Pequena Coletânea


Régis Antônio Coimbra
Porto Alegre, 21 de fevereiro a 10 de março de 2002



Opções
21 de 02 de 2002

Antes tu
bem só
acompanhada por ti
que mal contigo

Antes distraída
por más companhias
que obcecada por mim

Antes mal contigo
que bem comigo

Mas não tenho escolha:
antes contigo que comigo
se não renuncio a mim
nem por ti
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Sou
21 de 02 de 2002

Procuraste-me por engano
como todos, sempre

Não sou aquele que pensavas
nem sou o que aparento
ou sequer o que penso

Não sou nem melhor nem pior
ou talvez seja

Não sou o que acredito
nem o que duvido

Não sou o que espero
nem o que temo

E ainda que algo se repita
não sou mais o mesmo

Não sou culpado por tudo o que fiz ou não...
nem mereço todo mérito

Mas simplificando
sou
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Sou doce
22 de fevereiro de 2002

Sou doce
engordo-te
emprenho-te

Sou doce
acalmo-te
mimo-te

Sou doce
estrago-te
abandono-te

Sou doce
sou bom
sou mal

Sou doce
mas pressinto em teu beijo
o gosto salgado das lágrimas
que correrão por nós

Sou doce
mas és diabética
e estás desidratada

Sou doce
mas deixo um gosto amargo

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Sou doce (segunda versão)
22 de fevereiro de 2002

Sou doce
engordo
emprenho

Sou doce
acalmo
mimo

Sou doce
estrago
abandono

Sou doce
sou bom
sou mal

Sou doce
mas pressinto em teu beijo
o gosto salgado das lágrimas
que correrão por nós

Sou doce
mas és diabética
e estás desidratada

Sou doce
mas deixo um gosto amargo

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Sem título
23 de fevereiro de 2002

Quero dizer nada
provocar livres associações
determinadas não por mim
mas por cada um

Quero apenas provocar
sem determinar
senão a chance
de sentir ou pensar

Por isso a obra sem título
sem ao menos um "sem título"
que já ficou manjado
e diz demais

Quero
mas não consigo...

Talvez nem queira


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Tempestade
24 de fevereiro de 2002

Vejo o relâmpago e conto
um, dois, três, quatro...
até ouvir o trovão

Então meu coração dispara
todos meus ritmos disparam
e ao ver o próximo relâmpago
conto umdoistrêsquatrocincoseis...

Também desde que te vi
não pela primeira vez
mas daquela vez...

...Tudo em mim se agita
e o resto do mundo pára
quando teu sereno olhar
faz-me beijar-te
etc e docemente agonizar
até a paz que sobrevêm à tempestade

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Egoísmo
24 de fevereiro de 2002

Escondo-me para chorar

Não é timidez
não é orgulho

É egoísmo
é falta de fé nos outros
é egoísmo
em minha autocomplacência

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Soberba
24 de fevereiro de 2002

Mas pior mesmo é o travesti
que é uma espécie de cúmulo do machismo:
acha que até como mulher
é melhor que uma mulher

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Injustiça sexual
24 de fevereiro de 2002

É uma injustiça...
ainda bem que nasci homem

Tive sorte
não fui circuncidado
E se fosse
provavelmente não seria tão ruim

Tive mais sorte ainda
não me rasguei
nem precisei me precaver
ou remendar-me
com qualquer episiotomia

Por inchada e depois sugada
ficaste com estrias
Eu, nessa ou inversa ordem
só com mais tesão

E os filhos que pariste com o suor do próprio rosto
quem ganhou com mínimos encargos fui eu...

("Fulana ganhou neném"...
Que nada! quem ganhou foi o pai
ela teve que trabalhar
suando, se peidando e tal...)

Outrora só tu terias certeza...
hoje, com o teste de DNA
nem isso...

Resta apenas o mistério de teu orgasmo

Quando ou quanto
só Tirésias soube
a custa de ficar cego...

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Merda
24 de fevereiro de 2002

Veio de dentro
saiu com esforço
num misto de sofrimento
e alívio

Poema escatológico
ou dejeto poético?

Simplesmente obrei

A beleza ou sujeira está nos olhos?
está na coisa?

