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Imagine-se passando por uma terapia de vidas passadas e descobrindo que foi a �nica mulher letrada do har�m do Rei Salom�o, encarregada de escrever a hist�ria do povo judeu.






� Luz da Lua

Miranda batia as asas avidamente, t�o r�pido que nem poderia ver cada uma das quatro - se o quisesse. Mais not�vel que a velocidade, entretanto, era a precis�o dos movimentos que os dois pares executavam, t�o bem treinados como bailarinas em perfeita harmonia. N�o que ela se concentrasse no v�o, pelo contr�rio: seus pensamentos vagavam pela riqueza de detalhes do mundo exterior, mais fant�stico que qualquer sonho que tivera a seu respeito. Sentira desde pequena as conversas sobre o lado de fora, com os seus perigos e encantos. Toda a sua riqueza, por�m, era indescrit�vel para o restrito vocabul�rio da sua fam�lia.

Voava com calma, observando pacientemente cada �rvore, cada rocha, cada ranhura ou fenda no ch�o. Logo encontraria um local que servisse ao seu prop�sito.

Subia e descia, virava para os lados, acelerava e parava no ar de maneira t�o autom�tica e controlada que fazia parecer que tivera anos de treinamento.

Contudo, esse era o seu primeiro v�o. E era tamb�m o momento mais excitante da sua vida. Sabia, desde o segundo nascimento, que faria algo de importante.

Sempre fora tratada de maneira diferente de suas irm�s, como se tivesse mesmo mais valor, e tamb�m mais responsabilidade. E tinha asas tamb�m. Ela e suas irm�s aladas eram realmente diferentes, tinham ainda um importante futuro pela frente, era o que sua m�e lhes dizia. Suas outras irm�s, as sem asas, trabalhavam nas atividades dom�sticas desde cedo. Cada uma delas passava um bom tempo cuidando da alimenta��o dos beb�s e movendo-os de um lugar para outro do ninho, de acordo com a umidade ou com doen�as que porventura come�assem a se espalhar. Tinham o mesmo cuidado, maior at�, com mam�e. Depois dessa fase aprendiam a cuidar do pr�prio ninho: jogavam o lixo para fora, refor�avam as paredes, abriam t�neis e reparavam os danos causados pelos desabamentos. E quantos desabamentos! Havia de escolher um local mais tranq�ilo. Certa vez o ninho inteiro ficou soterrado, e todas as suas irm�s se dispuseram a reform�-lo. At� ela e sua m�e trabalharam na reforma. N�o perdeu muitas irm�s - talvez nem mesmo uma, quem poderia saber? - e todos os ovos e beb�s foram encontrados, mas o trabalho excessivo atrasou bastante a produ��o. J� as irm�s mais velhas trabalhavam fora de casa, iam e voltavam todos os dias para buscar comida. E sempre traziam hist�rias sobre os acontecimentos do lado de fora. Falavam sobre o dia e a noite, sobre as chuvas, o tamanho do mundo, inconcebivelmente maior que a sua casa, sobre os terr�veis inimigos que as matavam �s centenas e sobre todo o tipo de plantas e animais que avistavam.

Mas nada se comparava � vis�o que tinha agora desse mesmo mundo. Era t�o vasto e complexo que jamais poderia ser expresso por palavras. E ela sempre sonhara com esse dia, quando finalmente sairia e cumpriria seu papel. As aladas sempre sa�am, nunca voltavam. Tamb�m ela n�o voltaria mais, mas n�o sentia saudades de ningu�m. Sequer conhecia esse conceito.

