Depressão, prosperidade e liberdade
Régis Antônio Coimbra
Depressão, doce depressão.
Penso que a depressão contemporânea decorre do bem estar social. Sempre se teve depressão, mas estamos tão bem agora que talvez sofremos e até morremos mais de depressão. Quando tratarmos maravilhosamente a depressão, o câncer e tal... bem, morreremos de caspa, preguiça, casca de banana... Se baixássemos o cacete nos deprimidos, acho que eles (nós?) melhoram... ao menos da depressão. Dentre muitas soluções pirrônicas (traduzindo ou adaptando "pirrônico": relativamente pior que o problema que resolve), essa talvez não seja a pior, embora de certo inviável.
Apavorados, acho que não ficamos nem no desespero em que dizemos querer morrer, até porque ficaremos automaticamente preocupados em não morrer. Desconfio que o eletro choque bem como o antigo choque insulínico vão meio por aí. Se tratamos os deprimidos com muito carinho e compreensão, eles (nós) acabam se matando, pois já estão regurgitando tanta aguinha com açúcar, chá e simpatia. Entretanto penso que há muitas diferentes depressões. Estou entendendo por depressão a falta de gosto generalizada por tudo... há também o ativo desgosto pela vida, em que ao menos a reclamação deixa os desgostosos mais animadinhos que os realmente deprimidos. Mas esses também não melhoram muito com mais chá e simpatia, e enchem o saco. Enfim, queremos tratar todo mundo e deixar todos felizes... mas como Stuart Mill já observara, poucas pessoas tem talento para serem felizes.
Não adianta facilitar. Ao contrário, como qualquer sargento sabe, é necessário dar trabalho, dificultar. Facilitar mais ainda leva à loucura, à uma rebelião sem causa, ao desespero. O problema, assim, não é da democracia mas da social democracia, a qual quer dar não só liberdade mas conforto. Nós simplesmente não somos biologicamente preparados para esta sociedade babá. É claro que insistimos em tê-la, assim como buscamos mais sal, gordura e açúcar do que podemos suportar com saúde. É que somos máquinas programadas para um ambiente que não existe mais, no qual sal, gordura, açúcar e oportunidade de cópula eram relativamente raros e, sempre que possível, era melhor comer e transar até não agüentar ou querer mais, pois era tão raro que dificilmente se encontrava o bastante para fazer mais mal do que bem. Além disso, viver 40 anos era uma façanha. Então, a depressão é mais uma das doenças da prosperidade, tal como hipertensão, entupimento das coronárias, obesidade...
Prosperidade sem precedentes. Não é necessariamente uma doença de ricos, mas de quem não precisa lutar para sobreviver. Hoje até um miserável desgarrado, sem família e tal, pode cair doente que não vai morrer por isso. Se caímos doentes e nem por isso as coisas ficam perigosamente piores... bem, por que ficariam melhores? Os viciados sabem muito bem que não há nada melhor do que suas doenças, certamente nada que os interesse (ou domine) tanto. É claro que, para não serem presos, para não serem muito mal vistos, dizem que é horrível, que não conseguem controlar, que estraga seus mais importantes planos e tal... Mas é um forte auto engano, tanto pior por ter um considerável fundo de verdade.
Não conseguem, os viciados, evitar suas drogas porque são o que mais lhes interessa. Nada é tão bom para eles; nada é tão bom, garantido e simples. Então, para a depressão, penso que boas drogas, não dessas que controlam os neuro-transmissores discretamente, mas dessas que dão barato mesmo, heroína, por exemplo, seriam uma boa saída. Isso, é claro, na lógica social democrata, de dar não só liberdade, mas também e talvez até prioritariamente, conforto. Muitos morreriam, mas não tão deprimidos. Para os casos de depressão incapacitante em que as vítimas não topassem o tratamento por drogas, acho que programas de trabalhos forçados teriam altos índices de reabilitação... mas temo que se houvesse a alternativa de simplesmente ficar doente e todas as necessidades básicas serem garantidas pelo estado... bem, muitos cronificariam suas terríveis depressões. E não tenho dúvidas de que a depressão envolva grande sofrimento para as vítimas, pois desconfio que com um bom e decerto vulgar misto de doença e senvergonhice, eu sou ou fui mais uma.
