A quest�o central da psican�lise e alguns enfoques elucidativos e cruciais - III
R�gis Ant�nio Coimbra Abril de 1999.
Psican�lise e terapia - desej�vel obsolesc�ncia?
O quanto a psican�lise tem de terap�utico e o quanto a perspectiva terap�utica pode se beneficiar com a abordagem da psican�lise? Pessoalmente, penso que a psican�lise � s� colateralmente terap�utica, e que seria bom que se tornasse obsoleta como terap�utica. Neste sentido o pr�prio Freud j� previa que poderia chegar um tempo em que a cara e pouco confi�vel psican�lise fosse substitu�da por tratamentos que fossem direto �s determinantes neurol�gicas das neuroses, que a psican�lise, mais onerosamente e indiretamente, abordava por uma perspectiva verbal e transferencial, ou, assim, ps�quica.
Infelizmente, apesar de enormes avan�os no conhecimento e manipula��o das determinantes neurol�gicas nos �ltimos anos, ainda n�o chegamos a este ponto previsto por Freud. Em parte porque a psican�lise seja um m�todo razoavelmente eficaz, ainda que n�o tanto eficiente, de se interferir mesmo sobre a fisiologia neurol�gica, que tem uma rela��o de duas m�os com o ps�quico: n�o s� o neurol�gico influi sobre o ps�quico, como com drogas ou estimula��es el�tricas se pode facilmente demonstrar; tamb�m o ps�quico influi sobre os processos neurol�gicos - razoavelmente observ�veis, ainda que necessitando de bastante sofisticados equipamentos - como as altera��es metab�licas p�s traum�ticas podem mostrar, em configura��es duradouras, quando n�o irrevers�veis, e recursos mais revers�veis, como o relaxamento, a simula��o deliberada de express�es faciais associadas a determinados estados emocionais ou o simples "pensamento" ou discurso aud�vel sobre certos assuntos, que produzem observ�veis e consider�veis altera��es neurol�gicas, coerentes, ainda que fugazes ou ao menos revers�veis.
Assim a psican�lise ainda � um meio razo�vel de se lidar inclusive com alguns problemas relativos � pr�pria din�mica de certas estruturas do c�rebro que podem apresentar defici�ncias constitutivas, traum�ticas ou por configura��es decorrentes da educa��o ou acomoda��o n�o pontualmente traum�ticas mas efetivamente patog�nicas. Neste sentido �, ainda, n�o raramente uma maneira menos agressiva e com menos efeitos colaterais que tratamentos com drogas, que s� recentemente t�m sido melhor usados e mesmo projetados com sucesso no sentido de n�o causarem para efeitos t�o ruins quanto os efeitos ruins que minimizam. Entretanto n�o se pode esquecer que a psican�lise � normalmente muito cara, e seus resultados podem ser n�o s� lentos como francamente danosos - ou seja, dada a mesma din�mica neurops�quica pela qual felizmente n�o � in�cua, a psican�lise pode danosamente n�o ser in�cua.
Assim, em termos terap�uticos, a psican�lise n�o tem o privil�gio da m�xima efici�ncia (rapidez e profundidade), nem da m�xima seguran�a, n�o raro sendo mais do que recomend�vel a concomit�ncia de tratamentos medicamentosos antes e durante o trabalho propriamente psicanal�tico. Al�m disso, � bastante evidente que nem toda psicoterapia � psicanal�tica, de modo que ainda que a medica��o ou outros meios de interven��o direta nos processos neurol�gicos determinantes do ps�quico n�o substituam jamais toda e qualquer psicoterapia, ainda resta perguntar se essa psicoterapia deve ser psicanal�tica, ou se a psican�lise se presta para estas precisas exig�ncias terap�uticas.
Como o pr�prio Freud reconhecia, os neur�ticos graves nunca ficavam t�o bem como as pessoas saud�veis, sempre passando muito mais trabalho para fazerem apenas toleravelmente o que as pessoas normais conseguem fazer bem e sem maiores esfor�os. Neste sentido, a psican�lise apenas aliviava moderadamente as dificuldades dos graves neur�ticos, mudando a atitude que refor�ava as dificuldades como �libis para as vis estrat�gias de se fazer de v�tima, da hipocondria ou da convers�o hist�rica, mediante as quais inusitados parasitismos e tiranias se tornavam poss�veis.
Mas pode-se dizer com alguma raz�o que ao menos as formas mais expl�citas ou espetaculares disso, como nas convers�es hist�ricas, foram erradicadas pela simples populariza��o da psican�lise. Em outras palavras, a simples vulgariza��o do bord�o "Freud explica" inviabiliza certas formas de manifesta��o neur�tica com que o pr�prio Freud muito se deparou, originalmente.
Entretanto, acredito que desde o in�cio os maiores benef�cios da psican�lise n�o s�o os terap�uticos, mas os educativos. Ou seja, as pessoas normais, ou os "neur�ticos normais", estas s�o as que mais se beneficiam com a psican�lise pois, de certo modo, estas s�o as que t�m de lidar com os limites constitutivos da natureza humana propriamente, e n�o com defici�ncias ou desequil�brios n�o apenas ps�quicos, mas constitutivos, como Freud tamb�m sempre distinguia.
De certo modo a psican�lise nos ensina a ir t�o longe quanto queiramos e possamos, e as pessoas menos constitutivamente prejudicadas podem ir mais longe - e n�o me refiro ao sucesso em uma habilidade espec�fica, mas � harmonia geral de um ser humano saud�vel e culto. Para este a psican�lise permite a m�xima realiza��o, nos limites do humanamente poss�vel. Neste sentido, mesmo que como terapia a psican�lise se torne totalmente obsoleta, como recurso cultural de conhecimento e desenvolvimento pr�prio, a psican�lise pode n�o se tornar obsoleta, assim como a matem�tica e a filosofia n�o ficaram, desde que n�o fique estagnada como uma ou outra escolas destas ficaram.
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