Logo que bateu as asas pela primeira vez sentiu algo que jamais sentira: uma necessidade incontrol�vel de encontrar um hapl�ide. Havia visto v�rios deles em seu pr�prio ninho, mas nunca imaginou que sentiria algo assim por eles. Na verdade, sempre fora indiferente a eles. Indiferente, n�o. Achava-os arrogantes. Nasceram dos ovos postos pela sua pr�pria m�e, assim como suas irm�s, mas n�o tinham o m�nimo de, digamos, interesse pela fam�lia. Nem trabalhavam pela casa nem se relacionavam com ela ou suas irm�s. N�o tinha, � l�gico, nenhuma intimidade com eles. Por que teria? Aos hapl�ides tinha ainda menos afei��o que � sua m�e. Nem se comparariam, portanto, �s suas irm�s, a quem amava. E bastou levantar v�o para que uma id�ia que lhe parecera t�o s�lida de repente virasse do avesso. N�o apenas precisava encontrar um hapl�ide como tinha grande urg�ncia em faz�-lo. Para sua sorte avistou outro bando em v�o e se dirigiu a ele. Qual n�o foi sua satisfa��o ao ver tantos deles reunidos. Poderia at� escolher! Juntou-se logo com o que lhe parecera mais interessante. Jamais imaginou que pudesse se entreter tanto com um hapl�ide e por tanto tempo! Justo a classe mais desinteressante de sua comunidade. A vida � mesmo imprevis�vel, pensou Miranda.

Seus m�sculos alares j� come�avam a doer e estava escurecendo. Precisava encontrar um lugar onde pousar, e r�pido. Avistou, finalmente, uma �rvore promissora. Seu tronco era espesso e a copa, alta. Pousou pr�xima � sua base, s� para levantar v�o em seguida. N�o tinha avistado, mas descera ao lado da entrada de um ninho inimigo. Sentiu de imediato o cheiro amea�ador das moradoras que, pela velocidade com que sa�ram � porta, tamb�m perceberam o seu odor. Continuou voando junto ao ch�o, atenta a todos os detalhes. Mais adiante encontrou outro local que, pelo menos � primeira vista, parecia adequado. Voou em c�rculos por alguns instantes at� estar certa da vizinhan�a. Tudo parecia normal. Desceu e come�ou a caminhar, verificando a consist�ncia do solo em cada ponto. Sentiu suas asas se desprenderem de suas costas enquanto caminhava e continuou andando, agora com mais agilidade. Quando encontrou o local ideal, p�s-se a cavar, numa tarefa mon�tona que consistia em pegar pequenos gr�os de terra com as enormes (e desajeitadas) mand�bulas, e lev�-los at� uma certa dist�ncia. Cada gr�o era levado para longe do buraco em uma dire��o aleat�ria, de modo que, ap�s um certo tempo, havia uma barricada circular em torno da entrada do t�nel, que Miranda precisava escalar para jogar os pr�ximos gr�os l� de cima para fora do c�rculo. Gr�o por gr�o, durante horas ininterruptas, ela cavou um t�nel vertical e, no final deste, uma c�mara onde se abrigaria temporariamente, com sua primeira gera��o de filhas. O t�nel mal permitia a passagem do seu corpo, mas seria suficiente para que v�rias das primeiras descendentes passassem lado a lado.

Ao levar para fora as �ltimas pedrinhas, Miranda observou atentamente, pela primeira vez em sua vida, a lua. Ofegava, e, enquanto descansava, observou como aquele disco prateado iluminava, sozinho, toda a noite. Foi ent�o que tomou consci�ncia de que, certamente, seria a �ltima vez em que observaria o mundo exterior. Mesmo a p�lida luz da noite n�o voltaria a ver. Retornaria ao mundo escuro onde crescera, cercada por aromas e alguns sons, mas sem imagens. N�o mais veria �rvores, ou nuvens, nem o Sol ou a Lua. Certamente se esqueceria das formas das coisas, se esqueceria da pr�pria vis�o e se tornaria cega como sua m�e j� devia ser �quela idade, se emocionando com as aventuras das suas irm�s mais velhas. Olhou uma �ltima vez ao seu redor. Despedia-se j� com certa melancolia do mundo que acabara de conhecer, e que admiraria para sempre.