Pessoalmente, penso que a depressão envolve também muito de como encaramos as próprias perspectivas. Não tanto que o modo como encaramos nossas próprias perspectivas nos torne deprimidos (o que em parte acho que ocorre, mas com menor importância). Mas, principalmente, que a depressão afeta o modo como encaramos nossas próprias perspectivas. Eu fico levemente deprimido quando me sinto sem perspectivas e sem ânimo de cavar soluções. Aí penso em me matar, mas também não me animo o bastante (ainda bem?) para tanto. E, por via das dúvidas, para dificultar, proponho-me a me matar ou por inanição, o que exige considerável esforço, ou, no inverno, mergulhando na água gelada e fétida do Arroio Dilúvio aqui de Porto Alegre, o que tem considerável efeito aversivo e, como são águas rasas, envolveriam também enorme esforço e disciplina. Então, acho que de depressão não morro... só se eu me sacanear nessas condições. Ou seja, se eu me engajar nesses complicados procedimentos de suicídio o ânimo necessário para os executar será acompanhado do necessário vigor que por si só já extingue a depressão.
Estar deprimido pode ser bastante variado e por isso pode passar por "a vida é assim mesmo". Eu posso estar "morrendo" de depressão, fechado no meu quarto... mas se saio à rua já melhoro (embora, é claro, nisso seja confuso o que é causa e o que é conseqüência, pois posso ter saído à rua precisamente porque já melhorei). Aí sento no ônibus e já me deprimo. Levanto e melhoro. Converso animadamente com alguém, resolvo as maiores complicações imagináveis e me sinto bem. Volto para casa e nada faz o menor sentido. Deito na cama e torço para dormir e não acordar. Isso dura uns dias ou meses... ou anos... e passa. Depois volta, depois passa. Deprimido, não consigo, por exemplo, escrever como estou fazendo agora. Leio umas poucas linhas e não consigo concentrar-me, nada interessa. Escrever então... Se nada importa, nada vale o trabalho e nenhum trabalho entusiasma.
Coisa muito diferente é sair da depressão horrorizado pelo que passei. É aí geralmente que mais acho horrível a depressão. Meio deprimidinho, talvez eu tenha ânimo, nesse estado, para não exatamente me suicidar, mas praticar uma eutanásia preventiva, afinal, para que arriscar outra depressão e sua ressaca? O problema é que, não estando deprimido, o otimismo supera a experiência e simplesmente gozo a vida, que parece tão promissora e maravilhosa... se não estou deprimido. Na verdade, como não estou deprimido nem numa ressaca pós depressão, acho isso muito engraçado. Na ressaca pós depressão, acho tragicômico... E deprimido... acho sem graça. Penso que até tenho uma depressão patológica, doentia, coisa inclusive de problemas metabólicos e tal. Mas isso talvez se agrave por eu ter uma vida muito fácil.
Há alguns truques... talvez melhores ou com menos efeitos indesejáveis que a escravização a uma droga ou um ideal... Por exemplo, gosto de jogos de computador, e neste sentido sou mesmo compulsivo. Posso ficar 24h jogando jogos chatíssimos e repetitivos, analisando de fora... mas que me envolvem completamente. Só que me condeno: como posso passar tantas horas jogando esses jogos estúpidos se tenho tantas outras coisas para fazer! Isso ocorre mesmo quando estou deprimido e não consigo fazer nada mesmo (se sou obrigado a fazer, faço, e até me animo, mas como não tenho um sargento a me ameaçar caso eu não faça, fico semi-morto). Então, numa das vezes que fiquei deprimido de não conseguir fazer nada ocorreu-me de experimentar um dos tais jogos estúpidos... E não é que joguei compulsivamente por horas e horas, conseguindo, depois, inclusive fazer uma série de outras coisas que tinha de fazer?! Ou seja, nem tive a ressaca usual. Por isso acho que não tenho só depressão, mas senvergonhice mesmo, como diria Sartre. Ou eu não estava deprimido como de hábito... ou eu já estava recuperando-me quando ocorreu-me de combater a depressão com a compulsão... ou a compulsão moderada permitiu reverter a depressão também, suponho, moderada... E, bem, essas hipóteses não são tão excludentes assim.
