O capitão Marlon já há duas horas aguardava impaciente e estoicamente na ante sala do Almirante Xanther, a bela secretária do almirante era uma moça bonita e encantadora, percebia-se claramente os olhares cheio de indiscrição que a moça lançava ao capitão, Marlon já estava acostumado com esse tipo de assédio do sexo feminino, sua atual forma humanóide era uma das mais belas que esse transmorfo já havia adquirido, é lógico que essa característica transmorfa era desconhecida do pessoal da Frota Estelar, Marlon era reservado e discreto sobre sua ascendência, em sua ficha médica havia a indicação que quando da sua descoberta pela USS MIAMI há 300 anos atrás sua memória havia sido apagada por algum processo desconhecido da cúpula médica da federação, mas a verdade era bem outra.
O intercomunicador da secretária, Xaria era seu nome, se ativou, o Almirante Xanther finalmente resolvera convocar o capitão para a sua conversa, elegantemente Xaria se levantou pedindo ao capitão que a acompanhasse, o rebolado da humana era uma indicação precisa de que se desejasse Marlon não passaria aquela noite desacompanhado, mas estes desejos, no momento, não passavam pela cabeça do capitão, finalmente Marlon se viu frente a frente com o lendário Almirante Xanther, esse homem era uma lenda na frota estelar, Xanther era velho, aparentava cerca de 70 anos ( na realidade possuía mais de 130 ), ainda possuía o visco de uma juventude e maioridade cheia de aventuras no comando de uma infinidade de naves espaciais nas mais distantes fronteiras da Federação, suas feições eram duras, olhos negros se destacando contra o branco indescritível destes olhos, eram olhos acostumados ao comando, frios, calculistas, Marlon usou seus desconhecidos poderes mentais para sondar a mente daquele homem, o que descobriu o deixou contente.
- Sente-se capitão, quero lhe dizer que sou um homem prático e gostaria de ir diretamente ao motivo da sua convocação.
- Bom senhor, sou todo ouvidos.
O velho almirante gostou da atitude daquele misterioso homem.
- Como sabe capitão, todos os planetas da Confederação Estelar cedem homens e naves para compor a frota de Federação, mas a frota se reversa o direito de escolher a tripulação quando a nave é construída nas suas oficinas.
Direto ao ponto, muito bom, pensava Marlon
- Bom capitão, temos uma novidade saindo de nossas oficinas, é uma nave da classe Universo, mas com algumas, hã, modificações em relação ao projeto normal de naves dessa classe, ela é equipada com o que de mais moderno existe em termos tecnológicos, a tripulação da mesma está sendo escolhida a dedo, após uma cuidadosa análise do perfil de milhares de candidatos em potencial, e capitão, mesmo eu sendo contra, seu nome foi indicado como comandante desta nave, seu nome é USS BRASIL, este relatório á sua direita é a tripulação escolhida, sua indicação está no relatório á sua esquerda, este não é um convite capitão, é uma ordem direta, pessoas influentes nos mais altos escalões querem que você e essa tripulação testem a USS BRASIL, a nave se encontra no hangar número 20 da base localizada em Caronte ( lua de Plutão ), bem capitão, há algo que queira expor ou algum esclarecimento que deseje.
- Não senhor, a que horas parte o transporte que me levará para Caronte?
- Veja com Xaria, ela lhe dará as instruções necessárias, hã capitão.
- Sim senhor?
- Sei de sua reputação, a disciplina e dureza com que costuma moldar suas tripulações, mas gostaria de lhe pedir um favor, não seja extremamente duro com Sílvia, é minha sobrinha, molde-a para a disciplina, mas não maltrate minha menina, é a única parente viva que possuo, gostaria de lhe pedir somente este favor.
- Almirante, verei o que é possível fazer.
- Dispensado.
Então na tripulação havia uma sobrinha do almirante, interessante, uma clara indicação da recusa de seu nome para o cargo de capitão que o almirante havia deixado bem claro, ele comandaria a nave mesmo contra a vontade do almirante que decerto perdeu nas considerações finais do conselho.
