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Um conto de amor e política



Clara e Roberto tinham se conhecido naquela noite e se apaixonaram.

Coisa de cinema americano, disse Clara a Roberto na cama na mesma noite no apartamento de Roberto.

Tinham amigos semelhantes e se conheceram numa festa de aniversário de criança. Trocaram olhares, algumas palavras e foram dar uma volta. Foi amor à primeira vista. Foram ao apartamento de Roberto (Clara já o chamava de Betinho).

Ele gostava de poesia, principalmente de Vinícius de Moraes, e ao chegar ao apartamento pegou o violão. Sentaram os dois na cama, olhando-se. Apenas olhando-se.

Betinho começou a tocar "Eu sei que vou te amar" e Clarinha (apelido dado por Betinho) estava apenas a suspirar e a reparar os belos olhos de seu novo amor. Ele, então, após terminar a música emendou recitando o Soneto de Fidelidade, o que deixou Clarinha ainda mais encantada. Seus olhos são tão encantadores quanto o mais belo verso de Vinícius, disse encantadoramente Betinho.

.... "Que não seja imortal posto que é chama

mas que seja infinito enquanto dure"

E lhe deu um beijo. Fizeram amor aquela noite como nunca tinham feito com outra pessoa. Tinham combinado amor e sexo. Tinham chego à perfeição. Após o ato ainda conversaram (para felicidade de Clarinha, pois seus antigos professores transavam e roncavam apenas) sobre várias coisas como fidelidade, casamento, Deus, família e até política. O problema é que Betinho era de direita e Clarinha de esquerda. Mas nada que o amor não resolva.

Tudo bem, disse Clarinha, ainda bem que não concordamos em tudo.

É, continuou Betinho, mas que a esquerda é utópica e ignorante é.

Foram dormir.

Na manhã seguinte acordaram abraçados e Betinho trouxe o café na cama. Clarinha elogiou o café da manhã de artista, como ela mesma disse.

Mas a esquerda é o único caminho para o Brasil, Clarinha voltando ao assunto da noite anterior. A direita deixou o país como está com toda esta injustiça, emendou Clarinha.

Não acredito que uma mulher inteligente como você gosta deste bando trouxas que querem atrasar o Brasil, disse já enraivecido Betinho.

Roberto, olha a situação do país. Como você tem coragem de participar passivamente deste governo hipócrita e anti-social que vivemos?, Clara já saltando da cama.

O Brasil melhorou muito desde a ditadura, Clara. Você esqueceu da inflação que vivíamos? A insegurança que o povo brasileiro vivia em relação aos preços?, clamou Roberto saindo pelo outro lado da cama.

Discutiram mais um pouco e Clara foi embora, prometeu telefonar. Os dois sabiam que nunca mais se veriam. Ainda mais quando Clara viu em sua sala uma bandeira do PFL jogada no sofá.

Roberto fechou a porta e percebeu que tinha perdido a mulher da sua vida. Quis abrir a porta para chamar por Clara de volta. Clara, também, pensou que tinha perdido o homem de sua vida. Ela pensou duas vezes antes de bater de novo a porta e os dois ficaram por uns cinco minutos separados apenas pela porta. Um pedaço de madeira os separava. Um pedaço de madeira. Mas as convicções políticas eram mais fortes nos dois.

Clara foi embora e Roberto voltou ao quarto. Ela desceu o apartamento e ouviu no elevador "Eu sei que vou te amar" na voz de Tom Jobim e Roberto deitou em sua cama e ao lado um livro de poesias de Vinícius encontrava-se aberto. Ele deitado apenas leu:

-... Que não seja imortal posto que é chama

mas que seja infinito enquanto dure.

Mesmo que não dure tanto, pensou já em lágrimas Roberto.

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