Coisa bastante diversa é a tristeza, que dura bem pouco, no máximo uma semana, em que consigo fazer muitas coisas, apenas triste e, enfim, não triste o tempo todo, o que em parte ocorre também com a depressão. E, triste, as pessoas notam que estou triste... talvez porque tenho menos vergonha de sentir-me triste que deprimido e disfarço menos. Deprimido não notam, até porque fico enclausurado ou com cara de nada - nem triste nem alegre -, fleumático... eventualmente tão fleumático que disfarço minha depressão e, lá pelas tantas, já nem me sinto mais deprimido. E, eventualmente, deprimido, como já observei, pequenas coisas podem me ocupar a atenção, como ir ao banco, ao supermercado, pegar o ônibus, admirar uma bela mulher que passa. Mas no que passam essas distrações... (que tragicamente não significam então mais que distrações, não trazem esperanças, sonhos, projetos) parece que seria melhor morrer. Como matar-me envolve fazer algo, a determinação em me matar já é mais do que suficiente para me entusiasmar novamente e, portanto, tornar impertinente a ação... e assim me deprimo novamente, pois "não há o que fazer". Não estando deprimido, há milhares de coisas para fazer, e acabo fazendo algumas. Enfim, concluindo, se é que isso é pertinente, a depressão me parece envolver uma armadilha especialmente desenhada para a social democracia, em que ninguém precisa fazer nada para continuar vivendo, e ninguém pode obrigar ninguém a fazer nada. Ao contrário: todo mundo só tem de fazer o que quiser...
Mas o que fazer se não se quer fazer nada? E se não se agüenta mais não fazer nada e, ao mesmo tempo, não se quer e nem se suporta muito fazer qualquer coisa? O "suporta" aqui me parece central, pois se suporta fazer algo para evitar outra coisa. Mas como, espontaneamente fazer algo sem vontade e que não se suporta para evitar ficar sem suportar fazer nada? Bem, penso que não se deve desprezar certo impulso (talvez em parte atávico, em parte cultural...) para a auto-preservação.
Se fosse para escapar de uma terrível água gelada, de choques elétricos dolorosos, de um cachorro brabo etc, não tenho dúvida de que, na maior depressão, automaticamente saio correndo sem envolver a depressão nisso, e a adrenalina mais o comportamento um tanto automático de fuga acaba instantaneamente com a depressão por umas boas horas de mania ou tormento pavoroso, em que o medo de morte iminente, paradoxalmente, acaba com qualquer vontade de, de preferência, morrer. Mas se o que incomoda é justamente o fato de que nada de mais está acontecendo, nada de interessante, e não tenho vontade de fazer nada... Bem, aí estou deprimido.
Não sei se a psicanálise ou uma psicoterapia de tipo "conversado" pode ajudar na depressão ou se o engajamento numa psicanálise ou psicoterapia conversada por si só já é sintoma de recuperação. É o mesmo problema do comportamento compulsivo: se alguma coisa interessa, já não estamos assim tão deprimidos. E mesmo que isso envolva apenas uma variação dos sintomas de alguns tipos de "depressão" num sentido médico técnico, penso que alguns sintomas são menos terríveis que outros, embora, de fora, possam parecer todos bizarros e lamentáveis. Pois, seja como for, causa ou efeito, um ou outro extremo do espectro de possibilidades de alguns tipos de depressão, mesmo alguma mania é alguma coisa, certamente uma ocupação, alguma vida, embora não tão "humana" ou equilibrada. Além disso, sobre o psicanalista, ou outro "interlocutor" sistemático, infinitas imagens podem ser jogadas... inclusive a do sargento, do cachorro brabo, do mafioso, que cobram ações onerosíssimas imediatamente... urgentemente.
Isso parece-me curar qualquer depressão se o deprimido puder sentir o "risco iminente" como real... como, enfim, risco e iminente. Se achar que não há risco nenhum, ou que não há nada a perder... bem, aí poderia morrer de fome, se a fome não fosse tão incômoda quanto a depressão. Aliás, a anorexia nervosa não é bem uma depressão, pois não é raro envolver uma peculiar determinação do anorético, que mesmo com fome, com muita determinação se recusa a comer para poder emagrecer, de tal modo que na maioria dos casos ou tipos de anorexia de certo haver um componente biológico tão forte no sentido de evitar a alimentação quanto a determinação usual de busca-la.
Pessoalmente, com muita fome, depois de um ou dois dias sem comer, com vontade de ir ao banheiro e tal... bem, aí não me sinto tão deprimido. Aí "preciso" fazer certas coisas e as faço. Tomar banho, é claro, já são outros quinhentos. Mas se começo a sentir coceira e tal, também acabo me animando a tomar banho. Enfim, acho que o pior ou pelo menos mais insidioso na depressão é o relativo conforto, que pior que uma mania ou droga, pode ser um tratamento - ou solução - pirrônico. Se estou confortável, estou frito, pois não tenho vontade de fazer nada. O desespero em que se rola na cama e se tenta fazer mil coisas achando tudo insuportável e incômodo parece-me bem mais promissor que a depressão. É mais desagradável, mas parece-me ser um estado mais patético que depressivo. É tão ruim que "só quero morrer", e é tanto pior porque nem isso realmente quero (o que quero é livrar-me do sofrimento, morrer contando como uma solução um tanto paradoxal, já que não me livro do sofrimento e sim perco tudo, a mim mesmo). Em todo caso, isso parece-me mais próximo da mania que da depressão (com a ressalva de que a medicina chama de "depressão" eventualmente mais uma "doença" ou "síndrome" do que o estado e eu estou me referindo antes ao estado. A depressão, no meu entender, é no meio da mania compulsiva (a mais óbvia) e da mania enfarada (ou ressaca da mania).