Gostaria de conhec�-lo melhor, mas nunca poderia. Como algu�m poderia explorar um mundo desconhecido, sozinha? Certamente ningu�m, em todo o mundo, poderia faz�-lo. Suas irm�s o exploravam em conjunto, e se algumas morressem n�o fariam falta � casa, pois seriam repostas de imediato - e isso sempre acontecia. Mas ela era uma pessoa importante, se fosse devorada por um inimigo ningu�m poderia substitu�-la. Tivera sorte de ter sobrevivido at� agora a um mundo t�o hostil, e resolveu entrar logo enquanto a sorte ainda estava a seu favor.

Desceu at� sua c�mara e selou o t�nel que lhe dera passagem. Acostumou-se rapidamente com a total escurid�o, na medida em que botava os primeiros ovos.

Depois de postos, bastava esperar e descansar. A viagem, mais o trabalho de escava��o, haviam-na deixado exausta. E ainda perdera suas asas. Pelo menos os volumosos m�sculos que moviam as asas outrora vigorosas teriam uma fun��o: permitiriam que ela e os primeiros beb�s sobrevivessem, sem que ela precisasse buscar alimentos.

Nos primeiros dias ela s� precisou descansar e esperar que dos ovos nascessem os beb�s. Percebeu, ap�s alguns dias, que j� n�o se lembrava muito bem da forma das �rvores. Lembrava-se de que eram altas, mas eram mais largas na parte de cima ou na de baixo? N�o sabia mais dizer. Talvez nunca tivesse mesmo sabido. A imagem da lua, entretanto, n�o esquecera. Tinha ficado impressionada com aquela luz suave, e ao mesmo tempo t�o forte, que iluminava todo o mundo. Com o tempo, ao contr�rio do previsto, a imagem da lua continuou n�tida em sua mem�ria, como o sabor da umidade em seu ninho.

O tempo passou, at� que um dia os primeiros beb�s nasceram. Sa�ram dos ovos com grande esfor�o, cortando uma parte da casca com as pequenas mand�bulas e se contorcendo at� se verem livres de uma membrana pegajosa. Alguns precisaram da ajuda de Miranda para romper a casca, tarefa que ela desempenhou com o maior prazer. Sentia como se eles fossem n�o outras pessoas, mas parte de seu pr�prio corpo, apesar de n�o estarem ligados a ela. Eram a parte que faria as tarefas dom�sticas, enquanto ela era a parte que botaria os ovos. Engra�ado, lembrava-se de ter alimentado sua m�e algumas vezes, mas nunca se sentira como parte do corpo dela. Nunca se sentira como uma das partes de um mesmo indiv�duo. Agora, por�m, essa sensa��o era clara, os beb�s eram uma parte dela que, naturalmente, trabalhariam para ela, assim como antes suas asas o fizeram.

Famintos que estavam os beb�s, Miranda logo botou mais ovos para aliment�-los.

�s vezes ela conseguia tirar alguma coisa da boca que servia de alimento aos beb�s. Era impressionante. Afinal, n�o tinha colocado comida ali j� fazia dias! Se bem que os m�sculos das asas j� n�o eram mais t�o salientes quanto no in�cio - e era certamente dali que vinha aquele alimento - e logo se acabariam.

Quando isso acontecesse, as filhas j� precisariam estar prontas. Mas geralmente o que fazia era p�r ovos n�o fecundados que elas devoravam em instantes, tamanho o seu apetite.

