parece n�o ter, para as mulheres, muita import�ncia genital, algo assim como os seios femininos, que n�o tem a menor import�ncia na mec�nica do coito... mas cujo formato, tamanho, n�mero, cor, textura... bem, t�m import�ncia sim).
Minhas exig�ncias tamb�m n�o s�o pequenas, embora bastante diversas. Gosto que a mulher goste s� um pouquinho de mim. N�o muito, s� o suficiente. Como eu sou maravilhoso, isto � muito dif�cil... Al�m disso, o joguinho de se fazer de dif�cil � muito manjado e facilmente degenera em exageros, desmentidos, ultimatos e retrocessos - para os quais n�o costumo dar uma segunda chance. Enfim, gosto que a mulher, sem fazer esfor�o, sem malandragem, e sem pedidos exorbitantes, mantenha-me apaixonado por ela. Para isso ela deve ser maravilhosa e apenas me dar bola, sem nada de paix�es muito arrebatadas, sacrif�cios e cobran�as exageradas. Pode at� estar apaixonada, mas que se controle!
O problema � que o equil�brio � a coisa mais incomum. O exagero, para um lado ou outro, � quase inevit�vel. Normalmente, ou se faz juras desmedidas... ou se fica t�o controlado que parece desinteresse. Mulher, dando "uma baita bola" � uma coisa eventualmente muito engra�ada, pois � convencional, coisa de malandro: tem que entender o c�digo. Eu, que n�o sou muito malandro, nunca sei qual � a l�sbica, qual me olha com desconfian�a, qual me acha rid�culo e qual est� me dando "uma baita bola" (exceto, � claro, se a interessada fica me encarando e puxando assunto - o que n�o quer dizer que depois n�o diga, espantada, que n�o entende porque levei para este lado... talvez por ter se decepcionando durante a aproxima��o, ou tendo na aproxima��o j� tudo o que queria).
Bem, para encerrar este intermin�vel bl�-bl�-bl�, cito Vin�cius de Morais, no bl�-bl�-bl� do "Samba em ora��o" (aquele do "� melhor ser alegre que ser triste, alegria � a melhor coisa que existe...): "a vida � a arte do encontro... embora haja tanto desencontro pela vida". Eu apenas acrescentaria que, embora o gostoso seja procurar, n�o h� por que temer encontrar, para isso tomando precau��es: na verdade, n�o h� perigo algum, e o que se achar, pode-se desfrutar o quanto for, parcialmente, satisfat�rio. A vida acaba, mas n�o por se realizar plenamente. Acaba porque n�o � eterna, n�o porque se atinge o infinito.
|