www.rabiscos.cjb.net




Imagine-se passando por uma terapia de vidas passadas e descobrindo que foi a �nica mulher letrada do har�m do Rei Salom�o, encarregada de escrever a hist�ria do povo judeu.






A Colis�o

Mais uma tarde de f�rias, mais uma caminhada pela av. Paulista. Passando em frente ao Top Center, ocorreu comigo um fato corriqueiro, banal at�, por�m que me fez pensar em algumas coisas.

Sempre gostei de caminhar, � minha forma de terapia. Fico pensando na vida, cantando, observando os carros. Mas desta vez foi diferente. Por incr�vel que pare�a, eu estava atento em meu caminho. Foi quando visualizei, a cerca de 10 metros, uma mulher de aproximadamente 30 anos, de estatura baixa e que carregava uma pequena pasta (talvez uma bolsa, n�o estou certo em rela��o a isso). Ela caminhava em minha dire��o, mas n�o como se viesse a meu encontro... simplesmente andava em minha dire��o.

De repente, est�vamos em rota de colis�o. Percebi que, se eu n�o alterasse meu passo ou parasse, nos chocar�amos, mas mesmo assim o mantive. Ela tamb�m me viu. Aqueles segundos que antecederam ao choque pareciam o anunciar de uma guerra. Indianos e paquistaneses, judeus e palestinos, palmeirenses e corinthianos. Ex�rcitos armados nas fronteiras, parados esperando o movimento do inimigo. Simplesmente nos encar�vamos e avan��vamos, um tentando intimidar o outro, levando-o a mudar seu curso.

Neste instante os carros que passavam j� n�o interessavam mais, nem o farol, nem o yakissoba vendido ao lado, no ponto de �nibus. Foi como se o tempo tivesse congelado para observar aquele momento. Uma quest�o de honra, um duelo em um western. Xerife e ladr�o em busca de auto afirma��o! N�o havia como parar, n�o havia como renunciar �quele pequeno peda�o de cal�ada que estava um passo � nossa frente. Ele nos pertencia, aquele espa�o nos pertencia, por�m s� podia ser ocupado por um de n�s. Mantive meu passo firme, ela fez o mesmo. Nos chocamos. Sua pequena pasta caiu no ch�o. Guerra empatada, sem vencedores nem vencidos.

Coisas pequenas e banais podem tomar outra dimens�o dependendo do contexto em que s�o analisadas. Fiquei me perguntando o porque daquilo tudo. Por que eu simplesmente n�o desviei e deixei a mulher passar? Por que ela n�o fez o mesmo? Aqueles segundos que antecederam ao choque realmente pareciam eternos.

Vivemos em um mundo que nos padroniza, que nos controla de uma forma ao mesmo tempo cruel e extasiante. Usamos as mesmas roupas, comemos as mesmas comidas, realizamos os mesmos trabalhos, dia ap�s dia. A personalidade � substitu�da pelo inconsciente coletivo. A no��o de justi�a desaparece quando confrontada com o "politicamente correto". Somos anulados diariamente, anulamos as outras pessoas, que nos anulam, e assim sucessivamente. "O que ser� que v�o pensar?" "Ser� que eu serei exclu�do?"

Talvez isso justifique a viol�ncia. N�o viol�ncia no sentido mais usado da palavra, mas a viol�ncia que cometemos todos os dias contra nossas pr�prias personalidades, quando acordamos em uma hora que n�o quer�amos acordar, vestimos uma roupa desconfort�vel e nos dirigimos a um lugar onde n�o queremos ir. E fazemos tudo isso acreditando que, na verdade, queremos esta vida.

Nos iludimos com os sonhos do "inconsciente coletivo": carreira, dinheiro, prest�gio, achando que essas coisas podem nos libertar da viol�ncia que cometemos contra n�s mesmo. E em busca disso, nos violentamos cada vez mais. Somos livres porque n�o temos escolha e nesta liberdade imposta est� a nossa vit�ria, j� escreveu Camus.

Assumimos cada vez mais nossos personagens e nos esquecemos de n�s mesmos. Os poucos que conseguem alcan�ar o topo, o 'objetivo coletivo' se perguntam: "E agora, o que eu fa�o?" Os outros continuam com seus pap�is. E qualquer pequeno obst�culo pode transformar-se em uma muralha. E uma mulher que caminha a cerca de dez metros de dist�ncia pode se tornar sua inimiga.

Talvez essa manifesta��o de viol�ncia, agora sim a viol�ncia propriamente dita, ou at� o desprezo pela presen�a do outro, a convic��o de que ele deve desviar seu caminho por nossa causa pode ser entendida como uma manifesta��o daquele esp�rito escondido atr�s da m�scara, do terno, da gravata, dentro da pasta, aquele esp�rito que grita: eu sou humano! eu estou aqui! Pelo menos neste breve momento se rompe a condena��o ao uso do instinto. Mesmo que por apenas alguns segundos, este assumiu seu lugar de direito: companheiro da raz�o, n�o escravo dela. Por um segundo, fomos apenas humanos, apenas duas pessoas que disputam o mesmo espa�o.

A disputa por um mesmo peda�o de cal�ada poderia ser a mesma vaga no mercado de trabalho, no estacionamento do super mercado. Poderiam ser tamb�m dois amigos que disputam a mesma namorada. A natureza humana vive tentando contrariar a natureza, tentando negar a velha m�xima da f�sica, de que dois corpos n�o ocupam o mesmo lugar. E descobrindo, mais uma vez, que tal lei n�o pode ser ignorada, negada e, muito menos, alterada. Mas esta pequena auto afirma��o basta para alimentar o instinto por algum tempo, apenas o suficiente para que ele se silencie e volte para seu esconderijo, reservado para ele por n�s mesmos.

Pedi desculpas para a mulher, que abriu um sorriso "vitorioso": O garoto assumiu a culpa. Seu caminho, para ela, era mais importante e seus passos mais fortes do que os meus. Ela ajeitou seu cabelo cheio de laqu�, pegou sua pasta no ch�o e seguiu com seu passo firme. Em busca de algo que nem ela sabe. A culpa n�o era minha, nem dela... bem, pelo menos ela sorriu.

Continuei minha caminhada. Voltei a observar os carros, o com�rcio, as pessoas, seus pequenos e necess�rios conflitos. Pensei em algumas coisas sem import�ncia, como por exemplo, escrever sobre isso, tomei um mate com guaran�, peguei o metr� na Trianon-Masp e voltei pra casa. Que bom! Perdi essa guerra. Mas foi uma excelente batalha.

Rafael Pereira de Menezes
10/01/2002





Bannerlandia
Bannerlandia
Bannerlandia
Bannerlandia
Bannerlandia
Bannerlandia
Bannerlandia
Bannerlandia

clique aqui!
by Banner-Link

clique aqui!
by Banner-Link

clique aqui!
by Banner-Link


1 1
Hosted by www.Geocities.ws