Homenagem � Cigarra
"a formiga s� trabalha por que n�o sabe cantar"
(Raul Seixas)
Ter�a-feira, dia de aula de ingl�s. Um dos homens que eu mais respeito, tanto por suas opini�es quanto por atitudes � meu professor, Roberto Lessa. Analisando um dos textos da apostila de meu curso, em uma aula, n�o me lembro por qual motivo, acabamos chegando ao assunto trabalho e, com mais um pouco de conversa, chegamos na velha f�bula da cigarra e das formigas.
Todos conhecem esta f�bula, por�m, nestes tempos de informatiza��o, talvez as gera��es mais novas ainda n�o a tenham lido ou ouvido. Hist�rias do tipo p�kemon s�o bem mais interessantes para quem j� nasceu em frente ao micro computador e se assusta ao ver qualquer tipo de videogame que utilize cartuchos e n�o cd-roms... de qualquer forma, acho v�lido aqui fazer um pequeno apanhado daquela hist�ria, para facilitar a compreens�o deste texto
Diz a fabula que em algum lugar havia um formigueiro. Todos conhecem um formigueiro: todas as formigas trabalhando em busca de comida para alimentar sua coletividade. De sol a sol, sem parar, l� est�o elas, indo at� algum a�ucareiro aberto, ou em dire��o �quele prato de comida esquecido em cima da mesa da cozinha. S�o fortes, carregam muito mais do que o peso do pr�prio corpo. Seu talento e a sua voca��o � esta, a do trabalho bra�al, incans�vel.
Perto deste formigueiro vivia uma cigarra. Esta passava seus dias a cantar enquanto observava o trabalho daquelas formigas. Cantar era o que sabia fazer, at� porque seu tamanho e seu jeito desengon�ado, com pernas imensas, n�o faziam dela o ser mais indicado para aquele tipo de trabalho. Mas ela cantava bem, e como!
Mas aquelas formigas ent�o passaram a nutrir uma esp�cie de raiva pela cigarra... pensavam: 'porque n�s trabalhamos tanto e ela n�o faz absolutamente nada?' Imagino que a hist�ria se passava em algum formigueiro europeu, vez que chegou o inverno e o trabalho se tornou imposs�vel por causa do frio. Por�m, gra�as ao trabalho realizado durante todo o ano, a comida armazenada dentro daquele formigueiro era mais do que suficiente para alimentar toda aquela coletividade.
A pobre cigarra ent�o, com fome e frio, dirigiu-se �quele formigueiro, para buscar ali comida e abrigo. Qual foi a resposta das formigas a tal solicita��o? N�O! A cigarra n�o foi aceita pois passou o ver�o a cantar enquanto deveria ter se preparado para o longo inverno. Agora, ela que se virasse no frio para sobreviver. Certamente a pobre cigarra morreu congelada dentro de algum oco �mido de arvore...
Imagino esta criatura em seus �ltimos momentos. Encolhida e acuada em um canto, com fome e frio, entoando uma can��o bela, por�m triste ou talvez at� tr�gica, pelo fato de saber aquela ser sua �ltima can��o. Deveria se odiar pois seu jeito de ser, aquele seu talento a levara a morte. Uma morte fria (em todos os sentidos) e triste, vez que morria desgostosa com sigo mesmo. 'Morri por ser como sou... se fosse como as formigas, se fosse igual a elas, estaria viva'.
Meu professor fez um �timo coment�rio. Esta f�bula, que � apresentada �s crian�as n�o passa de um imenso mau exemplo... grande Lessa! As f�bulas surgiram para os adultos, para passar a estes os valores da �poca em que foram criadas. Quando tais adultos adquiriram tais valores, que ent�o entraram no inconsciente coletivo da sociedade, estas passaram a ser utilizadas na educa��o das crian�as, para que estas j� crescessem conforme as regras sociais do local onde vivem. A moral da hist�ria sempre reflete a ideologia dominante em determinada �poca e local.
