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Pedras de "Cev�"



Sentado em uma lata de bolachas por sobre uma cadeira, para que pudesse alcan�ar a altura da mesa, degustava tranq�ilamente uma sopa rala de galinha. Eu adorava aquele tipo de comida, e principalmente de ficar "roendo" uma asinha de frango, acompanhada com miolo de p�o.

Minha m�e e a vizinha, divididas pelo arame farpado da cerca dos fundos, conversavam a respeito das situa��es do dia-a-dia.

Dona Adelaide, m�e do meu amigo In�cio, queixava-se da tristeza e amargura em que vivia, depois que apartou-se do marido.

-N�o perdeu grande coisa. O traste s� queria sombra e �gua fresca - indignou-se minha m�e.

O homem tinha at� uma profiss�o de destaque para aquela �poca, pois dominava como ningu�m, uma forquilha de pessegueiro na busca de vertentes. Fazendo os seus "bicos" como poceiro, poderia facilmente sustentar mulher e filho, n�o fosse a pregui�a t�-lo dominado. Sempre que o veio d'�gua minguava sob a terra escavada e era preciso cavoucar um pouco mais fundo para encontr�-lo, batia o des�nimo e o vagabundo abandonava o trabalho. Durante o tempo que conviveu com a mulher e o filho, trouxe pouco dinheiro para dentro de casa. Por isso, o resto do or�amento dom�stico era completado com a venda de broas caseiras que a esposa fazia e o menino vendia na vizinhan�a.

Al�m de pouco ajudar, o lar�pio seguidamente metia a m�o no esconderijo das economias e surrupiava alguns trocados, no intuito de embriagar-se em botecos da regi�o. Quando chegava �brio, quebrava as utilidades dom�sticas que encontrava pela frente e espantava a fam�lia de casa; isto quando n�o batia neles.

Meu amigo, por v�rias vezes, fez curativo no gabinete da escola, dizendo que havia se machucado em brincadeiras de rua. Aquilo era pura mentira, pois todos sabiam que ele apanhava do pai.

- Apartar-se foi a melhor solu��o, Adelaide. Agora voc� e o In�cio podem viver com um pouco mais de tranq�ilidade- consolava minha m�e.

A mulher at� cedia e conseguia se acalentar com os conselhos que escutava, mas o que fazer para que realmente ela esquecesse aquele homem imprest�vel? Ningu�m entendia, mas a dona Adelaide deixava transparecer, que apesar de tudo, ainda gostava muito do marido.

- Ruim com ele, pior sem ele...- esmiling�ia-se em prantos.

Nem as missas dominicais e tampouco os serm�es e salmos da b�blia lidos pelo padre, eram capazes de reverter aquele quadro de agonia, vivido pela mulher. O desconsolo foi tanto, que aos poucos ela afastou-se da igreja.

Umas cartomantes e sortistas vindas com um acampamento cigano que instalou-se provisoriamente na regi�o, acabaram por iludir de vez a boa senhora. Ela de tanto freq�entar aquele lugar e seguir os ensinamentos daquela gente, come�ou a mexer com sarav�. Inconsciente de estar sendo lograda, gastava boa parte da minguada economia, encomendando "trabalhos" que pudessem de alguma forma, trazer o seu marido de volta para casa.

Pela conversa que a minha av� contava, era dif�cil aquilo acontecer, pois parece que at� uma outra esposa, o sem-vergonha j� tinha arranjado. "Esposa" somente no modo de falar, pois segundo os fundamentos l� de casa, mulher leg�tima e que se prezasse, era aquela de "papel passado", a qual pendurava na parede da sala, emolduradas em quadros, as certid�es de casamento no civil e no religioso; s�mbolos incontest�veis de fidelidade conjugal. As outras, tidas como "mulheres de vida f�cil", serviam somente como amantes.

Minha av� orgulhava-se do luto que houvera utilizado durante um ano, logo ap�s a morte do marido. �s vezes ela tinha uma reca�da e at� para passear, utilizava-se da cor preta, por�m iniciar uma nova vida conjugal com outro companheiro... jamais.

Lembro-me de uma feita, ap�s a passagem de meu av�, em que um vendedor de cavalos, de nome Jo�o Linhares, apeou na porteira do s�tio e com a desculpa de pedir "pouso" para um descanso, foi posto para correr pela vi�va. A velha dominava como ningu�m, uma espingarda de dois canos e nem foi preciso puxar o gatilho, para espantar o tropeiro galanteador... bastou somente mirar o trabuco em sua dire��o. Nunca mais soube que ele tivesse "negociado animais" por aquela regi�o. Viuvez era algo sagrado para minha av�.

