RECORTES DA REALIDADE
L�o Saballa
Um violento estrondo arrancou-me literalmente da cama naquela manh� de domingo. Sem saber ao certo o que estava acontecendo e com o c�rebro ainda desconcertado pela interrup��o do sono profundo, imaginei algumas trag�dias: bomba at�mica, queda de avi�o, atentado terrorista, terremoto, derrame, infarto, entre outras ocorr�ncias menos poss�veis. Alguns segundos depois outro rel�mpago iluminou o quarto. O barulho do vento arremessando a chuva na vidra�a n�o deixou a menor d�vida que o mundo estava para se acabar em um novo dil�vio, desta vez acompanhado de ventos e raios.
O r�dio-rel�gio enlouquecido com a descarga el�trica piscava sinais luminosos incompreens�veis. No velho rel�gio de pulso, em cima da escrivaninha, forcei a vista e descobri pela posi��o dos ponteiros que j� eram oito e meia, embora a rua permanecesse na escurid�o da madrugada. Puxei alguns cent�metros da cortina e mesmo sem �culos olhei para fora, esfregando com a manga do pijama o vidro emba�ado. Se a minha av� fosse viva diria "� chuva que Deus manda".
Desde crian�a fico tenso quando desaba algum temporal, principalmente acompanhado de raios. Penso sempre que vou ser atingido por um. Quanto mais tento ficar calmo, mais me aproximo do p�nico. No fundo, acho que vou morrer no meio de um temporal, queimado por um raio. Os mais idosos costumam dizer que a pessoa atingida por raio deve ser rapidamente enterrada apenas com a cabe�a para fora. Acreditam que a terra absorve a energia acumulada no corpo do infeliz, evitando que ele morra. N�o sei porque, mas sempre que vejo um temporal no horizonte imagino meu corpo semicarbonizado, todo sujo de lama, dando choque nas minhocas.
O corpo ressacado pedia mais cama, um sal de frutas e dois analg�sicos. Havia dormido apenas quatro horas naquela noite. Jurei que nunca mais sairia com o Ademar para beber cerveja. Ele s� p�ra depois de estar completamente b�bado. Sinceramente, gostaria de dormir o dia inteiro. Mas, o medo que tinha ra�zes infantis mantinha meus olhos bem abertos, a garganta seca e os sentidos ligados. Se fosse s� a chuva e o vento, tudo bem. O problema era a porra do raio que me deixava apavorado cada vez que irrompia um clar�o, seguido de um estalo tenebroso. Sa� da cama com muito esfor�o, acendi a luz do quarto e cobri o imenso espelho com um len�ol. Ouvi falar que o a�o do espelho atrai o raio. Seria apenas mais uma supersti��o dessa gente que acredita em tudo o que � bobagem? Na d�vida, tratei de me proteger, nem que fosse apenas no aspecto psicol�gico.
De repente, uma fa�sca produziu um som ensurdecedor e quase fez o meu cora��o parar. A luz apagou e o vento uivava na janela zombando do meu medo. O intervalo entre um raio e outro estava cada vez menor. Puxei o len�ol sobre a cabe�a para n�o ver os clar�es e soltei a voz cantando o Parab�ns pra voc�, �nica letra de m�sica que eu conseguia lembrar naquele momento. Permaneci cerca de 20 minutos nesta situa��o rid�cula. Sorte minha, pensei, moro sozinho e ningu�m vai ficar sabendo desse vexame, a n�o ser que eu mesmo revele essa fraqueza.
Quando ergui a cabe�a para fora do len�ol senti um grande al�vio. N�o havia mais chuva nem vento, muito menos a porra do raio. Ao contr�rio do tempo tenebroso que mexeu com os meus medos mais escondidos, em poucos minutos o dia estava lindo e ensolarado. O espelho coberto por um len�ol era o �nico tra�o da tempestade pavorosa. O corpo e a cabe�a ainda do�am. Mas, o importante � que eu sobrevivera. Sentia-me um soldado voltando da guerra, renascido e disposto a curtir o domingo. N�o foi dessa vez, pensei aliviado, que as for�as da natureza levariam a minha alma para as profundezas do inferno nem o meu corpo para uma cova lamacenta perto das minhocas.
