Uma boa, talvez exemplar, noitada
R�gis Ant�nio Coimbra
Janeiro de 2000
Belo e casto Cl�udio. Devia ser veado. Eu preferia que ele se chamasse Alexandre, mas se chamava Cl�udio. Notou-se que ele ficou cuidando Helena, que tinha o nome certo. E parece que ela notou que ele a ficou cuidando. Mas n�o houve epop�ia. E, para uma trag�dia, ficou faltando uma cat�strofe. De qualquer modo, a noite n�o daria o que falar. Mas falemos.
Helena era linda. E pareceu-lhe inacess�vel. Ou ela era inacess�vel e pareceu-lhe linda? Por muito tempo, praticamente toda a noite, Cl�udio n�o conseguiu evitar de a ficar cuidando, enquanto ela conversava com outros e, pior, enquanto ele conversava com outros... Uma indelicadeza... uma grosseria, mas compreens�vel.
L� pelas tantas, seus olhares se encontraram, estando os dela de passagem e os dele cravados. E ela o olhou uma segunda vez... E ele ainda estava olhando. Teria ficado desconfiada? interessada? Notara que os olhos dele estavam cravados nela? ou teria pensado que ele cuidava sua interlocutora. Ele tinha certeza de que ela olhara para ele. Mas, como ele usava �culos, ela podia ter se confundido com algum reflexo nas lentes dele. Ou, pior: talvez ela precisasse de �culos mas n�o os tivesse usando e, portanto, nem enxergando muito. Mas devia t�-lo visto, sim, encarando-a.
Parecia ele acess�vel? Lindo? Promissor? Charmoso? Tarado? num bom sentido? Pelo que ele mesmo sabia, as opini�es variavam e, na opini�o dele, variavam at� conforme o dia. Por vezes se sentia o m�ximo, mas isso n�o dava em nada. Outras vezes sentia-se um lixo e, l� pelas tantas, parecia-lhe que estava agradando, e ele, ent�o, se sentia o m�ximo. Certamente era um mist�rio como as mulheres o podiam achar interessante, pois ele at� se achava pass�vel mas, tamb�m, achava seu corpo uma usina de gosmas e cheiros fundamentalmente repulsivos... se bem que, ele filosofava, mulher gosta de cachorro fedido, por que n�o de seu corpo gosmento?
Seja como for, volta e meia, a supostamente bela e inacess�vel Helena dava uma olhada... e ele tentava disfar�ar. Mas n�o muito. Pois, pensou, se ele parecesse desinteressado, a� mesmo � que a coisa nunca iria rolar. Cuidou se ela mexia no cabelo. De vez em quando mexia. E, de vez em quando, mexia mais e dava uma olhada. Ser� que passara a mexer mais depois que seus olhares se encontraram? Ser� que, � moda feminina, ela estava dando bola? Ou ser� que estava apenas nervosa e desconfiada? Bem, "nervosa e desconfiada" j� era um come�o... afinal ele tamb�m n�o se sentia exatamente confort�vel e estava, em tese, interessado. N�o: estava decididamente interessado... em tese.
Charme. Talvez ele tivesse charme. Algumas mulheres haviam se aproximado dele alegando, ap�s algum ou muito pouco tempo, terem primeiro pensado que ele era veado e vegetariano. Outras, que era muito bem sucedido, professor ou doutor. Outras, para espanto dele, alegavam que ele havia dado em cima delas, e elas foram conferir. Ele, ent�o, dava em cima de mulheres?
Mas, e ali? como ele ia chegar em Helena. Algumas vezes ele resolvera ir direto at� a mulher e dizer logo, de cara, que a achara interessante e gostaria de dar em cima dela, se ela n�o se importasse. O pior � que at� funcionara em metade das... o que? tr�s vezes?
Na primeira vez, a mulher pediu para pensar no assunto enquanto ia ao banheiro e, voltando, e perguntada uma segunda vez, achou melhor n�o... Na segunda, a outra mulher achou interessante a proposta, mas n�o quis dar o telefone nem quis o dele. Na terceira, depois de tr�s encontros ele conseguiu beijar a mulher na boca, mas em um m�s n�o chegaram a transar e ela se apaixonou por um terceiro e a coisa parou por a�... Bem. Pensando bem, nunca tinha funcionado... mas, tamb�m, o universo de tentativas era muito pequeno. Ou ele n�o estava se lembrando das vezes em que tinha dado certo.
De repente, como de costume, aquelas lucubra��es se consumaram acad�micas. Pois a mulher se despediu de alguns e foi embora. Ele sentiu, em parte, tristeza; em parte, al�vio. Em outra parte, ainda, vontade da fazer xixi. Bem, essa foi a parte mais f�cil, e que trouxe um al�vio mais simples.
Em casa, mais tarde, se masturbaria pensando naquela mulher, bela e inacess�vel, em tese. Por vezes sentia escr�pulos em fazer isso e, tanto pior, sentia vergonha por sentir vergonha... Mas, n�o raro, acabava inibido mesmo e se dedicando a prazeres mais "elevados". Outras vezes masturbava-se igual... ou melhor, igual n�o, pois preferia, ent�o, olhar alguma revista de mulher pelada, mais impessoal. Se bem que ele lamentava que as mulheres que se prestavam para tirar fotos em revista de mulher pelada - ou que os editores e fot�grafos selecionavam para aparecerem nuas - pouco lhe parecessem "belas e inacess�veis em tese". Algumas pareciam belas mas n�o pareciam inacess�veis; outras pareciam inacess�veis mesmo... e a maioria n�o parecia muito com o que ele conhecia de mulher. Pareciam travestis tentando parecer... mais travestis do que mulheres...
N�o. Naquela noite, pensando bem, n�o iria sequer se masturbar, pois bebera o bastante para tornar a ejacula��o improv�vel ou demorada, provavelmente trabalhosa. Talvez pela manh�. Talvez amanh�. Al�m disso, a vantagem da punheta era ser limpa, r�pida e indolor... al�m de virtualmente dispon�vel a qualquer tempo. No fim, ap�s caminhar meia hora at� chegar em casa, deitou e logo dormiu. E, duas horas depois, acordou com tes�o e, a�, ap�s considerar brevemente a quest�o, bateu uma punheta que achou especialmente proveitosa.
"Muito saud�vel", pensou. Bebera vinho, caminhara, tivera um orgasmo, ou algo assim, e ainda tinha boas chances de dormir pelo menos umas 7h naquela noite. Se tivesse dado em cima daquela mulher e as coisas tivessem corrido bem, n�o teriam sido t�o confort�veis.
Virou-se para dormir de novo... mas, n�o exatamente para sua surpresa, o sono n�o veio e, por algum tempo, ele sentiu-se desconfort�vel. Mas a� dormiu mesmo e deu tudo certo.
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