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Contos de Terror Críticas: A Doce Vingança Por: Adriana Portes |
No Jornal:
Pelos corredores agitados da sede do jornal vários funcionários se revezavam para deixar a edição do dia seguinte pronta, eram officeboys, redatores, jornalistas, fotógrafos, editores assistentes, tudo a maior balbúrdia, papeis voando de um lado para outro, computadores sendo usados, massacrados, espremidos tudo para que a edição saísse em tempo hábil.
Clara era uma dessas pessoas agitadas que corriam de um lado para outro, estava frustrada, sua reportagem sobre a galeria de artes tinha sido transferido para o Eugênio, não tinha nada contra este repórter esnobe e prepotente "...ele só era esnobe e prepotente..." e o pior nem gostava de arte e se gostava não demonstrava. Tinha passado horas com o editor chefe antes dele dizer um sumário NÃO a sua proposta para: Uma Nova Visão da Arte Contemporânea. Esse era o título de sua reportagem que sairia no caderno de variedades, página inteira isso queria dizer os dois lados do papel era a oportunidade que esperava para mostrar seus encantos de jornalista e eclética admiradora de arte, mas agora estava tudo nas mãos de Eugênio.
Entrou na sala dele um dos poucos que tinham sala no jornal e tirou as fotos de um evenlope e as entregou contrariada para Eugênio que desviou os olhos da tela do computador e a encarou:
- O que é isso?-
- São as fotos da exposição de arte que está na galeria -
- Ah.. aquela que vai até o final das comemorações da semana de Arte Moderna? -
- Sim aquela que abre amanhã a noite com a presença de renomados pintores e artistas -
- Você diz aqueles palhaços que pintam coisas que meu filho de 2 anos faz de olhos fechados!-
- Aquilo é arte, não brincadeira de criança -
- Isso é o que eles pensam...eu faço aquilo com meu pé esquerdo , você viu o filme né? Com aquele irlandês... - Ele riu a encarando
- Bem aqui estão as fotos e o material que tenho, você tem que ir lá e verificar tudo pessoalmente e ainda fazer a entrevista com o autor das pinturas.-
- Esse Van Helder...pode deixar.- ele disse convicto - Clara minha querida.. não faça essa cara, sua oportunidade vai surgir mais cedo ou mais tarde, não se preocupe...ainda mais que você pode fazer a reportagem do prefeito sobre o inquérito da câmara e o caso da carne super faturada...-
Clara o olhou com mais raiva pronta para deixar a sala...
- Isso não vai virar pizza como as outras CPIs, isso vai virar cozido...- Ele gritou de dentro da sala.
Clara bateu a porta e saiu deixando evidente a contrariedade que sentia.
****
Eugênio pegou as fotos e deu uma boa olhada nelas...sinceramente ele as achava ridículas, aquilo não era arte, era uma palhaçada um arremedo de desenhos infantis mau feitos.
As molduras eram mais bonitas que as próprias telas "...esses pintores modernos são uma farsa mesmo..." - ele se recostou melhor na cadeira - "...pelo menos vou ter o que criticar está semana...."
Começou a ver as fotos uma por uma com certa atenção. Olhou um quadro que tinha um homem em pé com ar britânico com baratas correndo sobre seu corpo "...certamente um quadro satírico e nojento..." - ele riu - outro com borrões em tom de verde sem graça .
- meus Deus o que é isso...? -
Várias pessoas estilizadas com a boca aberta gritando em agonia em um cenário decadente de paredes vermelhas e moveis distorcidos - um verdadeiro quadro depressivo -
Enfiou as fotos em uma gaveta e escreveu na sua agenda:
Visitar a galeria da rua outubro ainda hoje. Falar com Helder o autor lunático dos quadros.
Ele pegou suas coisas e saiu para almoçar.