A princ�pio, achei engra�ado o jornal, cheio de s�mbolos, caracteres estranhos, letras que eu n�o conseguia decifrar, que n�o formavam palavras, embora as fotos fossem de boa qualidade. Pensei em uma edi��o especial do jornal, destas lan�adas para causar pol�mica e ati�ar a curiosidade dos leitores. As jogadas de marketing s�o cada vez mais ousadas. Sabe-se l� o que o jornal esperava com aquilo. Na verdade, para mim, parecia um jornal chin�s. No entanto, a logomarca, a diagrama��o, os an�ncios e as pessoas fotografadas eram todas conhecidas. Era o jornal que eu lia todos os dias. A grande diferen�a � que eu n�o entendia nada do que estava escrito nele. Nenhuma letra ou n�mero reconhec�vel. Poderia ser problema de impress�o, loucura do computador, sei l�!
Como fa�o todos os dias, liguei o r�dio para ouvir as not�cias durante o banho. N�o consegui entender nada do que o locutor falava, embora a voz fosse familiar. Desliguei o chuveiro, aumentei o volume do r�dio, mas mesmo assim ele continuava falando uma l�ngua desconhecida. Mudei de esta��o e as m�sicas pareciam vers�es em outro idioma. Quer dizer, o aparelho era o mesmo, a melodia a mesma, o arranjo o mesmo, o cantor e a cantora os mesmos, s� a pron�ncia era diferente.
O Raul Seixas cantava Eu nasci h� 10 mil anos atr�s. N�o havia nenhuma d�vida que a voz era do Raul. S� que parecia uma vers�o hebraica. Nada a ver com a l�ngua portuguesa, nem se parecia com qualquer outra que eu j� tivesse ouvido. Depois veio a voz inconfund�vel da Maria Beth�nia interpretando Emo��es numa entona��o que se aproximava da pron�ncia francesa, mas n�o era. O som gutural agredia os ouvidos. At� os comerciais estavam sendo anunciados de maneira estranha. N�o conseguia compreender nenhuma palavra. Num primeiro momento pensei que o raio tivesse alterado a freq��ncia do r�dio para ondas curtas captando transmiss�o em japon�s, chin�s, russo, basco ou outro idioma mais complicado. Tamb�m n�o descartei a possibilidade dos meus ouvidos serem v�timas de algum dist�rbio raro produzindo uma esp�cie de misturador de vozes, igual ao que � instalado nos telefones para evitar espionagem.
Quando cheguei � rua, ainda atordoado pela situa��o confusa, tive a certeza de que alguma coisa terr�vel estava acontecendo comigo. Se havia esperan�a de uma explica��o l�gica para aquelas letras no jornal e o som estranho transmitido pelo r�dio, agora n�o restava mais nenhuma d�vida. Eu estava completamente possu�do pela loucura ou o mundo inteiro conspirava contra mim como se fosse uma pegadinha destes programas dominicais de televis�o. Disfar�adamente procurei alguma c�mera escondida. Se houvesse, estaria muito bem camuflada. Bobagem, quem se importaria em montar toda essa produ��o apenas para fazer de bobo algu�m insignificante como eu?
A padaria em frente ao pr�dio onde diariamente compro p�o nos �ltimos 20 anos, estava l�, como sempre esteve. A mesma fachada, a mesma cor, os mesmos funcion�rios, o mesmo aroma de p�o. S� que o nome n�o era mais "Oriente". A placa, a mesma de sempre, agora servia de suporte para alguns s�mbolos indecifr�veis. A tabela anunciando os pre�os dos p�es permanecia no mesmo lugar, mas muito distante da minha compreens�o. N�o havia n�meros. Apenas desenhos e caracteres confusos, iguais aos que estavam no jornal parecendo minhocas enroladas em diversos formatos e tamanhos. Observei tamb�m alguns tra�os que lembravam min�sculos pentes com dezenas de dentes.
Bastou uma r�pida olhada nas placas penduradas nas marquises das lojas para constatar que quase nada fazia sentido. N�o conseguia identificar nenhuma letra ou n�mero em exposi��o. O outdoor de um refrigerante mostrava-se inconfund�vel pela garrafa, logomarca, personagens e imagens que eu j� havia assistido repetidas vezes na televis�o. Apenas os n�meros e as letras estavam alterados. No seu lugar minhocas enroladas e pentes de todos os tamanhos. As placas dos autom�veis tamb�m estavam repletas de minhoquinhas e pentes que lembravam confusos c�digos de barras.
Na banca de jornais, identifiquei publica��es conhecidas como a Veja, Caras, �poca, Isto �, entre outras revistas de circula��o nacional. Na capa, rostos de personagens da vida brasileira: o presidente Fernando Henrique, a atriz Vera Fischer, o piloto Rubinho Barrichello, todos famosos. Mas n�o conseguia entender os textos, nem o significado daquele amontoado de s�mbolos. O mesmo ocorria com os jornais Folha de S�o Paulo, O Globo, Estad�o e Jornal do Brasil. Todos eram familiares para mim, mas pareciam editados em chin�s. Nenhuma frase, nenhum t�tulo, nenhuma letra, nenhum n�mero. Nada que eu pudesse identificar para acabar com o meu desespero. Engra�ado, mas as imagens estavam corretas.
