A quest�o central da psican�lise e alguns enfoques elucidativos e cruciais - I
R�gis Ant�nio Coimbra Abril de 1999.
Psican�lise e castra��o, ou lei.
A psican�lise tem por quest�o central algo muito simples e, por isso mesmo, muito dif�cil: a finitude que caracteriza a condi��o humana. Como esta � uma quest�o central da condi��o humana, praticamente tudo o que fazemos est� muito fortemente determinado por tal quest�o. Neste sentido, a psican�lise se aproxima da medicina, das terapias em geral, e da engenharia, pois todas s�o disciplinas que tentam remediar ou amenizar a finitude humana, ampliando seus limites, por exemplo aumentando sua longevidade, sua for�a, sua produtividade, seu conforto, etc.
Mas o modo como a psican�lise busca amenizar a finitude humana �, em parte, muito diverso, pois n�o se dedica tanto a ampliar os limites humanos, mas mais a explicitar que tais limites s�o constitutivos e que, al�m de certo margem, n�o � poss�vel ultrapassar tais limites. Ou seja, por mais que nos fortale�amos f�sica e moralmente, por mais que ampliemos nossa consci�ncia e sabedoria bem como nossa expectativa e qualidade de vida... somos mortais, movidos por inclina��es, constitutivamente ignorantes sobre o mundo e n�s mesmos; por mais que possamos nos aperfei�oar, jamais seremos perfeitos, nem perto de perfeitos, assim como por mais que somemos n�meros naturais, nunca teremos a s�rie completa de tais n�meros.
Tamb�m a religi�o e a filosofia - esta de modo mais expl�cito, principalmente a partir da idade moderna, t�m a finitude como problema ou tema fundamental, e o que diferencia cada uma destas disciplinas entre si e da psican�lise � a abordagem. A filosofia aborda a finitude no que ela limita nossas possibilidades de possuirmos sabedoria (se brinca que, a partir de Descartes, a filosofia passou a ser a lamenta��o por n�o sermos potentes e omniscientes como Deus... e o contempor�neo Heidegger chegou a dizer, l� pelas tantas, que o homem � o ser para a morte - e n�o mais, como para os medievais, para Deus - marcando bem o problema da finitude no que ela tem de irremedi�vel). A religi�o aborda a finitude no que ela, por nega��o, permite conceber sobre o que seria algo absoluto (por exemplo, a forma cl�ssica grega para, apesar do antropomorfismo, distinguir radicalmente os homens dos deuses, era que estes �ltimos eram, no m�nimo, mas j� em radical diferen�a, imortais).
A abordagem ou enfoque da psican�lise � a da nega��o da finitude, ou, como se diz no jarg�o freudiano, a nega��o da castra��o. Os psicanalistas est�o interessados em como e com que conseq��ncias se tenta negar a finitude. Dadas as origens e pretens�es terap�uticas da psican�lise, poder-se-ia supor que a nega��o da castra��o seria um problema a ser resolvido. Nada mais equivocado, pois tanto a castra��o quanto a nega��o da castra��o n�o s�o problemas, mas aspectos t�picos da condi��o humana. A castra��o nada mais � do que a finitude humana, em que nem tudo � poss�vel, em que nem tudo o que se quer se pode ter ou ser. A nega��o da castra��o, por sua vez, nada mais � do que a luta contra os limites. Entretanto, n�o se pode negar que, bem ou mal, a psican�lise tem pretens�es e efeitos terap�uticos, mas neste aspecto a psican�lise n�o se distingue, como sugeri, da medicina, da psicologia ou mesmo da engenharia. � claro que muitos psicanalistas acham que s�o melhores ou mais importantes que os outros nisso concorrentes, mas � comum cada um pensar assim sobre suas prefer�ncias e habilidades espec�ficas.
Por fim, h� o sentido t�cnico que o termo castra��o adquiriu no jarg�o, e que, como � usual nos termos t�cnicos, pouca rela��o guarda com o sentido usual do termo. Neste sentido, t�cnico, castra��o significa a faculdade humana (em tese, de cada indiv�duo) de suportar certos limites propostos pela civiliza��o para maximizar as potencialidades da mesma e dos indiv�duos. � neste sentido que se diz que os neur�ticos lamentam e fazem alguns protestos contra a castra��o, os perversos a ela aderem apaixonadamente e a usam sistem�tica e at� chocantemente em seu pr�prio benef�cio - limitado, � claro, pela estreita perspectiva da pervers�o -, e os psic�ticos, ainda que n�o a desconhe�am inteiramente, em algumas quest�es fundamentais podem n�o conseguir suportar a castra��o, ou id�ia de limites, simb�lica ou discursivamente, e por isso eventualmente tem de ser mais literalmente castrados - isto �, precisam de uma restri��o f�sica, material, pois n�o basta dizer ou mesmo reiterar que n�o podem isso ou aquilo: precisam ser violentamente impedidos, com o uso de for�a, ou eles mesmos violentamente se mutilam ou matam, ou a terceiros.