Está no uso

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Titubeio
24 de fevereiro de 2002

Diante do título
titubeio intrépido
pois é preciso hesitar

Decidir é inevitável

O texto está pronto
e titubeio ainda

O título está pronto
e titubeio outra vez

Está tudo acabado
e titubeio de novo

Decidir é inevitável
na ação ou omissão
o titubeio é a reflexão
o vislumbre da complexidade
que nos faz humanos

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Minha primeira vez
24 de fevereiro de 2002

Depois d'eu tanto treinar
generosamente ela gozou-me
e ainda teso, relaxei

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Dos sisos inclusos
24 de fevereiro de 2002

Ai! grandes dentes em pequena arcada!

Que viram minhas índias ancestrais
(supondo que elas tiveram escolha...)
em meus portugueses ancestrais?

...bem, mas aí não se tratou
exatamente
de grandes dentes em pequenas arcadas...

Só imagino o que viram aqueles alemãos
(não confundir com alemães)
nas negras e bugras de minha família

Mas por que tanta papinha?!

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Odisséias
25 de fevereiro de 2002

Cego ou não
teu traseiro não é ciclópico

É binocular
se o arrebitas um pouco mais

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Paralelo complementar de poemas independentes
25 de fevereiro de 2002

Errância Certeira
25 de fevereiro de 2002         25 de fevereiro de 2002

Tanto ela errou                         Por aí
que deu                                      certamente
para mim                                   que gosto

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Prodigalidade
27 de fevereiro de 2002

1
Por vezes
sou pródigo

Por umas
palavras ao vento

por outras
pérolas aos porcos

2
Alguns
por umas palavras
são vento

Outros
por outras pérolas
são porcos

3
Eu
por umas e outras
sou pródigo
talvez prolixo
senão pro lixo

Pro lixo
acabo aproveitado
ou não
por porcos


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Não sou poesia
27 de fevereiro de 2002

Não sou palavras
não sou verbo
não sou substantivo

Não sou prosa nem poema
não sou monólogo nem epopéia

Mas conjugo
faço
chamo
aconteço

Eu amo
eu vivo
eu odeio
eu canto

Em meu canto
há poesia e tal

Em mim
há paixões
e um pouco de razão
para as servir

Isso sou eu

De fora
pode ser algo definido
com começo e fim
claros limites

Para mim
é um mistério
que vou descobrindo
(e olhe lá...)
vivendo
(ou "errando")

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Que venham os marines!
6 de março de 2002

Que venham os marines!
e levem os fiéis aos seus deuses
os consumidores aos vendedores
os trabalhadores aos empresários
e tragam enfim os pretextos

Que venham os pretextos
para tantos textos difamantes!

Trucidem, marines, as criancinhas
bombardeiem asilos
matem essa sede de pretextos

E, na falta de controle de natalidade,
que as minas terrestres cumpram seu papel
matando ou castrando os excedentes
(de preferência antes da idade reprodutiva)

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Bandeiras
7 de março de 2002

Hasteiem suas bandeiras!
ajudem meus "snipers"

Façam formatura junto às suas bandeiras!
ajudem-me a economizar explosivos

Fiquem altivos em posição de sentido!
facilitem para as rajadas e estilhaços

Queimem minha bandeira!
pretextos convém-me

Digam, por exemplo, que eu já os massacro!
certas mentiras não se esqueceram de acontecer
apenas se atrasaram
esperando uma causa ou pretexto
como certas vulgares difamações

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Ética
8 de março de 2002

Para crimes passionais:
faca, tiro, estrangulamento
seguido de suicídio

Para justiça social
no campo ou na favela:
napalm, sítio
cólera com falta d'água

Em caso de revolução:
contra-revolução e reformas

Para homicídio doloso
a lei de execuções penais

Para homicídio culposo
(ou pior, tentativa de homicídio ou suicídio)
nada menos que tortura seguida de morte

Vingar-se de amigos:
crime passional

Vingar-se de conhecidos:
o devido processo legal

Vingar-se de desprezíveis:
perdão

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Toda a dor do mundo
10 de março de 2002

Trago toda a dor do mundo
ou pelo menos a de meu mundinho

Trago toda a dor de meu mundinho
e passo muito bem, obrigado...

Quer dizer...
Passo muito bem por opção
e agradeço
a mim mesmo

Trago toda a dor do mundo
de meu mundinho
e tive sorte

Trago toda a dor do mundo e tal
mas não a sinto agora
apenas estou ciente

Trago toda a dor do mundo
e estou contente

Estou contente com a dor do mundo
embora a de meu mundinho aborreça-me
volta e meia

Se eu não me aborrecesse
estaria morto
fora do mundo
em lugar nenhum

Luto contra a dor do mundo
inclusive eventualmente botando
o dedo e tal na ferida

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