Se bem que o caso de dona Adelaide, comparado ao da minha av�, n�o era uma perda definitiva de marido, afinal de contas, ela estava simplesmente apartada e segundo a sua nova cren�a, atrav�s das "mandingas", era poss�vel traz�-lo de volta.

Todos os tipos de sarav� que a dona Adelaide fazia, eram curiosos. Eu observava, sempre que brincava com o amigo In�cio, em sua casa. �s vezes, era fotografia do marido dentro de pote de mel, bandejinha de morango com uma cueca dentro, sapato masculino amarrado com n� cego ao p� da cama... Enfim, eram v�rios; mas nada me chamava tanto a aten��o, do que um pequeno recipiente que ela guardava junto � porta do al�ap�o, que dava acesso ao s�t�o da casa. Era um pote pl�stico e sem tampa, desses que vem embalado margarina. Na verdade n�o era aquilo que me inspirava curiosidade, e sim o seu conte�do.

Nivelado mais ou menos at� o meio com uma esp�cie de limalha de ferro, sobras de l�mina de barbear quebradas e alguns bolet�es de a�o retirados de rolamentos, se acomodavam tr�s pedras pequenas, do tamanho mais ou menos, de um gr�o de feij�o. Tamanho este, quando vi pela primeira vez, pois ultimamente elas j� estavam maiores que gr�os de uva. N�s acompanh�vamos o crescimento daquilo, todas as vezes que sub�amos no forro da casa para brincar.

Cheguei at� a peg�-las em minhas pr�prias m�os, um dia quando retiramos dois daqueles bolet�es de a�o enferrujado, para jogar bolinha de gude. O In�cio estranhamente, nunca gostou daquelas pedras. Queria at� atir�-las com estilingue, mas contrariado por mim, desistiu na �ltima hora.

As "preciosidades" de dona Adelaide cresciam a olhos vistos, devido "comerem" aquele material met�lico. Parece que tinham at� nome individual; n�s nunca escutamos ela falar em voz alta, s� sab�amos que as tr�s juntas eram chamadas de pedras de "cev�".

"Cev�", para quem n�o sabe, � uma palavra abreviada, utilizada pelas pessoas de pouca cultura. Na verdade a pron�ncia correta � "cevar". Em rela��o �s pedras, este termo significava que elas necessitavam receber cuidados especiais, ou como diziam os mais antigos, elas precisavam ser "cevadas".

Aquilo "bebia" at� �gua e n�o precisou ningu�m me contar... Eu sabia porque certa vez, balan�ando-me dependurado em uma viga de sustenta��o do telhado, vi com meus pr�prios olhos, a mulher despejar uma caneca com �gua, dentro daquele potinho. Sa�a at� borbulha; parecia que as pedrinhas tinham at� "boca".

Meu amigo escutou falar, que os amuletos foram negociados com uma cigana. Parece que custaram uma saca de batata e dois balaios de milho verde em espiga... Mercadoria cara, por�m tinha a sua utilidade.

Segundo o que sab�amos, aquelas pedras ap�s serem "batizadas", tinham o poder de satisfazer o desejo de quem as possu�sse. Tinha gente da regi�o que andava com elas no bolso, por terem sido "batizadas" para atrair dinheiro, outras carregavam na aba do chap�u, para obter sabedoria. No caso de dona Adelaide, as pedras tiveram o "batismo" feito de forma que trouxesse o marido de volta para casa. Esta era a sua vontade.

Senti um semblante melanc�lico no amigo In�cio, quando ele soube das inten��es da m�e. At�nito e com um olhar distante, parecia remoer um pouco do passado.

A lembran�a das surras que levava e os verg�es avermelhados que carregava na pele, fizeram despencar do seu rosto, algumas l�grimas que ele rapidamente enxugou na manga da blusa, juntamente com o ranho que escorria do seu nariz.

Nunca tive um amigo igual �quele. Sempre quieto, por�m disposto a ajudar a quem dele precisasse.

Queria ser jogador de futebol e jogar no time do Brasil. Tinha um sonho de andar em cima do caminh�o de bombeiros com a sirene ligada, quando fosse campe�o em uma Copa do Mundo; gostaria ent�o, de ser aclamado por todos os moradores do seu bairro, como o her�i que marcara o gol do campeonato.

Ele chegava a carregar no bolso da camisa, juntamente com as figurinhas de jogador de futebol, uma capa dobrada e encardida, rasgada de um caderno escolar, em que nela vinha impresso a letra do Hino Nacional Brasileiro. Sempre que tinha um tempo, tentava ler aquele peda�o de papel amassado, na tentativa de decorar, por�m em v�o; ele freq�entava o primeiro ano prim�rio na mesma classe que eu, e o aprendizado ainda era insuficiente para tal proeza.