Abordei ansioso o vendedor e ouvi apenas sons incompreens�veis. Quanto mais eu tentava me comunicar, mais ele demonstrava impaci�ncia. Atrav�s de gestos, dizia que n�o entendia nada do que eu falava. Diante da minha insist�ncia, o homem chegou a ser r�spido e mandou-me embora. N�o entendi o que ele disse, mas as suas m�os deixaram claro que eu deveria me arrancar urgentemente daquele local antes que ele resolvesse tomar uma provid�ncia mais en�rgica. As pessoas, alheias ao meu drama, levavam a sua vidinha normalmente.
N�o havia nada de diferente na fisionomia nem no comportamento delas. A �nica coisa que eu n�o entendia era o modo como essa gente se comunicava. Isso � que me deixava intrigado. Muitos sentados nos bancos da pra�a liam atentamente aqueles jornais truncados. N�o sei como conseguiam. Outros iam para o trabalho, alguns procuravam trabalho, mas a maioria queria mesmo n�o fazer nada nesta manh� pregui�osa de domingo.
Eu estava no meu pa�s, no meu bairro, na rua onde moro e me sentia como um estrangeiro, sem qualquer condi��o de me comunicar. Ningu�m mais me conhecia. Passei a minha vida inteira nessa merda de bairro e agora sou tratado como um cachorro vira-lata. Voltei � padaria e pedi um pacote de leite e dois p�es. A balconista, pessoa muito gentil, que todos os dias me atendia, olhou como se nunca tivesse me visto e com ar de curiosidade e desconfian�a rosnou alguma coisa que mais parecia o som de uma fita reproduzida detr�s para frente. Novamente a tentativa de me comunicar n�o deu resultado. Alguns funcion�rios da padaria fizeram um pequeno grupo para me observar.
Senti-me um animal raro no zool�gico. Notei que riam do meu modo de falar. Apontavam para o ouvido e abriam os bra�os como se quisessem dizer que n�o estavam entendendo absolutamente nada. Mas deixavam claro que o meu sistema de comunica��o era muito engra�ado. Riam muito de mim. Havia me tornado o bobo da corte.
Observei a conversa��o de algumas pessoas e n�o consegui capturar nenhuma palavra. Pelo tom, sabia quando estavam discutindo ou sendo gentis. Um motorista xingou o outro com um grunhido animalesco. Deveria ser um palavr�o, mas nunca tinha ouvido nada parecido. O meu c�rebro n�o conseguia processar nenhuma palavra.
Abordei um policial para tentar explicar o que estava acontecendo e por muito pouco ele n�o me prendeu. Certamente pensou que eu estava fazendo alguma goza��o. Com o dedo em riste advertiu-me com bastante irrita��o, embora eu nada entendesse. Depois pousou a m�o de maneira amea�adora sobre o rev�lver que estava na sua cintura, como a dizer: se voc� continuar com essa palha�ada eu te mato!
Voltei � padaria, apontei para o p�o e mostrei dois dedos. O mesmo processo usei para comprar o leite. Na hora de pagar, mais uma surpresa: o meu dinheiro estava diferente. Quer dizer, era a nossa moeda brasileira, o Real. Mas... ao mesmo tempo n�o era. Mais ou menos assim: a nota de um real era da mesma cor e do mesmo tamanho. A qualidade do papel e a impress�o se mantinham. A figura do beija-flor era igual. O poder de compra o mesmo. A diferen�a estava nas letras e nos n�meros. Tudo fora substitu�do pelas minhocas e pentes. Conferi outras notas de outros valores e todas estavam alteradas. N�meros e letras desapareceram da minha carteira de identidade. Apenas a foto permaneceu a mesma. Os meus cart�es de cr�dito tamb�m estavam modificados.
Manuseei o meu tal�o de cheque e assim como o dinheiro ele tamb�m estava cheio de minhocas e pentes. Deduzi que poderia ser preso se tentasse preencher algum cheque utilizando a minha letra, como fiz a minha vida inteira. Certamente ningu�m iria entender os meus garranchos, muito menos a minha assinatura. Nem eu estava entendendo mais nada. Afinal, o que estaria acontecendo? Teria morrido? Seria isso uma rea��o da morte? Alucina��o de uma droga poderosa? Algu�m me hipnotizou sem que eu percebesse? Acidente cerebral? Efeito da cerveja? Pesadelo? Ou simplesmente loucura mesmo, dessas que joga a gente num hosp�cio com camisa de for�a e tudo, sem explica��o?
