A quest�o central da psican�lise e algumas enfoques elucidativos e cruciais - II

R�gis Ant�nio Coimbra
Abril de 1999.

Sexualidade e castra��o.

O problema da sexualidade, aned�tica e classicamente associado � psican�lise, � uma marca da �poca de Freud, que viu o auge da era vitoriana e sua violenta decad�ncia e refluxo. Essa marca hist�rica que leva Freud a escolher a sexualidade como modelo do desejo deve-se � limita��o muito espec�fica, e exacerbada na era vitoriana, a se falar da sexualidade. Ou seja, n�o se tratava tanto de limites ao que se podia fazer, mas do que, onde e como, se podia comentar o que se fazia ou deixava de fazer... daquilo que n�o se podia falar abertamente. N�o se podia falar nem ver nada... daquilo. E, assim, para evitar alus�es �quilo, at� as pernas dos pianos eram, em alguns casos, cobertas.

� bastante claro que, al�m da sexualidade, tamb�m o poder ou o interesse em geral s�o todos express�es do desejo humano. A castra��o ou limites importam aqui conquanto, como observou o antigo Arist�teles (na "�tica a Nic�maco") e o moderno Descartes (nas "Medita��es Metaf�sicas"), n�s n�o desejamos apenas o que podemos alcan�ar, mas muito mais. Assim, a sexualidade � apenas uma das express�es do desejo humano limitada pela realidade f�sica, biol�gica e cultural.

Tamb�m o poder, o dinheiro, a pol�tica envolvem restri��es que limitam mas menos o que se pode ou n�o fazer, mas principalmente o modo de se fazer ou deixar de fazer certas coisas. E tamb�m a doen�a, a morte e outras inevitabilidades t�picas da fragilidade humana s�o envoltas em severas restri��es. N�o se trata de poder morrer ou n�o, ficar ou n�o doente, mas de como se pode falar disso, de como se deve reagir publicamente a essas quest�es.

Freud fez um cavalo de batalha em cima da sexualidade e, assim, de fato, a sexualidade virou uma esp�cie de desafio aos que pretendiam entender a originalidade da psican�lise. Com alguma raz�o, Freud lutou contra a tentativa de se fazer da psican�lise algo inofensivo. De fato, o que ele pretendia estar escancarando era o lado constitutivamente disfar�ado da cultura em rela��o aos interesses comezinhos constitutivos do querer humano. S� que isso j� havia sido feito muito antes, e melhor, por exemplo, por muitos fil�sofos, como Thomas Hobbes. Este apresenta o homem muito clara e adequadamente como uma m�quina desejante que, para viver proveitosamente, precisa viver em sociedade e, por isso, com limites, sob pena de, sem limites, cada um contar n�o apenas como limite mas mesmo obst�culo e risco iminente de morte - pois cada um querer� matar o outro antes que o outro o mate.

Sen�o o descaso da comunidade cient�fica espec�fica, a lenta mas firme rea��o do resto da comunidade culta contra as associa��es sistem�ticas que Freud propunha, de todos os interesses humanos com a sexualidade, como que confirmaram que a estrat�gia era boa. Apenas porque, na �poca, para os interlocutores de Freud, nada era mais obsceno que a sexualidade - e como se isso n�o bastasse, Freud colocou, com alguma raz�o, outros tabus no jogo, como o do patric�dio e do incesto, e disse que toda a cultura se estrutura em torno disso.

De certo modo, at� est� correto. Mas, principalmente, funcionou. Pois se o homem ser o lobo do homem causou alguma pol�mica, como no caso de Hobbes, ou a raz�o ser apenas uma paix�o relativamente calma, como insistiu Hume, brevemente acordou alguns, como Kant, de seus sonos dogm�ticos, entretanto foi Freud, com sua vers�o obscena da natureza humana, quem teve muito mais repercuss�o, causando tamb�m muito mais �dio e fanatismo que os dois fil�sofos citados juntos. Ou seja, que somos interesseiros e malvados, j� desconfi�vamos; que nossos arrazoados mais neutros e objetivos n�o tem mais valor intr�nseco que quaisquer outras idiossincrasias humanas, tamb�m, tudo bem. Agora, dizer que h� inten��es sexuais por tr�s de tudo o que fazemos ou queremos, de todo romantismo e da mais refinada arte! Com isso ficaram todos ou insultados ou encantados... ou ambos.

