Turno
"Fechado em sombrio imperme�vel, rondava o guarda a Rua da Guia, como rondam as criaturas noturnas seus dom�nios escuros, invis�vel que estava entre m� ilumina��o e grossa chuva. Pacificava-o a aflu�ncia dos contaminados ag�eiros sobre sua figura maci�a, sob seu l�dico consentimento.
Das pequenas engrenagens do rel�gio de pulso, um definitivo emperro o deixou ali, parado e sozinho, pois rondavam, ele e o tempo, gineteando-se mutuamente por todo o orbe. O tempo nas costas gordas do guarda, o guarda nas curvas que o tempo faz.
Ap�s in�teis chacoalhadas junto ao ouvido bom, atirou a pe�a met�lica ao ch�o, para depois recolh�-la, arrependido, em frangalhos. A esteira pluviosa o arrastava rua abaixo, numa velocidade � qual se desacostumara. Julgando-se inc�gnito, emulava a correnteza, ignorando o desuso da pr�pria musculatura(agora quase toda convertida em gordura). E isso dava � cara do guarda umas poucas e delicadas contra��es. Era o seu sorriso.
Avan�ava, deslizando os dedos da m�o direita nas portas e paredes do com�rcio fechado, e n�o se apoiando, como poderia pensar quem o visse. Bateu numa das portas. Curtas pancadas em resposta. E prosseguiu, tornando a encostar na parede os dedos, retomando a linha a partir do mesmo ponto onde antes a interrompera. Seu meticuloso tra�amento, a cantoria de Dolores Sierra ao consagrado modo de Nelson Gon�alves e o rel�gio quebrado no bolso tornavam eq�idistantes todos os trechos do turno.
Chegando ao fim da Rua da Guia, atravessou-a com os bra�os cruzados, encolhido de frio. 'E o gosto da Fratelli Vita, ent�o...', cutucou-lhe Deus, fazendo uma careta de saudade. Na outra cal�ada, pontas dos dedos de volta � parede, iniciou o caminho da volta."
Alfredo D.O.Filho