No telefone:
-'VOU TRANSFERIR A LIGAÇÃO PARA O SR. VAN HELDER, AGUARDE UM INSTANTE POR FAVOR' -
Eugênio esperou cerca de dois minutos que pareciam uma eternidade, já estava achando Helder muito excêntrico: onde já se viu não dar entrevistas?
- Alô - uma voz masculina cheia de segurança falou do outro lado da linha.
- Boa tarde eu sou Eugênio Costa o jornalista do Diário Expresso, sua secretária deve ter informado a respeito de uma entrevista -
- Boa tarde, sinto muito Sr. Costa, mas não dou entrevistas -
- Mas seria ótimo para a divulgação de sua nova exposição -
- Entendo - ele fez uma pausa - Uma jornalista me contatou ontem a esse respeito.-
- Sim eu sei, ela é minha colega de trabalho - "E minha ex-amante..." Pensou meio ressentido.
- Então ela deve ter falado ao Sr. que não dou entrevista, nem mesmo vou as minhas exposições. -
- Mas essa oportunidade vai colocar o Sr. mais próximo ao seus admiradores.-
- Admiradores - Helder suspirou - Sou um artista egoísta, Sr. Costa , faço arte para mim e não para admiradores. -
- Bem, gostaria de discutir com o Sr. essa arte egoísta. -
Van Helder sorriu do outro lado da linha.
- Vocês jornalistas são as pessoas mais insistentes que conheço, diga-me uma coisa Sr. Costa. O Sr. gosta de arte? -
Eugênio suspirou louco para dizer que gostava de arte mas não a de Helder.
- Sr. conheço um pouco de arte, mas não o suficiente para gostar -
- Intrigante... o Sr. escreve sobre arte e não a conhece o suficiente, isso é ilógico Sr. Costa.
- Na verdade escrevo sobre vários assuntos -
- Bem Sr. Costa veja os quadros e escreva sobre eles -
- Preciso saber quais foram suas motivações e inspirações. -
- Foram as mesmas de qualquer artista . -
- Sr. Helder devo confessar que o Sr. dificulta as coisas mesmo. Preciso de uma entrevista -
- Use seu poder imaginativo, por que o Sr. não fala com meu assistente ele deve estar na galeria neste momento, não posso mais prolongar essa conversa, adeus Sr. Costa. -
Helder desligou antes de ouvir uma imprecação de Eugênio.
Na Galeria.
Eugênio demorou meia hora para conseguir estacionar seu carro, só isso já o deixou possesso de raiva, não aceitaria mais essas transferências de última hora do editor do jornal. "... nem de arte eu gosto..."
Saiu em meio a calçada e já foi atacado por um flanelinha...
- Ei tio posso cuidar do carro...?-
Eugênio o encarou sem graça com vontade de dar um tabefe no guri.
- Cuida...e vê se não vai arranhar...-
- Pode deixar tio.-
Deixou o moleque para trás e andou cerca de cinqüenta metros, a fachada da galeria era branca e creme com colunas gregas segurando um frontão triangular, a porta era de vidro e lá dentro havia um movimento de pessoas.
Pegou na maçaneta e forçou a entrada mas estava trancada, logo chamou a atenção do vigia que veio em direção dele. Este abriu uma fresta e perguntou suscintamente o que Eugênio desejava afinal.
- Meu nome é Eugênio Costa marquei entrevista com o Sr. Vitello -
Alguém alto e robusto veio em direção da porta, vestia um terno azul marinho mas a camisa era estranha, cheia de florzinhas "..mas que combinação absurda..."
- Sr. Costa, estava o aguardando o Sr. pode entrar...-
O guarda se afastou do caminho e deixou Eugênio entrar.
- Eu sou Vitello, mas pode me chamar de Luiz .-
- Bem Luiz, gostaria de ver os quadros e fazer algumas perguntas -
- Claro , claro..vamos por aqui -
Vitello ou melhor Luiz o encaminhou para um salão amplo com vários painéis, os quadros estavam fixados nestes painéis brancos, isso dava um bom contraste para as pinturas caóticas e escuras de Van Helder.
