UM DIA AP�S O OUTRO
Havia, certamente, algo de muito errado com Greg�rio Santos, pois certa manh�, sem motivo algum, ele caiu morto enquanto atravessava uma avenida no centro da cidade. Muitos que ouviram a hist�ria, dizem ter acontecido numa ter�a-feira. Greg�rio era vendedor, desses que v�o de porta em porta, e os produtos dos quais dispunha eram sempre de uma inutilidade absurda. Carregava im�s de geladeira e p�s de fog�o por onde ia, dentro de sua mala vermelha, que nada combinava com o terno cinzento. Andava sempre apressado, pulando o hor�rio da refei��o vez em quando. Nada de especial havia naquela manh� de ter�a-feira, sua vestimenta cinza sempre lhe proporcionava um grande calor, de forma que algu�m vivendo nessas condi��es, pode, naturalmente, vir a desmaiar um dia. O homenzinho verde iluminou-se e todos os pedestres se puseram a andar, enquanto alguns carros ainda tentavam vencer o sinal. Greg�rio aguardou todos passarem, at� a �ltima senhora, cambaleando com sua bengala, e s� ent�o, recome�ou a dar passos. Dentro de seu carro, o careca n�o entendia o que tinha acontecido com aquele homem de terno, em um momento andava despreocupado, no outro, se encontrava indefeso estendido no ch�o. Ele foi o primeiro a perceber, e saiu do carro. Logo a gente que atravessava a rua tamb�m parou, e foi ao encontro de Greg�rio ap�s o primeiro choque.
- Pega no pulso! - disse um, metido a eentendido.
O careca pegou-lhe o pulso.
- T� parado, acho que morreu.
O som predominante n�o mais era de buzinas ou gritos, e sim de um cochicho nervoso que se expandia. Um senhor, muito magro, abaixou-se e tocou o peito de Greg�rio.
- N�o, n�o, o cora��o ainda bate!
As velhinhas n�o se contiveram, puseram-se a gritar em protesto, os vendedores ambulantes tamb�m.
- Ah! T� morto ou n�o?
O careca, que at� pouco, comandava as rea��es da multid�o, gritou:
- Precisamos de um m�dico! Tem algum m��dico aqui?
De muito longe chegou uma voz, uma voz bastante jovial. Um caminho foi-se abrindo no meio das pessoas, e ent�o surgiu o m�dico.
- Voc� � o m�dico?!
A multid�o riu-se descontroladamente, tratava-se de um rapaz com n�o mais de vinte anos.
- Sou estudante de medicina! J� estou nno quinto per�odo!
A gente parecia se divertir bastante com a situa��o, m�es, que carregavam os filhos nos bra�os, quase rolaram de tanto rir. E o jovem aspirante a doutor mostrou-se indignado.
- Olha, eu s� quero ajudar!
- Voc� pode ajudar caindo fora daqui! -- disse o careca.
Um menino, segurando uma garrafa com cola, surgiu no meio da confus�o e colocou uma m�o no pesco�o de Greg�rio.
- Ele t� meio doente mesmo.
O careca se aborreceu bastante e chutou o garoto para longe.
- Saia daqui moleque! Isso n�o � brincaadeira.
O estudante abaixou-se at� o corpo e checou outra vez o pulso.
- Eu j� fiz isso, seu m�dico de merda!
- Por que est� t�o bravo?? S� quero ajuudar.
O careca n�o aceitou aquilo, sentia-se ofendido e deu um tapa no estudante. A multid�o, de novo, caiu no riso. O jovem ficou furioso e partiu para cima do careca, os dois lan�aram-se ao ch�o, onde ficaram trocando socos. Uma senhora que at� o momento n�o se tinha pronunciado, gritou:
- Parem j� com isso! Temos uma vida em risco e voc�s ficaam nessa perda de tempo.
Os dois levantaram-se e baixaram a cabe�a envergonhados, a velhinha prosseguiu:
- O mais importante numa situa��o como essa, � avisar os parentes! Se meu filho estivesse morto numa avenida, eu gostaria de saber.
- Tem toda raz�o! - gritou um homem quee chegara l� h� pouuco tempo, chegou mais perto - Temos que ver seus documentos, deve haver n�meros de telefone tamb�m.
O homem puxou a carteira do bolso traseiro de Greg�rio, e rapidamente retirou todo o dinheiro.
- O que est� fazendo?? - gritou o carecca.
Mas ele saiu em disparada sem ouvir o resto, o careca se tornou vermelho de raiva e foi correndo atr�s do ladr�o. A senhora pegou a carteira, passou a vista rapidamente em algumas fotos, outras mulheres curiosas aproximaram-se tamb�m para ver.