Uma interpreta��o e desenvolvimento interessante e bastante sistem�tico desse uso t�cnico do termo foi feita por Jacques Lacan. Uma par�dia razo�vel da contribui��o deste psicanalista sobre a interpreta��o deste termo pode ser feita trocando-se o termo castra��o por lei. Assim observar�amos que o neur�tico � o que se queixa que a lei � injusta e cruel, o perverso � o que aproveita todas as brechas legais que o possam favorecer, e o psic�tico � o que nem respeita nem desrespeita as leis, pois simplesmente n�o as assimila, eventualmente por isso sendo at� mutilado (freq�entemente por ele pr�prio), amarrado ou drogado, segregado mediante interna��o ou mendic�ncia, etc.
Os dois lados dos limites.
Na luta contra os limites, alguns homens acreditaram poder, por exemplo, voar. Mas isso n�o � exatamente um problema ou uma loucura em si. Entre os que pensaram poder voar podemos contar os exagerados, como o lend�rio �caro, (que precisamente se deu mal por excesso de entusiasmo), os tecnicamente alienados que, lesados ou drogados, pensaram poder voar se atirando pela janela, e os que comportadamente morreram em mais ou menos banais acidentes com aeronaves.
Mas tamb�m podemos considerar todos os que n�o morreram e, ao contr�rio, conseguiram voar sem problemas, mas apenas custos. Ali�s, se n�o tivermos extremo preconceito contra a morte como um custo sempre inaceit�vel, talvez devamos incluir entre os que tiveram apenas custos alguns dos que aparentemente se deram mal, pois "se dar mal" significa apenas que o pre�o que pagaram nos pareceu alto de mais, o que n�o necessariamente era, no momento crucial, a opini�o deles. Por exemplo, o tido por compulsivo, ou ao menos impulsivo, �caro: como n�o sabemos qu�o bom ou excitante foi voar cada vez mais alto, ou tampouco o qu�o eventualmente terr�vel, mas tamb�m eventualmente interessante, a experi�ncia de cair irremediavelmente, n�o podemos, de fora, dizer que o pre�o foi alto, baixo ou adequado. Para um grego dos tempos cl�ssicos talvez fosse bem razo�vel, pois como importante b�nus por eles valorizado, �caro tornou-se uma lenda... "imortal".
Embora seja razo�vel duvidar que se possa gozar da imortalidade depois de morto, n�o � absurdo considerar que se goza, em vida, da perspectiva de vir a se tornar imortal pela lembran�a dos grandes feitos - nobres ou infames. Isso considerado, n�o � totalmente descabido imaginar que mesmo um aparentemente desventurado �caro, se considerado pela infelicidade de seu acidente, possa ter sido duplamente feliz, no entusiasmo de sua busca de um v�o cada vez mais alto e na plenitude de gozo e horror de sua queda, em que pode contemplar n�o s� a imin�ncia da morte como, eventualmente, da fama pela seu destino tr�gico. Em outras palavras: se a trag�dia � inevit�vel - o que � um tanto constitutivo das trag�dias -, relaxa e goza - isso pode inclusive mudar drasticamente o peso subjetivo do destino objetiva ou ingenuamente tomado como tr�gico e, por isso, como algo inexoravelmente ruim.
Que � ruim �, mas o melodrama exagera um pouquinho - mas tamb�m para permitir um disfar�ado, e tamb�m inevit�vel, gozo. Infelizmente esse disfarce, de certo modo, na medida em que atenua o sofrimento antecipado como insuportavelmente bom, ou mesmo a emo��o antecipada como insuportavelmente boa ou comovedora, assim tamb�m atenua ou reduz a autenticidade das viv�ncias e, ao fim, da vida inteira. � um pouco o paradoxo de quem aposta nos dois advers�rios para se proteger da perda eventual de um ou outro. N�o perde tudo mas tamb�m n�o ganha nada. E no fim o que certamente n�o fez foi apostar. Assim, se bobeamos, nem vivemos.
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