- Por que Helder nunca dá entrevistas ? - Eugênio soltou derrepente.
- Porque ele me paga para isso...- Vitello mexeu as grandes bochechas quando riu da resposta.
Eugênio deu um sorrisinho sem graça e resolveu começar a perguntar sobre os quadros, fez este tipo de serviço principalmente no começo de sua carreira como jornalista, mas agora não gostava mais de Críticas de arte, gostava mais de área das viagens e política, ainda não sabia por que o editor chefe tinha lhe dado essa matéria.
Olhou para os quadros, lá estava aquele quadro depressivo sobre pessoas gritando e moveis deformados.
- Lindo não? - Vitello não tirava os olhos do quadro.
- Diferente eu diria -
- O Sr. não vê a essência , a morte a agonia chegando -
Eugênio quase dá uma resposta de supetão, mas preferiu ficar calado, pra ele aquilo era um lixo.
Continuaram a andar pela galeria, agora as paredes eram vermelhas e os painéis em tons escuros de vermelho um ar melancólico era dado por uma luminária enorme que ficava no centro deste segundo salão, realmente combinava com os quadros depressivos expostos.
Uma mulher tirando a calcinha azul marinho com pernas finas e corpo deformado, definitivamente horrível.
Um ancião careca cuspindo sangue em uma calçada cinza ...deprimente...
Eugênio já estava buscando os adjetivos que colocaria no artigo: OBRA DECADENTE DE AUTOR DEPRESSIVO.
- Isso mostra nossa vida ..gosto do homem cuspindo...é deveras interessante - Vitello falou sério olhando o quadro com amor verdadeiro.
Eugênio só pensava:"...Que mau gosto..."
Um homem muito bem vestido se aproximou deles e olhou a obra também. Eugênio o encarou , parecia conhecer ele de algum lugar, mas não lembrava de onde. O homem sorriu para ele e foi para o outro salão...
- Vocês já abriram a exposição?
- Ainda não..você deve ter achado estranho? Este é um dos colaboradores do Sr. Van Helder..ele é muito intuitivo mas bem calado...
Eugênio olhou para o chão e uma barata andava feliz por ali..
Vitello nem vacilou pisou nela fazendo um barulhinho característico de coisa esmagada e melada...
- Essas galerias velhas...odeio baratas -
- Mas elas existem em todo o lugar mesmo. -
Eugênio achou que aquilo só podia fazer parte da exposição. "...baratas e aqueles quadros tudo a ver... "
Saíram dali e foram para outro salão as paredes agora eram vinho com mais quadros esquisitos, mas agora só borrões, no canto havia uma tela de 3 metros quadrados, enorme, com o mesmo tipo de pintura depressiva, ruas sujas, gente mau trapilha e céu cinza e chuva, definitivamente mais horrível ainda...
Vitello como sempre olhava o quadro com ar de intelectual ia respondendo as perguntas com mais evasivas do que acertivas e definitivamente a tarde não estava sendo produtiva.
- Ah seu fotógrafo esteve aqui ontem com uma moça encantadora -
- Eu sei já recebi as fotos -
- Por que ela não veio hoje? -
- Transferiram ela para outra matéria -
- ah...........-
Vitello o acompanhou até a saída e se despediu. Eugênio esperava nunca mais ter que vê-lo.
- Até logo...-
Na rua:
Saiu em meio a calçada novamente e andou uns cinqüenta metros, o céu estava cinza e certamente logo ía chover o vento começou a ficar mais forte e Eugênio apertou o passo olhou para a esquerda e depois para a direito, nada do guri, ficou louco da vida quando procurou o carro e não achou andou mais um pouco, na verdade não lembrava direito onde havia estacionado mas foi naquela rua, nada de seu carro...
- Me roubaram - Ele quase chorou de raiva...chutou o chão perdido...