Acho que tal f�bula deve ter sido muito difundida no per�odo da revolu��o industrial, por exemplo. O oper�rio sempre for comparado com uma formiguinha. Aquele que deve trabalhar incansavelmente, de sol a sol, para obter um m�nimo de seguran�a para sua fam�lia. Sua necessidade em manter sua fam�lia e a falta de condi��es sociais, causada por alguns oportunistas que impunham um novo sistema produtivo, justificado at� por uma nova �tica religiosa, o obrigaram a deixar seu tear, suas velhas f�rmas ou seu arado para se sujeitar �quelas novas condi��es. Seres humanos reduzidos � condi��o de formigas.
Inspirados neste quadro, outros oportunistas ent�o chegaram a comparar a humanidade a um formigueiro e, partindo desse princ�pio coletivista, criaram regimes sociais onde o trabalho � apreciado apenas se for revertido totalmente � comunidade. Aqui fica ainda mais clara a met�fora em rela��o � formiga. Cada indiv�duo � pequeno, insignificante e exatamente igual a seu semelhante. Deve trabalhar incansavelmente pelo todo da comunidade. Ele � apenas uma parte daquela massa, sem identidade pr�pria.
Por�m, tal f�bula se esquece de contar (ou n�o conta por falta de interesse) que todo formigueiro tem uma rainha. Que esta n�o exerce trabalho bra�al e fica com a melhor parte de tudo o que � produzido pela coletividade. Ent�o surge a primeira contradi��o: a coletividade n�o trabalha apenas para o seu sustento, mas tamb�m para manter aquela que faz sua vida ser apenas mais um n�mero, mais um pontinho preto na parede da cozinha. Nem todas as formigas s�o 'formigas'. (algu�m leu 'A revolu��o dos bichos', do Orwell??? Acho que � mais ou menos o esp�rito dessa �ltima afirma��o...)
Mas como esta � a �nica realidade que as formigas 'pleb�ias' conhecem, acabam a ela se apegando. As f�bulas geraram seus efeitos sobre estes seres descaracterizados. Ou melhor, sobre quase todos. Aqui entra nossa hero�na, a cigarra:
Enquanto todas aquelas formigas, apenas pontinhos pretos, trabalhavam para manter aquele sistema que as fazia trabalhar daquela forma, l� estava a cigarra, ignorando aquilo tudo, ou seja: cantando. Ela n�o era apenas mais uma. Enquanto todas as formigas sabiam quem era a cigarra, tinham ouvido sua m�sica e visto sua estranha apar�ncia, a cigarra n�o fazia a menor id�ia de quem era cada uma daquelas formigas. Eram todas iguais. Como japoneses num parque tem�tico americano, ou como os boxes do mercado de flores da av. Dr. Arnaldo.
As formigas, por estarem t�o fechadas em seu grupo, em seu sistema de vida funcional, viam a cigarra com os mesmos olhos que usavam para analisar seus semelhantes. Simplesmente a viam como uma formiga pregui�osa. Esqueceram-se de que n�o se tratava de falta de vontade para trabalho, mas sim de trabalhos diferentes. Mas a contextualiza��o � um dom e a empatia � algo raro, muito dif�cil de se encontrar nas formigas, digo, pessoas (essa � a gra�a nas f�bulas!).
Mais do que fome ou frio, a culpa e o desprezo sofridos por nossa hero�na, � o que h� de mais doloroso nesta f�bula. Tolher as caracter�sticas 'desagrad�veis' no indiv�duo � uma das principais preocupa��es em todos aqueles que possuem uma posi��o de comando. Passamos por isso em casa, na escola, no trabalho. S�o estabelecidos padr�es: de comportamento, de vestimenta, de relacionamento. Quem n�o se enquadra ter� que lutar contra o sentimento de culpa ou desprezo dos demais. � a imposi��o dos moldes.