- Carminha!! - gemeu de repente a senhoora com a carteira na m�o - Ele era filho de Dona Carminha, meu Deus, que mundo pequeno.
A outra n�o parecia acreditar na coincid�ncia.
- � mesmo? A senhora conhece a m�e delee?
- Oh sim! Ela � um amor de pessoa, e ollha o que acontece,, logo ela, perde o filho.
A multid�o soltou um suspiro de lamento, logo depois ouviu-se uma buzina. Muitos carros ainda tentavam passar por aquela passagem, agora totalmente obstru�da.
- Olha, eu sei que tem um morto a�, mass ser� que voc�s pooderiam arrast�-lo at� a cal�ada? O tr�fego n�o pode parar - disse o policial.
Volunt�rios para carregar o corpo surgiram de todos os cantos. Desde crian�as at� idosos, de robustos � magricelas, de modo que a confus�o foi absoluta. Alguns agarraram os bra�os, o policial, muito cuidadoso, segurou a cabe�a, enquanto as velhinhas gritavam e davam instru��es. Acabaram por derrubar o corpo no asfalto.
- Se n�o estava morto, est� agora - dissse um engra�adinhoo.
Enquanto isso, o careca tinha conseguido alcan�ar o ladr�o safado, e este prop�s a ele um acordo de dividir o dinheiro. Mas o careca n�o era homem disso, exigiu o dinheiro ou ent�o o entregaria � policia. E o ladr�o foi obrigado a fazer desta forma, devolveu o dinheiro.
O corpo de Greg�rio j� estava na cal�ada. O estudante andava de um lado para o outro pensativo.
- Como � poss�vel? O pulso est� parado,, por�m, o cora��o ainda bate.
S�bito, lembrou-se que havia outro meio de checar se ele estava vivo. Como era mesmo o nome daquela veia que se localizava na virilha? N�o importava, o estudante, com ar de triunfo, disse � multid�o:
- O pulso n�o pulsa, mas o cora��o batee. Tenho a solu��o,, vou checar-lhe a virilha e ent�o teremos o veredicto.
O estudante p�s-se de joelhos e abriu o z�per das cal�as de Greg�rio.
- O que est� fazendo? - gritou uma senhhora horrorizada.
- N�o se preocupe, sei o que estou fazeendo.
Colocou a m�o l� dentro, eis que surgiu o careca, que ao ver tal cena, quase teve um colapso.
- Seu merdinha, v� praticar suas perverrs�es em outro lugaar!
- Acalme-se, s� estou checando a...
O careca deu-lhe outro bofet�o, e os dois se pegaram de novo. Por fim o estudante fugiu, ap�s constatar que seria destru�do. O careca levantou-se e gritou indignado.
- Meu Deus! O que s�o capazes de fazer a um morto?! O malldito ladr�o fugiu com o dinheiro e ainda tem esse outro. Pelo menos algu�m aqui sabe o que faz, eu tratei de chamar a ambul�ncia.
A ambul�ncia chegou ap�s dez minutos, e dois homens, vestidos de branco, pularam da viatura.
- Ainda bem que voc�s chegaram - disse o careca - J� fizeeram de tudo com o presunto, s� eu me preocupei de verdade, quase peguei o cara que levou a grana.
Os enfermeiros fizeram uma primeira verifica��o e constataram a mesma coisa. O pulso parado, o cora��o batendo, �s vezes respirava, outras vezes n�o. Colocaram o corpo sobre a maca, quando Greg�rio mexeu-se bruscamente. A multid�o gemeu horrorizada, algumas senhoras desmaiaram, outros sa�ram correndo, como quem v� um esp�rito, o resto da gente se encontrava totalmente absorvida pela curiosidade e n�o se movia. Greg�rio abriu os olhos, tossiu e levantou-se, bateu com a m�o nos ombros para tirar alguma sujeira e tossiu de novo. A multid�o estava, pela primeira vez, quieta. Muitos que l� estiveram, dizem que naquele exato momento, agradeciam a Deus por terem sa�do da rotina para um show completo. A expectativa era imensa. Greg�rio olhou a gente novamente com olhos confusos, tossiu outra vez e virou a costa para a multid�o.
- Ei cara, n�o vai dizer nada? - disse o careca, que falaava aquilo que estava preso na garganta de todos.
Greg�rio completamente perplexo virou-se, e ap�s pensar por um momento, disse:
- Por mim, voc�s podem todos ir se fodeer.
Greg�rio tomou seu caminho e virou na esquina seguinte, e muitos, que pesquisaram sua vida, dizem que ele s� foi cair morto outra vez depois de quarenta e sete anos.
Victor Ribeiro Toscano Barreto