- Merda..merda..merda...merda...-
E os transeuntes não entenderam o por quê daquele ataque de palavrões e outros palavrões piores que ele dizia a todo os pulmões....
Fez sinal para um taxi e entrou...
O motorista era um velho com boné italiano, uma bandeirola do palmeiras tremulava no retrovisor interno do carro.
- Vai pra onde ?-
- Me leva para uma DP -
- Certo...-
O rádio estava desligado e isso era bom, a chuva começou a desabar parecia um dilúvio o congestionamento apertou e Eugênio pensou o que podia acontecer agora de pior? Depois mudou de idéia as coisas podiam ficar piores mesmo.
- O Sr. não pode cortar caminho por um atalho? -
- Só se eu colocar hélices no carro - O velhinho sorriu irônico.
- Bem é o jeito então... - Eugênio disse contrafeito parado em um congestionamento no meio de um dilúvio no centro da cidade depois de ter seu carro roubado...
Fechou os olhos pensando ...pensando...
- Vou sair aqui! - Disse derrepente.
- Mas está a maior chuva -
- Tudo bem...tenho hélices..e vou sair voando..-
- São 10 contos...
- Está aqui.
Eugênio saiu em meio a chuva as calçadas estavam começando a alagar e sua pasta ficou logo toda molhada, sorte ela ser impermeabilizada...
Andou pelas calçadas vazias no meio da chuva suas roupas ficaram encharcadas, mas agora isso serviria para esfriar sua cabeça estava com raiva daquele dia azarado e estava com vontade de esmurrar o editor chefe que tinha lhe dado aquela matéria quem deveria estar alí era Clara e não ele.
Olhou para baixo de uma marquise e pessoas maltrapilhas tentavam dividir o espaço escasso, desistiu de parar ali e seguiu em frente entrou em um boteco de esquina e todos o encararam com surpresa vários mal encarados estavam sentados esperando a chuva passar. Decidiu pedir um cafezinho para esquentar o esqueleto, tomou rápido e sentiu o líquido escorrer por dentro da garganta, observava as pessoas, umas olhavam para a chuva e outras tomavam cerveja, um sujeito meio nervoso estava na ponta do balcão, apesar do dia estar fresco suava na testa...
- Ei você ! - O sujeito encarou Eugênio...
- Tem um cigarro? -
Eugênio abriu a pasta e tirou a carteira "... fumar até que seria uma boa idéia..."
- Tome.
- Obrigado amigo -
"Amigo.. nem conheço esse cara..."
Alguns momentos se passaram e sentiu algo espetar seu fígado...
- Ei você passa a carteira...- O cara com o cigarro na boca sussurrou de leve.
- Mas amigo estou sem nada - Eugênio o encarou acabara de dar um cigarro pro cara, que droga.
- Sabe como é amigo, ás vezes o que você acha pouco para mim é muito e com essa pasta de couro creio que seu pouco ou nada e muito pra mim...
- Qual é amigo aqui tá cheio de gente...-
- E daí. Mato você e depois mato todo mundo. -
- Calma, calma pode levar tudo que quiser mas tire essa idéia de matar todo mundo da cabeça tudo bem..-
- Cala a boca amigo você fala demais -
AHHHHHHHHHHHH- Uma mulher próxima gritou quando viu a arma .
-Quieta!!!! - O assaltante com cigarro na boca gritou, alguns foram pra baixo da mesa, outros ficaram estáticos, a mulher chorava..
- Não faz isso não moço...não faz não...- Ela dizia em choramingos.
- Ei amigo calma aí isso mata.-
- Cala a boca - E deu um tiro no homem magro que tinha falado.
O sangue sujou o chão e escorria em profusão pelo homem ferido. A chuva lá fora aumentava...
Eugênio pensou hoje é meu dia...