Foi ao shopping e deu uns tiros
Os joguinhos de computador, por certo, não são nem o último nem o único recurso maníaco. Há doses e doses, crises e crises. No embalo maníaco se consegue um conforto relativamente ativo... mas, enfim, um conforto. Na fuga desesperada, consegue-se também um conforto por contraste. Mas, deprimido, nada há de interessante para fazer ou deixar de fazer. Desesperado, quer-se morrer... mas por certo nem isso, e não se agüenta ficar parado... mas fazer o quê!? Então a depressão envolve liberdade sem vontade ou necessidade de fazer nada. Só é possível com certo conforto e segurança... e liberdade. Desconfio que é uma espécie de privação de falta, ou falta de privação... isso, é claro dentro de minha própria teoria sadomasoquista (masoquista porque se refere talvez mais a mim mesmo que a maiores pretensões universais ou "objetivas")de que é falta de laço e senvergonhice.
Penso que há depressões determinadas por processos neurológicos muito precisos e tal. As que não se enquadrarem em nenhuma depressão assim claramente determinada podem ser histerias conversivas... Assim como havia paralisias de membros que tinham lógicas que não fechavam com a estrutura neurológica (o braço podia ser paralisado ou insensível e a mão ser normal), pode haver depressões que paralisam ou anestesiam imaginárias concepções do que seja "a vontade" ou o cérebro. O problema é que os neurologistas podem não tem muito mais clareza sobre isso do que os pacientes, e muitos pacientes, numa simples bula de remédio podem ter descritas minuciosamente as doenças nas quais os neurologistas acreditam... então a questão da histeria e a depressão é um complicado beco - as histéricas da virada do século desapareceram não por terem sido curadas, mas porque tiveram de desenvolver apresentações mais sutis dos seus incapacitantes auto-embustes (que enganavam mais duramente a elas próprias que aos médicos, que sabiam muito bem que era fingimento - só não entendiam bem para quem era fingimento).
Depois do episódio de jovem estudante de medicina que disparou com uma submetralhadora num cinema de um shopping (não lembro se do Rio ou de São Paulo), vi duas reações. Uma foi dos que pregam que a venda de armas deveria ser controlada de modo mais rigoroso; outra foi dos que acham que os pacientes psiquiátricos deveriam ser controlados de modo mais rigoroso.
Ainda que essas teses tenham méritos, não me parecem ter relação muito direta com o caso em si. Quanto à venda de armas, os procedimentos de importação e venda da arma usada no incidente foram totalmente ilegais. Ou seja, a legislação já proíbe o comércio de tais armas, o porte nas condições em que se deu, etc. Quanto a tese de que o jovem deveria estar internado, penso que obrigaria a tantas internações "preventivas" - segregacionistas -, que nos veríamos um pouco às voltas com os problemas já enfrentados, na literatura de Machado de Assis, por Simão Bacamarte, no conto "O alienista".
Será que podemos afirmar, sem leviandade, os profissionais que acompanhavam o jovem que efetuou os disparos como levianos? Será que o ocorrido não se enquadra melhor no rol dos acidentes realmente imprevisíveis?
Eu, francamente, acho pouco provável que eu venha a morrer em um incidente parecido, ou mesmo num crime deliberado, e considero, pelo pouco que sei dos riscos a que me exponho geralmente, mais provável que eu venha a morrer de câncer, isso se o câncer não for radicalmente contornado e eu não me candidatar a alguma doença pior. Ou seja, como resolvemos os problemas simples ou fáceis com relativa simplicidade ou facilidade, sobram os difíceis ou complicados. Isso é normal. Acho que quando se fala que uma vida previsível seria tediosa se lamenta um pouco exatamente disso: se as coisas óbvias, e que tanto nos distraem, forem resolvidas... que será de nós? que faremos?
Nesses momentos lembro do PT e aquele seu lema - "sem medo de ser feliz" - de não sei qual campanha. Afinal, se resolvermos os problemas conhecidos e previsíveis que nos causam incômodo, dor e morte... restarão os desconhecidos e imprevisíveis... que podem nos causar incômodo, dor e morte... E causam principalmente horror justamente por serem desconhecidos ou imprevisíveis.
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