Coitado, ele nunca queixava-se de nada. O seu corpo era franzino, mas acho que internamente era enorme, pois s� assim para caber tanta bondade misturada com amargura dentro de uma s� pessoa. Resistia porque era um menino �timo e jamais trouxe um desgosto sequer para a sua m�e. Ele comia broa recheada com banha e sal e no recreio da escola, cansou de repartir comigo a merenda que levava.

O �nico ressentimento grande que carregava em seu cora��o, era em rela��o �s maldades praticadas pelo pai.

Lembro-me daquele fat�dico dia, como se fosse hoje. T�nhamos acabado de recolher algumas torinhas de lenha, no intuito de auxiliar a dona Adelaide. Ela, com a mesa posta, aguardava-nos para um lanche simples com alguns peda�os de batata-doce, assados na chapa quente do fog�o � lenha.

- In�cio, beba seu caf� e ponha uma roupa limpa, que seu pai vem para visit�-lo. Depois coloque um pouco de �gua, no potinho onde tem as pedrinhas da sorte - ordenou contente a sua m�e.

O homem havia se aproximado novamente. Aquela j� era a terceira ou quarta visita depois da separa��o. Em todas as anteriores, nenhuma foi com inten��o de ver o filho, j� que sempre que chegava, n�s �ramos obrigados a sair. Dona Adelaide vasculhava o bolso do avental na cata de algumas moedinhas e nos presenteava para que compr�ssemos algumas balas de goma, na banca de guloseimas. Durante aquelas "visitas", o casal passava a tarde inteira, trancafiado no quarto da pequena casa.

Parece que os amuletos, segundo ela, estavam dando resultado. Eu particularmente duvidava que poderia ser as pedras de "cev�", as respons�veis pela reaproxima��o daquele homem ruim. O In�cio j� acreditava, e sempre que era ordenado � "alimentar ou dar de beber" aquelas coisinhas, fazia a contra gosto.

Fui embora mais cedo. N�o quis aguardar pela chegada daquele infeliz. Ele era malvado mesmo quando chegava "s�brio"; b�bado ent�o... Nem pensar. O In�cio ficou emburrado, cumprindo sua obriga��o para com as pedrinhas de sua m�e.

Era noite e eu j� tinha at� deitado, quando escutei o estalar de batidas de palma no port�o de casa. A vizinha e o marido, ambos preocupados, procuravam pelo filho. Parece que o menino, estava sumido desde a metade daquela tarde.

-N�o o vi, dona Adelaide. Quando fui embora, ele cumpria os servi�os determinados pela senhora.

O desespero tomou conta de todos, j� que o pi� nunca havia feito algo parecido. Procuramos durante a noite toda e nem not�cias sequer.

O pior ainda estava por vir, pois j� de manh�zinha, a not�cia trazida por um capataz de um s�tio vizinho, dizia que o menino estava afogado, boiando em um tanque de peixes, ali pr�ximo.

O amigo, vestido com a roupinha de passeio, colocada para aguardar a visita de seu pai no dia anterior e todo inchado pela �gua que engoliu, encontrava-se j� na barranca do tanque.

O corpo de bombeiros, afastava os curiosos que queriam a todo custo, presenciar aquela fatalidade.

Segundo o tenente que atendeu aquele desastre, foram encontradas, fechadas em uma de suas m�os, tr�s pedrinhas esquisitas... As mesmas, retiradas entre meio os dedos enrijecidos, foram jogadas novamente para dentro do lago.

Esquisitas somente para o bombeiro e para aquele bando de gente que se aglomerava ao redor, por�m facilmente identificadas por mim: eram as pedras de "cev�" de propriedade de sua m�e. As mesmas que realizaram o t�o sonhado desejo de dona Adelaide; e quem sabe at�, por ironia do destino, vieram tamb�m a realizar o sonho do menino, que era de ficar longe do pai... Mesmo que de uma forma t�o tr�gica.

Acho que a id�ia de conviver novamente com uma pessoa que o espancava e n�o dedicava-lhe a menor aten��o, fez o pi� tomar aquela triste decis�o de suic�dio.

O caminh�o vermelho com a sirene ligada, abria caminho entre a multid�o. Um soldado, comovido com a situa��o, jogou por sobre o pequeno corpo embrulhado em pano branco, uma bandeira do Brasil.

Mesmo n�o sendo ele um her�i de final de campeonato como sonhou um dia, foi aclamado pela vizinhan�a inteira; que inconscientes at�, vieram por satisfazer a outra vontade que o menino tinha.

As pedras de "cev�" que a dona Adelaide "cultivou" com tanto carinho, parece que trouxeram o seu marido de volta para casa...

... Mas, levaram para sempre, o meu amigo In�cio.

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