No fundo, alguma coisa me dizia que essa ocorr�ncia muito louca tinha rela��o direta com a tempestade da manh�. Pode ser que a porra do raio me atingiu e provocou um curto circuito no c�rebro? Uma coisa eu tinha certeza: n�o estava dormindo. Tinha consci�ncia disso. Estava confuso, mas l�cido. Por mais bizarra que fosse a situa��o eu estava vivendo uma dura, louca e confusa realidade. Precisava descobrir a causa de tudo isso.
Sa� da padaria disposto a preparar o meu caf� da manh� e pensar com mais calma nesta ins�lita armadilha mental. Os meus olhos buscavam atentamente uma identifica��o familiar nas placas, etiquetas ou embalagens. Nada! Nada al�m de minhocas e pentes. Na parede do elevador havia um desenho azul-marinho com tr�s s�mbolos semelhantes � letra "s". No espa�o onde deveria constar o telefone da empresa encarregada da manuten��o, somente rabiscos indecifr�veis.
Em casa, abri com desespero todas as gavetas que encontrei em busca de alguma letra, de algum n�mero ou de alguma pista que me conduzisse novamente ao mundo normal. A papelada estava toda l�: contas de luz, �gua, telefone, carn�s de lojas e at� a minha certid�o de nascimento. Havia v�rios recortes de realidade. Mas, tudo impresso com minhoquinhas e pentes de dentes escuros, arreganhados, como se estivessem gargalhando da minha tortura intermin�vel. O meu sistema nervoso j� estava completamente violentado. Fui tomado por um forte enj�o, uma dor de cabe�a insuport�vel e comecei a suar frio. Deitei no sof� esperando a indisposi��o passar e fiquei algum tempo observando os porta-retratos na estante. As fotos n�o haviam sofrido nenhuma altera��o. Os amigos continuavam existindo, alegres e sorridentes neste meu mundo desprovido de n�meros, vozes e palavras.
Resolvi telefonar para um amigo. Os n�meros que me acostumei a ver no teclado do telefone n�o existiam mais. Memorizei a posi��o das teclas e disquei automaticamente. Do outro lado da linha reconheci a voz do Ademar. Sei que era ele. Emitiu apenas alguns grunhidos. Como eu n�o respondi, ele desligou o telefone.
Ent�o decidi que iria visit�-lo naquele mesmo instante. Sabia que ele estava em casa. Afinal, era meu amigo de inf�ncia e poderia me ajudar. Talvez conseguisse me comunicar atrav�s de gestos. A verdade � que eu precisava ver um rosto conhecido, conversar com algu�m sen�o iria enlouquecer. Se bem que, n�o tinha mais certeza se a loucura j� havia se estabelecido definitivamente.
O n�mero do apartamento deixou de ser 202 e transformou-se apenas em uma cobrinha inclinada. A minha refer�ncia para localizar o apartamento era o segundo andar, no final do corredor. O som da campainha era conhecido. J� tinha estado neste pr�dio centenas de vezes, mas agora estava ansioso para saber como seria recebido. Esperei alguns segundos intermin�veis. A porta se abriu e a figura simp�tica do Ademar apareceu, vestindo pijama, naquela manh� de domingo.
- Meu amigo, estou precisando da sua ajuda. Algo terr�vel aconteceu comigo esta manh�. Acho que estou ficando louco. Eu n�o consigo entender o que as pessoas falam comigo e nem as pessoas me compreendem. N�o consigo ler mais nada. Estou me sentindo surdo, mudo e analfabeto. Ontem � noite eu e voc� est�vamos num barzinho, tomando cerveja, falando de mulheres, de futebol, filosofando sobre o sentido da vida. Voc� est� entendendo o que eu quero dizer? Aconteceu alguma coisa comigo ontem? Por acaso bati com a cabe�a? Voc� est� lembrado de mim? Diga o meu nome! Fale alguma coisa que eu possa entender! Explique o que aconteceu! Por favor...
No mesmo instante em que fazia esses apelos como rajadas de metralhadora, n�o pude conter o choro. O meu estado emocional simplesmente n�o existia mais. O semblante do Ademar ia se modificando � medida em que o meu desespero aumentava. Primeiro ficou s�rio e foi se afastando de mim, como se estivesse sentindo medo.