Se observamos o que significa a sexualidade em Freud, notamos que n�o � o que normalmente se entende por sexualidade, ou seja, n�o � a sexualidade e... ponto. A sexualidade, ou mais precisamente certo tipo talvez bastante hist�rico de sexualidade, foi apenas o modelo disso a que Freud queria se referir, que � o interesse que n�o se deve admitir, se poss�vel, nem para si mesmo. Era, num primeiro momento, o modelo da hipocrisia constitutiva da cultura; num segundo e mais sofisticado momento, o modelo da impossibilidade, tamb�m constitutiva, de se saber, total e exatamente, o que e por que se quer.

Isso pode ser curiosamente verificado conquanto, muito bem intencionadas, conhecendo as teses de Freud e fazendo uma adapta��o psicanal�tica da d�vida hiperb�lica da primeira Medita��o de Descartes, algumas pessoas tentaram ser totalmente francas sobre seus interesses, o que, na pr�tica, significava sempre pressupor "m�s inten��es" em todos seus interesses, s� para descobrirem que, mesmo assim, nunca se sabe perfeitamente o que se quer e por qu�.

Ent�o, uma perspectiva ing�nua da psican�lise ver� uma representa��o da c�pula em tudo o que fazemos em tudo o que fazemos; uma perspectiva um pouco mais sofisticada ver� a representa��o da satisfa��o de um desejo inconsciente (o que � bastante vago, e pode ser virtualmente qualquer coisa); e, enfim, o que est� em jogo � a nega��o da insatisfa��o, da imperfei��o, da finitude humana... Ou, como diria Freud, fazendo uma associa��o sexual, trata-se sempre de uma nega��o da castra��o - em que a c�pula, coitada, por sua vez ressurge como um ideal de completude e satisfa��o perfeita... coisa que, infelizmente, nem a c�pula, nem nada, �.

A li��o relativamente edificante da psican�lise sobre a castra��o.

A li��o da psican�lise sobre a castra��o � que, por um lado, n�o tem rem�dio; por outro, n�o � propriamente uma doen�a, e n�o precisa de rem�dio mesmo. Por fim, e mais importante na maioria dos casos, a psican�lise serve para, na medida em que mostra que n�o tem rem�dio e que n�o h� necessidade de rem�dio, permitir que os rem�dios caros e de consider�veis efeitos colaterais, que se comumente usam, sejam, tanto quanto poss�vel, abandonados; ou, ao menos, aliviados no que causam excessivos problemas.

Na psican�lise de Freud, o rem�dio oneroso eram as neuroses com as quais, e tamb�m das quais, seus clientes se queixavam. Para a pervers�o e para a psicose Freud n�o tinha li��es a dar, apenas para receber, n�o sendo os perversos e os psic�ticos objetos de tratamento psicanal�tico, mas de estudo e, talvez, de terapia gen�rica, de resultados ainda mais duvidosos e potencialmente mais danosos que ben�ficos do que j� no caso das neuroses.

Pois o ilus�rio rem�dio dos neur�ticos contra a castra��o, que se baseia em negar as inten��es e satisfa��es parciais, � pass�vel de ser objeto de decisiva insatisfa��o, ele mesmo, para os pr�prios neur�ticos. Assim, h� alguma li��o edificante que a psican�lise pode dar: n�o tem rem�dio; n�o h� necessidade de rem�dio; a vida � ao mesmo tempo o problema e a solu��o - ainda que parcial, arriscada e tempor�ria.

J� o rem�dio do psic�tico - isto �, sua forma peculiar de negar a castra��o, os limites - � radical demais, e nega a realidade do mundo e a identidade do sujeito, e qualquer confronto com a dita castra��o tende at� a recrudescer esta estrat�gia, e em alguns casos pode n�o sobrar ningu�m sob tal rem�dio.

O rem�dio do perverso, sobre o qual tenho mais d�vidas, por um lado �, talvez, eficaz demais, e o confronto com a castra��o costuma apenas ressaltar as vantagens de tal rem�dio, e ao aperfei�oamento de seus efeitos e modos de usar; por outro, talvez os perversos, ou alguns tipos de perversos, n�o tenham propriamente uma estrat�gia de nega��o da castra��o, mas de aceita��o pragm�tica da castra��o, ou do que chamei de o outro lado da castra��o, que � o do que podemos fazer - o problema � que os perversos pouco precisam dos psicanalistas, o que n�o � um problema para eles, mas para os psicanalistas, o que causa uma s�rie de divertidas recrimina��es morais dos psicanalistas, neur�ticos quase que por defini��o, contra os perversos, como se estes estivessem tirando alguma vantagem injusta na rela��o com a castra��o, com os limites.

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