- Ei tú ai...me passa essa pasta...-
- Pera aí vou te dar a carteira né...-
- Cala a boca cara! Tu é muito abusado com essa roupa de granfino...-
O ladrão descarregou outra bala, só que agora em Eugênio...
Ele caiu segurando o estômago, como se isso fosse estancar o sangue sentiu uma queimação e só caiu fitou toda a movimentação no bar e depois apagou.
Todos ficaram calados o silêncio era profundo e o barulho da chuva nos telhados e na marquise abafava o choro da mulher nervosa...
- Cala boca todo mundo...eu quero as carteiras...AGORA!!! -
Todos vagarosamente e tremendo jogaram as carteiras na mesa de bilhar...
O ladrão pegou tudo o que podia e saiu na chuva, sem antes deixar de ameaçar todo mundo...
Todos se acalmaram um pouco e telefonaram para a polícia, mas agora já era tarde...
No abandono:
Eugênio desmaiou e recobrou a consciência logo depois. Estava em baixo da chuva na calçada jogado e sangrando o bar tinha fechado as portas as pessoas tinham sumido seu sangue escorria pela chuva tudo estava vermelho a mulher choramingando havia sumido e o outro baleado um velho bem magro já morto estava perto dele, sua pele estava branca e molhada seus olhos abertos sem vida o encaravam...
"...será que pensaram que eu morri também..."
Eugênio estava vivo, jogado na calçada, tentou gritar socorro sua voz saiu sem força.
Um carro parou na beira da calçada uma mulher saiu dele e viu os dois corpos com um misto de surpresa e dor...
- Você está ...- ela não acabou a frase...a chuva tinha diminuído...
- Consegue se levantar? -
Eugênio não se mexia, não podia estava paralisado...derrepente o rosto da mulher ficou contorcido e sem forma e ela gritou um grito de desespero de morte...
Sentiu o balanço do veículo mas não era um carro era uma ambulância, um enfermeiro de máscara cutucava sua barriga não podia ver o que fazia só via o homem trabalhando rápido, não sentia nada achou que estava morto. O veículo parou e abriram a porta rapidamente um clarão invadiu seu campo de visão e sua maca foi posta para o lado de fora...
- Agora é com você. Amigo -
Olhou para o enfermeiro e seus olhos eram iguais aos do bandido que o baleou..estava tonto e talvez não soubesse o que via.
Foi jogado em um quarto escuro, e ouviu gemidos a sua volta a luz estava pouco a pouco ficando fraca, mesmo assim não podia distinguir as pessoas que gemiam ou as que se movimentavam. Ouviu um roçar de pano na cama do lado e mais gemidos não era gente morta, não era gente ferida eram duas pessoas fazendo sexo...
Mas como podia ser...?
- Onde estou? - Sua voz saiu fraca e rouca.
- Você não sabe? - E ouviu risos de escárnio.
Outra voz disse com ar irônico - Você está onde todos nós estamos - E mais risos de escárnio.
- Tentou se levantar e sentiu uma pontada, sentou na beira da maca e pisou no chão, uma dor lancinante tomou conta de seu corpo. Tocou no ponto onde tinha sido baleado e sentiu a pele se abrindo mas não escorria sangue.
O chão era frio e coberto com algo pegajoso e o ar era mau cheiroso...o casal da cama ao lado devia ter dito um orgasmo pois pararam naquele instante.
Tudo estava tão escuro esbarrou em alguém e pediu desculpas indo em direção a porta...
Saiu daquele aposento putrito e viu um corredor com paredes recobertas de azulejo no final do corredor estava escrito saída...nem titubeou foi naquela direção.
Entrou no aposento vermelho, paredes vermelhas um aposento vazio com janelas que davam para um jardim, mas nada se movia. Seu ferimento abriu mais e agora sentia algo se esvair dele olhou com nojo e medo, olhou em volta com terror e gritou para sair dali, mas ninguém vinha ao seu auxílio.