Ele gritou enfurecido quando tentei colocar a m�o no seu ombro. mediu-me de cima a baixo com desconfian�a e produzindo sons incompreens�veis, amea�ou-me com um taco de beisebol. Fiquei sem alternativa. Tive de me retirar para n�o ser espancado pelo meu melhor amigo. Se � que era ele mesmo. Em nada se parecia com o amigo gentil e solid�rio, companheiro de primeira hora em todas as festas, sempre disposto a ajudar. Acho que n�o me reconheceu. Tratou-me como um estranho, uma pessoa inconveniente. Fiquei chocado com a recep��o.
Percebi que diante das circunst�ncias n�o poderia sair por a�, abordando as pessoas, tentando me comunicar verbalmente, pois as rea��es delas n�o seriam nada amistosas. O pior � que estavam se tornando perigosas. Retornei ao meu apartamento e fiquei pensando se havia alguma sa�da por onde pudesse come�ar a reconstruir seja l� o que tinha trincado, quebrado, explodido em mim ou em todas as outras pessoas que cruzei naquela manh�. Retirei o len�ol que cobria o espelho e vi minha imagem refletida. Apesar das olheiras profundas e de algumas rugas que surgiram nas �ltimas horas, eu ainda tinha a mesma cara. Ent�o, por que o meu amigo tratou-me daquele jeito? � poss�vel que a mudan�a tenha ocorrido em toda a humanidade e por algum motivo me deixaram de fora.
A cabe�a do�a e quanto mais pensava nesse enigma mais me convencia que era prova��o divina ou autopuni��o. Afinal, muitas vezes fugi do di�logo por simples quest�o de comodidade. Sabia ouvir, sim, mas s� quando tinha interesse no interlocutor e nas vantagens que ele pudesse me oferecer. Os problemas dos outros nunca me tocaram. A dor alheia n�o me dizia respeito. O olhar suplicante de algu�m na rua n�o era problema meu. A minha impaci�ncia com as pessoas pouco articuladas, me obrigava a criar atalhos e a passar a tesoura em conversas desnecess�rias e longas. �s vezes, magoava cruelmente a sensibilidade de quem estava precisando de mim. Na maioria das vezes fingia ouvir.
Sempre pensei que as palavras deveriam ser enxutas, econ�micas, de modo a n�o se vulgarizarem. N�o queria ter o meu tempo tomado por conversas in�teis. Agora, estou desesperado procurando ouvir nem que seja um insulto, um n�o, para me fazer sentir vivo e dono das minhas faculdades mentais. Estou implorando que algu�m pronuncie o meu nome ou pe�a um favor. Queria muito, neste momento, que uma crian�a ocupasse todo o meu tempo de folga para ler a sua reda��o, com todas as fantasias infantis. Iria saborear palavra por palavra. Em poucas horas aprendi que nada faz sentido se n�o houver intera��o com as criaturas que nos cercam.
� a chave daquilo que chamamos de felicidade. Pensando bem, descobri o que eu j� sabia, mas n�o queria aceitar: que o mundo n�o depende de mim para continuar existindo. As pessoas nem fazem muita quest�o da minha presen�a. �s vezes sou um estorvo. A realidade hoje, � que ningu�m sabe nem est� preocupado em saber que eu existo. Agora, aqui, sinto-me como um animal enjaulado neste pequeno apartamento, escondendo-me do mundo e das pessoas e buscando uma migalha de compreens�o. N�o sei ao certo se enlouqueci, se estou morrendo ou renascendo. � at� prov�vel que eu nunca tenha nascido. Tamb�m acho que nunca vivi. A certeza disso tudo � que nunca mais serei o mesmo. Necessito profundamente fazer parte de novo daquela realidade de conviv�ncia, que escorreu por entre os meus dedos. Preciso participar desta cadeia de depend�ncia que move o mundo.
Com tantos pensamentos fervilhando, senti o corpo enfraquecendo e suavemente comecei a adormecer. Percebi que j� era noite. O sono foi chegando assim, naturalmente como o efeito de uma anestesia geral. Uma sensa��o de bem estar indescrit�vel se apoderou de mim. Jamais havia experimentado esta tranq�ilidade, este aconchego interno. Aos poucos alcancei a m�xima profundidade do sono mais reconfortante de toda a minha vida.
De repente, um violento estrondo interrompeu este ritual quase sagrado. Era a porra de um raio anunciando mais uma tempestade de ver�o. O meu corpo estremeceu com o clar�o e com o estalo ensurdecedor. Ao mesmo tempo, o telefone tocou. Ignorando as amea�as el�tricas que vinham do c�u, corri para atender o aparelho. Do outro lado da linha uma voz familiar:
- E a�, cara? � o Ademar. Por onde voc� andou? Tentei falar com voc� o domingo inteiro...