A ficção da identidade pessoal
Régis Antônio Coimbra
Setembro de 1999
Para alguém, como eu, muito pouco humilde, ainda que, como todo mundo, inseguro, a humildade, após certa idade, adquire uma peculiar perspectiva. Não se trata mais de não me supor sempre superior aos outros, mas de não me supor, agora, necessariamente superior ao que já fui. Ou seja, talvez eu não seja muito melhor, hoje, do que era quando tinha, digamos, 16 anos, embora o contrário também possa ser verdadeiro.
Para mim, o que fui conta como pessoas que já morreram, mas das quais tenho alguns traços. Por vezes, mais do que quero acreditar; por vezes, menos do que gostaria. Lembro de mim como de antepassados. Principalmente quando penso em mim em situações bastante diversas, ao menos na aparência, das em que me encontro agora. Por exemplo, na escola primária; ou no exército; ou quando eu estava entre espíritas. Parecem-me, estas lembranças, mais alienígenas do que minhas lembranças de infância - que, entretanto, bem sei que são bastante pouco confiáveis, mais reconstruções do que lembranças propriamente...
Aliás, as lembranças são tipicamente assim: não temos um filme fiel, mas um roteiro mais ou menos explícito, ao qual damos diferentes significados a cada vez que o relemos - e, não raro, ao subjetivamente encenarmos este roteiro, sinceramente pensando que estamos lembrando dos fatos, fazemos algumas correções e acrescentamos fictícios detalhes, para tornar mais verossímil a recriação que, sem o saber, fazemos diante das crenças que nos dominam a cada revisão ou interpretação, a partir do esquemático roteiro.
Como escrevo, e o faço com certa intensidade e freqüência desde a adolescência, é chocante reler o que escrevi há anos e notar que... puxa! eu não mudei tanto quanto gostaria de acreditar! O que incomodava ou interessava aquele adolescente extremamente travado e esquisito é, em razoável medida, mais ou menos o que ainda me incomoda e interessa, agora que sou um homem de 31 anos, bastante hedonista e relaxado, quase um vagabundo.
Além disso, para quem gosta de ler, pode ser relativamente chocante ler, por exemplo, Platão, e notar: puxa! eles eram seres humanos mais ou menos assim como eu! Há mais de dois mil anos! Safados, mesquinhos, inteligentes... assim como eu!
Neste sentido, me vem à lembrança o personagem Tibicuera, de Érico Veríssimo, de um livro que li quando estava ainda nas hoje chamadas de "séries iniciais", acho que se chamava "As aventuras de Tibicuera". Lembro que achei interessante a forma como Tibicuera se identificava como o mesmo ao longo de várias gerações e, mais estranho, conseqüentemente coexistindo consigo mesmo como pai, filho... e talvez avô. Se não me engano, o personagem era sempre o menino ou, quando muito, o jovem - talvez porquanto como criança ou jovem é que temos que fazer a ligação mais radical entre o que fomos e seremos com o que realmente importa, que é o que somos agora, o que, no caso de Tibicuera, envolvia literalmente a assimilação concreta de uma identidade que atravessava gerações.
De fato, ser eu mesmo também não envolve um acesso lá muito privilegiado às minhas antigas vivências. Eu conto, para mim mesmo, que aconteceu isso e aquilo quando eu tinha tantos anos, e foi mais ou menos assim e assado que eu me senti. O problema é que certos relatos que pensamos lembrar da infância nos foram apenas contados, e a eles atribuímos o estatuto de lembrança pessoal. E podemos acreditar em lorotas relativamente verossímeis, das quais inclusive pensamos ter lembranças muito vivas e detalhadas - na verdade criativamente imaginadas depois, como se fossem lembranças - e não acreditar em lembranças vagas ou relativamente inverossímeis de fatos que realmente vivemos, mas não se encaixam na "história oficial" em que acreditamos a respeito de nosso passado.
Entendo, por isso, que a identidade que temos de nós mesmos não é mais artificial e fictícia do que a do personagem Tibicuera que, de pai para filho, continuava uma história de vida acumulada que se ia transferindo e, nela, o mais recente portador e acrescentador como que bradava: "sou eu, Tibicuera! Além daquelas coisas que me aconteceram em gerações passadas, mais estas me aconteceram agora, e as conto para meu filho, no qual continuarei minha aventura".
Falsa, ilusória... mas mais do que a que me faz pensar que sou o mesmo que leu aquele livro? ou o mesmo que dentro de uns trinta anos, com sorte, poderá ler novamente este texto, talvez com orgulho, talvez com nostalgia, talvez com vergonha, talvez com um pouco de cada?
Outra forma, um pouco paranóica, de perceber o tanto de ficção da identidade pessoal, eu experimento quando, por efeitos tóxicos do álcool, mesmo sem ficar muito bêbado, eu perco a memória. Recentemente cheguei a escrever um poema, ao qual originalmente dei o título "Bêbado ainda" mas para o qual "Estranho" seria mais exato.
Bêbado ainda
acordo estranho
sem saber como
cheguei aonde
quem foi esse outro
o qual me trouxe aqui
mexeu nos meus bolsos
e assinou meu cheque?
quem foi esse estranho
no qual não confio
e temo que pudesse
ter-me feito mal?
e quem sou esse aqui
senão aquele lá
pensando que sou eu
e, só por isso...
melhor?
O concebi, de fato, ainda bêbado, revirado na cama, de olhos fechados, tentando imaginar como cheguei em casa. Achando interessante minha situação, com um hiato na memória, tonto e levemente enjoado, inclusive rabisquei à mão, coisa rara ultimamente, devido às facilidades do computador, naquelas circunstâncias menos prático. E, mesmo antes de o escrever, estava contando as sílabas, de olhos bem fechados, revirando-me na cama, ainda bêbado - insisto nisso porque não são poucas ou necessariamente toscas as coisas que podemos fazer, mesmo já ou ainda bastante bêbados, bem como na adolescência e infância - ou, espero, na senilidade.
É interessante e até educativo ficar bêbado, embora seja crime fazer essa experiência em público. É como ter alguns sistemas desligados ou atenuados e ter que se virar com o que sobra, com a vantagem de que, depois, passa. Gosto de beber um pouquinho, mas gosto de beber bastante; gosto do gosto, mas gosto também de ficar bêbado; bêbado de ter que me esforçar para raciocinar uma banalidade, ou de inadvertidamente esquecer parte da noite. É interessante que, ao que parece, diferentes habilidades são mais atingidas a cada vez. Por vezes é a fala que fica enrolada; noutras vezes é o equilíbrio; algumas vezes a memória. Eventualmente, falha tudo junto e, com um pouquinho de azar, dá até para morrer - e nem estou me referindo aos riscos de sofrer um acidente no trânsito ou ser presa fácil de salteadores.
Noto que é, não tanto por ter estado bêbado, mas por não lembrar do que fiz, que tenho, durante alguns dias, medo do que possa ter feito esse estranho eu, tanto mais perigoso conquanto não tão bêbado assim. E, mesmo depois de saber que não fiz, de fato, nada de mais, permanece um certo horror do que poderia ter acontecido... Como se as piores asneiras que fiz, ou disse, eu não tivesse dito ou feito completamente sóbrio.
Depois dessas reflexões, me descubro um pouco mais humilde... E mais tolerante e identificado com o próximo e comigo mesmo... e com o próximo eu que pensará ser eu mesmo.
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