Voltou para o corredor mas não tinha mais corredor só portas e mais portas, e todas que abria davam para o aposento vermelho com móveis estranhos e janelas de jardins imóveis...olhou para o quadro da parede uma pintura caótica de uma galeria com paredes vermelhas e gente observando outros quadros, pessoas com o rosto contorcido e lágrimas nos olhos era um Van Helder.
Na dúvida:
- Você sabe do Eugênio? - Marcos jogou sua sacola na cadeira em frente a Clara.
- Como assim? -
- Ele foi ontem para fazer a matéria da galeria e até agora ninguém viu ele -
- Deve estar dormindo ou descansando. Ou se divertindo a nossas custas -
- Creio que não, até a ex- mulher ligou atrás dele -
- Bem ele deve estar em algum lugar . -
- Bem pensei que você soubesse ou talvez ele estivesse em sua casa. -
- Escuta aqui só por que me envolvi com ele não quer dizer que ele tenha acesso livre em minha casa entendeu ! -
Clara olhou para Marcos com um misto de raiva por lembrar que o Eugênio tinha ficado com a matéria dela e ressentimento por ter recebido um fora dele um mês antes.
- O chefe quer falar com você - Um jovem garoto botou a cabeça para dentro da porta da sala do arquivo.
Clara saiu da sala e seguiu em direção da porta que dizia:EDITOR CHEFE.
- Bem você Foi escalada novamente para a matéria da galeria. -
- Como assim ? Eugênio não entregou nada? -
- Nada e ainda ficou com suas fotos -
- Merda....- Ela soltou baixinho
- Tudo bem vou chamar o Marcos e você vai lá novamente . Quero sua matéria para a edição de amanhã, então trate de se apressar...-
- Posso perguntar uma coisa que está me tirando do sério? -
- Claro -
- Por que você escalou Eugênio para a matéria sabendo que ele detesta arte? -
- Van Helder insistiu que Eugênio fizesse a matéria. Parece que Eugênio já tinha escrito sobre Helder há alguns anos atrás então este fez questão de reencontrá-lo -
- Mas Helder não dá entrevistas...-
- Mas parece que Helder abriu uma exceção, pois ligou para agradecer -
- Por que será que Eugênio não me falou nada? -
- Não me pergunte por que nem mas nem menos...vá naquela galeria e me traga algo estamos mais do que atrasados.-
No final...
Uma hora depois Clara estava conversando animadamente com Vitello no salão vermelho da galeria...a estréia da exposição na noite passada havia sido um sucesso.
Clara olhou todos os quadros com atenção e fazia perguntas pertinentes enquanto Marcos tirava várias fotos dos quadros aproveitando a luz do ambiente.
- Este é novo não é? Ele não estava aqui quando vim da primeira vez-
- Você é muito observadora -
- Van Helder acabou este ontem, não é soberbo? O nome é: Críticas A Doce Vingança . -
- Sério? Que interessante . Só espero que esse rosto contorcido não seja uma resposta irônica a minha profissão -
- Ah não minha querida...ele fez esse pensando nos admiradores que sempre prestigiam as exposições apesar das críticas que recebe é um misto de opressão, descoberta e procura por uma nova vida, vê os órgãos internos caindo sobre as pernas o sangue escasso, o rosto sofrido pelo desespero, são alusões ao nosso cotidiano onde todos sempre tiram proveito de todos.
- Isso me parece muito dramático -
- Mas é a verdade não é?
- Sim atualmente ninguém pensa no próximo, principalmente os críticos, estes estão em primeiro lugar na lista dos insensíveis. -
- Você captou a essência vê aqueles rostos atrás de nosso personagem central um emaranhado de vozes um clamor social onde cada um deseja ter suas idéias independentes sem se influenciar por críticas e preconceitos.
Clara sorriu, realmente Vitello sabia vender a imagem de um quadro.
Ela olhou mais de perto: aquele rosto contorcido lhe fazia lembrar de alguém.
Fim