Certo dia ela tinha um ovo relativamente grande e dois beb�s se contorcendo por comida. Ao inv�s de botar outro ovo pensou em cortar ao meio o que segurava entre as mand�bulas. Qual n�o foi sua surpresa ao perceber que n�o podia realizar tal feito. As mand�bulas simplesmente n�o se fechavam, por mais que lhes ordenasse. Descobriu depois que elas sempre reagiam assim quando seguravam ovos, mesmo que n�o f�rteis. Era como se tivessem vontade pr�pria - o que refor�ava sua teoria sobre as filhas serem como partes de seu corpo, assim como as asas e as mand�bulas, e agirem pelo pr�prio instinto. Qualquer outra coisa poderia ser cortada, mesmo um beb�. Certa vez partiu um deles ao meio para alimentar outros dois, maiores. At� o dia de sua morte, ainda distante, Miranda refletiria sobre esse mist�rio. Por que as coisas s�o assim? Precisa existir uma explica��o. Seriam os ovos de alguma import�ncia que ela desconhecia? Mas se os beb�s os destru�am, por que ela n�o tinha o direito?

�s vezes tamb�m ela permitia que os beb�s maiores devorassem os menores, que certamente n�o teriam muita utilidade com aquele tamanho. Era mais ou menos um problema administrativo. Ela precisava calcular o tempo em que ainda teria energia para alimentar as crian�as e o tempo em que elas nasceriam pela segunda vez, prontas a come�ar o trabalho. Tamb�m precisava saber quantas filhas seriam necess�rias para as tarefas iniciais, que consistiam principalmente em buscar comida para aliment�-la e aos novos beb�s. Se o n�mero de crian�as excedesse o necess�rio, poderia permitir uma luta, favorecendo as mais h�beis e dando-lhes ainda mais energia, antecipando o momento do segundo nascimento. Esse era o momento mais cr�tico, mais dif�cil da vida de qualquer m�e. Depois que a produ��o se iniciasse tudo ficaria mais f�cil. Bastaria ent�o botar v�rios ovos e deixar que as filhas cuidassem deles. Dali a algum tempo ela sequer precisaria andar dentro do ninho, as pr�prias filhas cavariam novas c�maras e a levariam para onde fosse preciso.

E assim aconteceu. Os beb�s entraram no segundo ovo, nasceram novamente, e j� se dispuseram a trabalhar. Abriram um novo t�nel para o mundo exterior e trouxeram comida. O brilho do dia ofuscou por um instante os olhos de todos, mas Miranda n�o sentiu saudade do lado de fora. Sequer conhecia esse conceito.

Apenas observou a forma de suas filhas, dos beb�s e dos ovos. Como eram pequenos! Teria ela parecido t�o pequena para sua m�e? Na medida em que as filhas traziam mais comida e ela botava mais ovos, e mais filhas nasciam, era necess�ria a constru��o de novas galerias e novos t�neis. Suas filhas cuidavam de todo o servi�o e sempre a levavam para a galeria mais profunda do ninho, onde botava seus ovos, despreocupada com os desabamentos - que aconteciam com muito mais freq��ncia na superf�cie. A galeria em que estava agora era j� t�o profunda que nenhum raio de luz a alcan�ava. S� n�o perdeu a no��o de dia e noite por causa das mudan�as de umidade, que, embora sutis, ainda eram percept�veis. Agora j� n�o se lembrava mais de imagem nenhuma, salvo a Lua, redonda e brilhante a iluminar toda a noite. Na verdade, lembrava-se tamb�m dos seus ovos. Logo que os viu, no dia em que suas primeiras filhas reabriram o t�nel at� o lado exterior, reparou como pareciam pequenas luas, das quais todo o seu mundo dependia. Talvez eles tivessem mesmo aquela forma por representar algo t�o brilhante, t�o essencial que nem mesmo quem os criou poderia destruir.

Rodrigo Loyola
Belo Horizonte, 21-22/jul/2000

P�s escrito:

Algumas formigas, ap�s o acasalamento, cavam um buraco onde ficar�o pelo resto de suas vidas. Os m�sculos que moviam suas asas, agora perdidas, s�o consumidos e transformados em energia para o metabolismo da pr�pria formiga e para o crescimento de suas primeiras descendentes, que iniciar�o o trabalho de forrageamento, saindo do ninho e retornando com alimento. Muito provavelmente nada disso passa pela cabe�a de nenhuma delas, mas quem pode ter certeza?





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