Um madruga em cada esquina
H� cerca de 20 anos atr�s, em um pa�s distante chamado M�xico, existia uma pequena vila suburbana, habitada por tipos igualmente suburbanos. Eram pessoas comuns: Vi�vas, desempregados, crian�as, professores...
Tamb�m h� cerca de 20 anos, um pouco menos do que isso talvez, uma rec�m fundada emissora de TV brasileira adquire um despretensioso seriado produzido no M�xico, retratando justamente a vida das pessoas descritas no par�grafo acima. Para quem n�o percebeu, estou falando do Chaves, ele mesmo, o garoto que vive dentro de um barril.
Nasci em 1982, portanto minha inf�ncia foi muito marcada por esta s�rie. Me lembro que ela era transmitida em hor�rio nobre, as 20h00. Minha m�e sempre me obrigada a ir dormir ap�s o Chaves. Era um momento bastante esperado pra mim, que ficava torcendo pro epis�dio n�o terminar, assim eu poderia ficar acordado at� mais tarde.
O tempo passou, aquele canal de tv cresceu e hoje � um dos maiores do pa�s, investe milh�es em artistas, em filmes e em programas. Por�m aquela s�rie permanece no ar, diariamente.
Bom, tem gente que detesta, tem gente que adora, mas � imposs�vel negar. Todos n�s j� passamos algumas horas em nossas vidas assistindo o programa dos personagens criados por Roberto Bola�os. O que intriga a muitos � como o programa consegue se manter no ar por todos estes anos? Como uma s�rie que possui t�o poucos recursos t�cnicos consegue cativar crian�as e adultos em plena era do computador, dos desenhos feitos em anima��o gr�fica?
Sempre me questionei a respeito disso sem nunca ter conseguido chegar a uma resposta. At� que um dia, por acaso, zapeando os canais de tv � tarde, acabei vendo uma entrevista de Bolan�s. Uma frase dele que me chamou muito a aten��o foi a seguinte: "o Chaves faz sucesso em qualquer lugar do mundo onde existe fome" Realmente, sua s�rie � bem sucedida em toda a Am�rica Latina, do M�xico � Argentina. Pude comprovar pessoalmente isto quando estive no Chile, em 1999. Todos os latinos conheciam os personagens e os cap�tulos, assim como no Brasil. J� os europeus e norte-americanos nunca tinham sequer ouvido falar. Comecei a ver algum sentido na afirma��o de Bola�os.
Aquela vila despretensiosa � um micro cosmo que cont�m a sociedade latino americana. � uma grande caricatura de n�s mesmos. Pode parecer estranho este coment�rio. Mas uma observa��o mais atenta sobre os personagens demonstra isso claramente.
Um homem que vive endividado, que tenta v�rias profiss�es diferentes durante um curto espa�o de tempo, sem nunca atingir �xito em qualquer delas, mas que mesmo assim nunca para de procurar outra atividade para manter a si pr�prio e a sua filha �nica. Passa a maior parte de sua vida desempregado ou sub-empregado, o que transmite a um observador menos atento uma imagem de pregui�oso, de vagabundo. � assim taxado por todos aqueles que ocupem uma classe social mais alta do que a dele, como por exemplo, seu senhorio. Quantos 'madrugas' n�o est�o por a�, nas bancas de camel� dos centros das grandes cidades brasileiras? Vivendo de aluguel e sendo despejados de casas pequenas na periferia? Estariam eles tamb�m nas invas�es de terrenos p�blicos? Nas favelas, talvez?
Sua vizinha � uma vi�va que vive de pens�o, s�mbolo de uma classe m�dia cada vez mais oprimida e decadente, mas que mesmo assim luta com todas as for�as para manter o que resta de sua posi��o social (apesar de viver em um corti�o). Tenta de todas as formas manter um padr�o de vida que j� n�o condiz com sua realidade. � obrigada a viver em um bairro afastado, cercada de pessoas de n�vel cultural inferior, o que a incomoda, e ao mesmo tempo a eleva. Neste local ela pode ser superior. Pode olhar todos os seus vizinhos de cima. N�o por acaso, ela se aproxima da �nica pessoa na hist�ria que possui um n�vel de cultura um pouco mais elevado, ou seja, o professor de seu filho, um garoto robusto e mimado, que por isso � sempre passado pra tr�s pelas outras crian�as, mais pobres e, talvez por isso, mais espertas, uma vez que n�o tiveram tanto mimo, tanto zelo por parte de seus pais.
