Coletânea Imprevista


Régis Antônio Coimbra
Porto Alegre, 4 a 28 de maio de 2002

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Tudo e vice-versa
4 de maio de 2002

Depois de tudo
nada mais

Enquanto tudo
nada demais

Antes de tudo
nada

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Algo
4 de maio de 2002

Algo teu
encanta-me

Algo diverso teu
diversamente visto
por mim em mutação
encanta-me

Algo teu
penso-me
ofereço-me

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Uma mulher
4 de maio de 2002

Sou-me o tormento
e delícia central

Causas, místicas, meditação
distraem-me de mim
que me delicio
mas deliciado
temo-me perder

Sei que me perderei e
nessa angústia
já em parte me perco

No que me não perco
atormento-me
e me perco
e me atormento
como uma mulher má
e deliciosa

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Esperanças
16 de maio de 2002

Se não me pergunto
gosto da vida
mas se me pergunto
não gosto

Se me pergunto mas não reflito
não gosto da vida mas
se reflito concluo que não
gosto gostando de gostar ou não

Quero viver para
continuar querendo
morrer logo

Quero morrer tarde demais
para viver a pertinente dor
dessa persistência inútil

Quero o gozo e o tédio
de gozar demais ou de menos
até querer o oposto do que for

Quero tudo o que sei
que não terei senão migalha
e de tão pequeno e frágil
de certo também acharei demais

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Vagabundo
16 de maio de 2002

Não posso explicar
o quanto quero querer
tudo aquilo que de fato
não quero

Quero tantos resultados
cujas condições não
quero nem suporto

Sou vagabundo
parasita
irresponsável
e impotente

Sei que sou assim
e que não posso querer
ser realmente diferente
no que realmente importa

Posso mudar
mas não me posso mudar
como pude nascer
mas não me escolher

Não pedi para nascer
e não pedi esse vício
de estar-me e vivo
apesar de tudo e de mim

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Cobiça e admiração
16 de maio de 2002

Prefiro minhas misérias
à riqueza alheia
à qual sou alheio

Cobiço a riqueza ou miséria
alheia a qual não sou alheio
ou não cobiçaria

Mas admiro a estranheza
de tantas pessoas ou assemelhados
que são tão humanas e diversas

Essas que me parecem desumanas
e, não raro, simétrica é
a opinião que me votam ou vetam

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Eco
16 de maio de 2002

Várias vezes pensei
que já era o momento
de findar meu tempo

Várias vezes senti
que já dissera tudo
e mais um pouco

Várias vezes aspirei
que tudo cessasse
sem maior alarde

Várias vezes senti-me
um eco de mim mesmo
a desonrar-me

E várias vezes acertei nisso
mas fingi mais ou menos bem
que não era bem isso

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O horrível
16 de maio de 2002

O horrível de ser correspondido
é não corresponder mais
e continuar sendo correspondido
por quem já não corresponde
ao que posso corresponder ou querer

O horrível de ser traído
é ter confiado ou esperado
demais e tolamente

O horrível de trair
é ser honesto consigo
e por isso não poder
mais gostar tanto
de si mesmo

O horrível de ser ético
é não ser bom
senão para si
ou alguma turma

O horrível de ser bom
é ser mau para muitos
e não raro incômodo
demais para si

O horrível de ser justo
é não ser bom ou conveniente
senão para si ou projeto
razoável de si sem ser
mais razoável que
uma matilha de lobos

O horrível de ser honesto
é não poder mentir para si
nem fingir que se não mente
o tempo todo sem saber
que se é horrível e desonesto
irremediavelmente

O bom de tudo isso
é que dá para reclamar
com a desculpa da arte
ou ao menos catarse

Sem poder evitar o inevitável
travo de perceber o ridículo
disso tudo que deploro e amo
como a mim ou meu

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Desemprego
19 de maio de 2002

A faxineira que herdou
como sua mãe
envelheceu

Começou-a poupando
fazendo por si
o que ela fazia...

Ah... as boas intenções...

Antes que ficasse incapaz
ou se pudesse aposentar
ficou obsoleta

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Velho sensível
23 de maio de 2002

Meu pênis
companheiro quase
centenário não
levanta mais
como eu mas
ainda sente

Coceira, dores, tonturas
sem fim nem remédio
causadas ou prolongadas
por tantos remédios
para nem sei o que

E ainda gosto disso
mais que do passado
ou abismo

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Compaixão
18 de abril de 2002

Todos deveriam cometer
ou pelo menos planejar
e antegozar
crimes hediondos
sangrentos
covardes
frios
perversos

Sem isso
não temos compaixão
nem pelo próximo
nem por nós mesmos
que não somos santos
como alguns deliramos...

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Asilo
28 de maio de 2002

Ando por lembranças
onde a vida levou-me
qual onda que usei
para voltar à minha terra

Entende-me quem viu
quando a dor passou
ao alívio suceder-se o horror
da falta de atribulações

Reconto-me contos
sem moral ou sentido
que são a moral e o sentido
da vida que ainda vivo e sinto
 

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