O DIA EM QUE VISITEI O INFERNO



Tudo aconteceu quando fui até o terminal tomar um ônibus para ir ao centro da cidade. Entrei normalmente no terminal, como estou acostumado a fazer, e notei que havia algumas pessoas diferentes, todas estavam na plataforma em que passavam os ônibus que iam para o caminho oposto ao meu. Num primeiro momento pensei que fosse algum grupo teatral, desses que andam pela rua levando entretenimento às pessoas que não têm condições de ir a um teatro, mas a maneira como se comportavam me fez esquecer essa idéia. Logo estranhei que todos que estavam daquele lado apresentavam características semelhantes, como: roupas claras, porém sem que eu pudesse distinguir cores; nenhum deles em momento algum olhou para traz, impedindo assim que eu pudesse ver os seus rostos; e a passividade que apresentavam, incomum nas cidades grandes. O que eu pensava a respeito do que pudessem ser era mera especulação, eles estavam longe de mim e minha visão não é tão boa assim. Tão curioso fiquei que me aproximei para melhor observa-los.

Chegando perto deles, percebi suas roupas estavam eram muito velhas e que algumas crianças choravam sem parar. O choro das crianças foi o motivo que arranjei para perguntar o que acontecia, a partir tudo mudaria naquele local.

Ao levar a mão para tocar numa das crianças, uma menina, antes mesmo de minha mão chegar até seu corpo, ela se virou. Para uma criança estranhei tamanha palidez, um rosto cinzento e triste muito parecido com o dos demais que olharam para mim em seguida.

Os adultos foram o motivo do meu medo. O primeiro que olhei diretamente no rosto apresentava além da palidez descomunal, um buraco no lado direito superior de seu crânio, não saía sangue e nem ele parecia estar sentindo dor. Fui reparando pessoa por pessoa daquele lado, alguns sem olhos, outros com as tripas para fora, vários com a garganta cortada, pessoas que pareciam estar apodrecendo, em muitos a face já não era identificável. Quando já me afastava daquelas pessoas notei que o estranho no ninho ali era eu, todos no terminal agora apresentavam essas características fúnebres. Vi-me cercado de pessoas que mais se pareciam com defuntos, alguns já acostumados e outros ainda apavorados de estarem num local como aquele. Quando meu medo se tornou evidente e tentei sair dali correndo, todo o terminal parecia estar cercado por chamas, era a imagem do inferno. Corri sem parar até a saída, o terminal agora parecia estar lotado, todos me olhavam como que tentando me prender ali. Antes de alcançar a saída tive ainda a oportunidade de tomar o ônibus até o centro, motivo que havia me levado até ali. O ônibus parou, abriu suas portas na minha frente, não sei qual motivo me fez recuar e não entrar no ônibus que seguiu seu caminho sem que me tivesse como passageiro. Ao avistar a saída, o amontoado de gente que tentava transpô-la me fez desistir de tentar sair pela via convencional, foi aí que mergulhei, como se aquilo fosse uma piscina, e consegui sair daquele terminal. Do lado de fora tudo parecia normal, nem as chamas existiam mais.

Quando saí do terminal, imediatamente pensei que aquele ônibus que deixei de tomar talvez fosse o veículo que levaria ao encontro de Lúcifer.

No dia seguinte, ao acordar, li a notícia no jornal de que o dia passado havia sido o mais quente do ano em Goiânia.



Moxé 1 1

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