Na casa ao lado vive uma senhora de idade n�o t�o avan�ada, mas que � claramente discriminada por todos os habitantes do local por isso. Vive sozinha, dependendo de sua aposentadoria pra viver. O dinheiro, embora escasso, � suficiente, uma vez que ela vive sozinha. Uma pessoa em seus 60 anos sendo considerada idosa, n�o seria reflexo de uma baixa expectativa de vida? Qual ser� a m�dia de vida da imensa maioria de madrugas de nosso pa�s? E por que ela � sozinha? Ser� que algu�m olha pra ela? As visitas do carteiro nunca trazem nada para tal senhora. Ela cita alguns parentes distantes, que por�m, jamais aparecem. Eles n�o se importam. O idoso � visto como um peso, algu�m que d� trabalho e n�o tr�s retorno, logo � isolado em sua pequena casa, ou em um asilo, ou em seu quarto. Apenas ela e suas lembran�as entram naquela casa.
Chego finalmente ao personagem central da hist�ria. Um garoto que diz ter fam�lia, mas que ningu�m a conhece. Que diz ter um nome, mas que ningu�m sabe qual �. Ele vive no mesmo ambiente destas pessoas, brinca no p�tio e vai a escola, por�m sempre sozinho. N�o tem o que vestir, enquanto as crian�as pr�ximas a ele est�o sempre bem vestidas. Todos demonstram pena pela criatura, e engolem seco cada vez em que ele manifesta sua fome, suas necessidades, sua car�ncia afetiva. Por�m nada de concreto � feito para mudar sua condi��o, talvez um sandu�che de presunto hoje, um sapado usado e velho amanh�. Isso basta para manter as consci�ncias suburbanas tranq�ilas e satisfeitas, com uma caridade vazia que mant�m uma crian�a vivendo dentro de um barril.
Este barril poderia ser uma marquise? Um viaduto? Quantas crian�as vivem nas ruas de nosso pr�prio bairro e nada fazemos para ajudar? Damos um trocado aqui, um sandu�che aqui. As vezes at� juntamos tudo o que n�o queremos, colocamos em um saco de supermercado e descemos de nossos apartamentos para fazer a caridade. Restos, apenas restos. De comida, de roupa, de afei��o. O garoto continua l�, faminto e sozinho. Ir� crescer e ser repreendido caso vier a contrariar as regras da sociedade em que cresceu a margem. Ou pior, no caso de suspeita, ser� o culpado. N�o pretendia citar epis�dios da s�rie nesta parte do texto, mas n�o posso deixar de citar o epis�dio do ladr�o que aparece na vila. Todos, sem exce��o, o acusam de ladr�o. Sempre afirmaram que tinham pena e at� chegavam a gostar do pobre coitado, por�m na primeira oportunidade ele foi julgado e condenado. Era inocente e todos pediram desculpas. Mas tais desculpas aparecem na vida real? Acho que n�o.
Realmente, meus colegas europeus jamais entenderiam este contexto, logo jamais ririam disto. Que sorte a deles. A auto-ironia sempre tem um efeito devastador sobre todos. N�o existe nada mais f�cil do que rir de si mesmo refletido no outro. N�o existe nada mais f�cil do que julgar e condenar algu�m que se encontra um pouco abaixo de voc�.
Ent�o desempregado e vagabundo se confundem, a velha � velha, o rico � rico (mais um detalhe, os ricos da s�rie s�o gordos, teria isso algo a ver com abund�ncia? Ser� por isso que todos os outros s�o magros?), ele n�o se mistura, apenas aparece para cobrar alugu�is (contas, mensalidades, presta��es) e a crian�a abandonada permanece abandonada. Ali�s, todos permanecem abandonados � pr�pria sorte em seus pequenos problemas, aparentemente sem solu��o, tentando se adaptar inutilmente � esta dura realidade.
Claro, isso s�o coisas que s� se percebem com o tempo. Uma crian�a n�o entende tais coisas ao assistir "Chaves". Os adultos riem um riso solto, "esses problemas n�o s�o apenas meus" pensam, mesmo que inconscientemente. E acham tudo aquilo engra�ado. Aquilo tudo lhes diz respeito e faz muito sentido. Aquele � o seu pr�prio mundo e a sua pr�pria com�dia. Infelizmente.
Rafael Pereira de Menezes
14/02/2002