Decompondo
R�gis Ant�nio Coimbra
Novembro de 1999
H� uma ou duas semanas, notei uma mancha preta em minha l�ngua e pensei: ser� um tipo de melanoma que me fulminar� em poucas semanas? ou um mero co�gulo, provocado por trauma t�o irrelevante que nem notei quando ocorreu? Bem, se for um co�gulo, em um ou dois dias desaparecer�... assim como, se for um melanoma especialmente agressivo, em um m�s perigo j� ter desaparecido.
Aguardando, ent�o, a evolu��o daquela mancha preta em minha l�ngua, entrei em devaneios sobre o que fazer caso fosse um c�ncer maligno. Tentaria medidas extremas? aceitaria fazer cirurgias mutilantes? Lutaria por cada dia a mais ou me suicidaria enquanto fosse capaz? Como me despediria dos parentes, namoradas, amigos e conhecidos sem parecer carente? Daria a not�cia para os que me consideram inimigo? para, magnanimamente, conceder-lhes alguma satisfa��o? ou para maliciosamente causar-lhes embara�o e irracionais culpas?
Angustiado, tentei ficar triste e melanc�lico... mas fiquei apenas angustiado... At� que, no dia seguinte, a mancha se confirmou como um mero co�gulo, possivelmente decorrente de uma mordida que eu dera, ou press�o com efeito de cunha de uma bolacha mais dura que comera.
Dessa vez foi alarme falso.
Morrer n�o me incomoda tanto. S� tenho d�vida se prefiro morrer de repente, eventualmente sem nem saber que morro, ou se prefiro saber da inexorabilidade e proximidade da morte. Afinal, n�o deixa de ser mais um gostinho da vida.
Mas n�o sei se terei o humor de Villa-Lobos que, voltando ao Brasil para morrer com c�ncer na pr�stata ou complica��es assemelhadas, respondeu a uma jornalista que lhe perguntou o que estava compondo (ao menos foi assim que o Tom Jobim, que tamb�m morreu �s voltas com um c�ncer urin�rio - na bexiga, se bem lembro - contou numa entrevista):
-minha filha, agora eu estou �... decompondo.
J� que n�o d� para morrer, que ao menos eu possa experimentar um pouco de minha decomposi��o, com o perigo de notar ou ao menos achar que fiquei melhor um tanto decomposto do que t�o bem arrumadinho como de h�bito.
Ou ser� que farei como o andr�ide de "Alien, o oitavo passageiro 3", que religado ap�s ter sido despachado como lixo, pede para ser desligado, dizendo "prefiro n�o ser nada a ser menos do que j� fui"? O engra�ado disso � que algu�m pode ser severamente diminu�do em muitas de suas virtudes (viris, espirituais, c�vicas...) mas, tendo inclusive enfraquecido seu senso cr�tico, pode facilmente concluir que nunca esteve t�o bem... E vice-versa, j� que uma hipertrofia cr�tica pode ser mais catastr�fica que sensata.
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