Do lado de fora uma sorridente Xaria apressou-se em dar ao capitão hora e local de embarque deste para Caronte, assim como os demais documentos necessários, era visível no olhar da jovem a decepção desta que o embarque de Marlon ocorresse dali a duas horas, bem, talvez em outra ocasião.
Marlon ao sondar os pensamentos da jovem ficou com o rosto ligeiramente rubro, pegou suas instruções e saiu apressadamente dali.
Enquanto esperava o transporte para Caronte, Marlon deu uma rápida olhada nos nomes da sua tripulação, o que leu acabou lhe agradando, uma tripulação jovem, alguma experiência, poucos humanos, a raça humana começava seu processo de decadência, após um período áureo que durou de 2.300 até perto de 3.200 os seres humanos naturais da Terra eram cada vez mais raros nas naves estelares, diversos povos da Federação, mais jovens, ou mais impetuosos desbancavam os terranos nas academias da frota, se algo não fosse feito em breve essa raça entraria em decadência e outro ocuparia o seu lugar de "dona" do Universo, mas esse problema não era para ser resolvido por Marlon, os humanos que se virassem quando chegasse a hora.
O transporte que o levaria a Caronte finalmente chegou, o embarque foi rápido, somente Marlon e mais alguns poucos oficiais estavam indo para a lua de Plutão, o vôo teria a duração de duas horas, pois dentro do sistema solar era proibido ultrapassar a velocidade de dobra 05, algo natural tendo em vista o grande fluxo de espaçonaves que circulavam dentro do sistema solar, naves com velocidades superiores eram gentilmente convidadas a baixar a velocidade ou teriam que prestar contas a naves combatentes da Federação, fora-lhe dito que as instruções quanto á primeira missão da nova nave seriam entregues no tempo aprazado.
Marlon sentou-se confortavelmente em sua cabine particular, estava há 45 dias sem dormir, mas seu ciclo de sono somente chegaria daí a mais 135 dias, portanto tinha tempo de sobra, o que ele gostaria era de voltar á sua forma original, mas ali era perigoso, há tanto tempo o transmorfo não readquiria sua forma original que tinha medo de não se lembrar qual era, ao lembrar disso um sorriso fortuito aflorou em seus lábios quase sempre sisudos.
Ao chegar á Caronte Marlon foi recebido pelo comandante da base, General do Espaço Nertze, um afro terrano de bons modos e excelente educação, já havia lido algo desse homem, quando da última crise em Cercer I, ele havia derrotado os piratas com sabedoria e habilidade, nada mal para um terrano, Nertze o recebeu com um sorriso nos lábios.
- Então tenho diante de mim, o mais do que famoso Cap. Marlon, senhor, é um prazer receber uma lenda viva nesta humilde base.
- General Nertze, é um prazer estar em sua base, gostaria que me fossem passados os dados técnicos da nova USS BRASIL, pelo que o almirante Xanther me disse essa nave possuí algumas características próprias que a distingue de naves comuns.
- Sim senhor capitão, a USS BRASIL é uma maravilha, seu raio de ação pode chegar a 30.000 anos luz, segundo nossos técnicos seus conversores podem atingir dobra 14, sua capacidade de reação é 10 vezes mais rápida do que uma nave normal, seu poder de fogo é superior a de toda uma frota de naves da classe planeta, sim senhor, uma bela obra de arte da engenharia de astronavegação dos engenheiros da frota.
A descrição da nave acabou tomando a tarde inteira, o general Nertze falava com entusiasmo da nave que fora construída em seus terminais, uma completa planta holográfica da mesma foi passada para Marlon, a vistoria que antecede qualquer lançamento seria feita daí a dois dias até lá Nertze fazia questão que ninguém da tripulação pudesse se aproximar da nave, nem o capitão, Marlon interpretou isso como sendo o orgulho de um general quando faz algo muito bem feito, o general não escondia de ninguém o orgulho que tinha de que uma nave daquelas tivesse sido construída nos estaleiros da base que ele dirigia há mais de 05 anos com mão de ferro.
A chegada do restante da tripulação estava marcada para daí a 03 dias, até lá Marlon teria tempo para se familiarizar com a planta holográfica da nave, seus comandos e principalmente suas novidades, para um ser que ainda estava muito distante de seu ciclo do sono seria tempo mais do que suficiente para isso.