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Natural ingratidão
Régis Antônio Coimbra
10 de janeiro de 2000
Chuva, seca, vendaval e pragas
e ainda assim, a vida mais floresce do que morre
especialmente a humana
cada vez mais civilizada e bem sucedida
a ponto de hoje viverem tantos de minha espécie
que meus contemporâneos são metade dos viventes
dos últimos dez mil anos
Matamo-nos ainda, e talvez enquanto vivermos
mas nunca morremos tanto de tão velhos
com tantas mudanças, prosperidade
agitação e, paradoxalmente, tédio
É natural morrer, e é civilizado matar
tanto quanto tentar sobreviver
e ajudar aquilo que achamos ser a humanidade
Alguns são solipcistas
outros acreditam que seu povo é o escolhido
outros, ainda, que sua raça é a pura
e alguns desdenham esses outros
e cometem o mesmo atavismo excludente
julgando quem merece e quem não merece viver
com racionalizações mais ou menos pomposas
para seus assassinatos mais ou menos frios
de criminosos já completamente dominados
Eu sou natural e civilizado
como cru e cozido
bebo leite e vinho
como carne e pão
esmurro e flecho
compadeço-me e responsabilizo-me
sou besta e político
A natureza não é cruel e nem indiferente
pois faço parte da natureza
e não sou cruel nem indiferente
A natureza não me é alheia
pois toda minha vida depende dela
e meu corpo ou foi projetado para ela
ou foi selecionado por ela
ainda que com os nervos e músculos naturais
naturalmente tenhamos desenvolvido culturas
e outras ferramentas artificiais
que de certo modo são naturais nossas
e que são a razão de nosso enorme sucesso
Eu é que sou ingrato, por vezes
e se a natureza não me dá tudo de bandeja
a chamo de cruel, ou de indiferente
Enfim, sou ingrato, sou idólatra
sou humano... demasiado humano
simplesmente humano
Será minha ingratidão natural ou civilizada?
ou será esta dicotomia, no caso humano
pouco apropriada?
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