Na antiguidade, uma das penas mais graves que algu�m podia sofrer era a pena de desterro. A morte social � pior do que a morte f�sica, vez que na �ltima, ao menos o condenado n�o fica vivo para assistir seu padecimento. Sozinho, acompanhado apenas por uma consci�ncia que foi propositalmente condicionada para a culpa. O condenado acaba, mais cedo ou mais tarde, se arrependendo de seus 'erros' e assim fica pronto para sua morte solit�ria.
Condenar os transgressores � solid�o ou a culpa e utilizar os condenados como exemplo acaba atraindo a grande maioria das pessoas aos padr�es que elas mesmas, em maior ou menor grau, carregam. Os enforcamentos quase sempre ocorrem em pra�a p�blica.
O que deve ter feito a rainha e seus s�ditos realmente se incomodarem com a cigarra, por motivos a serem explicados mais adiante, � que tudo o que ela n�o queria, de fato, era ser diferente. N�o queria agredir as formigas e nem estava sendo pregui�osa: simplesmente a cigarra estava sendo ela mesma. O sistema do formigueiro e o trabalho das formigas lhe eram indiferentes.
Se ela cantava durante o ver�o, era simplesmente porque aquilo era o que ela sabia fazer, aquilo era parte dela. Posso at� dizer que aquela era a sua forma de ser formiga. O que a levava a cantar era exatamente o mesmo motivo que levava as formigas ao trabalho bra�al. Ambas estavam a servi�o de sua condi��o. Mas, como j� disse, n�o se pode esperar empatia (seria muita pretens�o).
E, j� que a cigarra foi vista como diferente, devemos nos questionar: como s�o tratados os diferentes? Aqueles que ousam ir contra as verdades preestabelecidas ou contra os padr�es acabam pagando um pre�o muito alto por isso. Giordano Bruno recusou-se a negar suas convic��es e acabou na fogueira. Todo m�rtir tem um pouco de cigarra, ou vice-versa...
S�o essas cigarras que fazem a diferen�a, simplesmente por serem quem s�o. Foram elas que mudaram (e mudam) todo um mundo a seu redor. Porque algu�m sempre tem que pagar o pre�o da mudan�a, a rainha nunca estar� satisfeita, o trono sempre vai pedir por mais. E o maior desafio � sua autoridade � aquele inconsciente, n�o intencional.
O fato da cigarra n�o ter se preocupado com a autoridade da rainha, com a rea��o das formigas, mas achar que seu comportamento era normal, que n�o estava a fazer nada de errado, � o que mostra o in�cio da queda do poder da rainha. A� est� a sua amea�a e a causa de sua morte. Ela desafia o sistema estabelecido, sem sequer o ter notado. A pra�a estava vazia e a forca j� n�o assustava...
Quem assistiu ao desenrolar dessas cenas mais atentamente n�o viu um transgressor, mas apenas um ser agindo naturalmente. Viu que d� para agir naturalmente, sem estar, necessariamente, dentro do padr�o. E chegou ent�o a conclus�o l�gica de que existem v�rias formas de se viver em um formigueiro... digo mais: avan�ando ainda mais neste racioc�nio, pode-se perceber que n�o h� padr�o ou regra que se justifique fora de seu contexto, nem contexto que sempre se justifique. Portanto, n�o existem regras imut�veis.
Agora, imagino aquele formigueiro diferente... com m�sica, com vida! Porque as formigas, embora ainda precisem trabalhar duro, podem cantar, podem dan�ar, podem ser felizes... elas s� n�o tinham se dado conta disso ainda. Sua inveja em rela��o � cigarra foi, ao mesmo tempo, um despertar. O indiv�duo n�o � e n�o pode ser comparado com uma formiguinha. Ele � grande, ele � o in�cio e o fim de todos os acontecimentos neste mundo. Est� neste mundo para SE servir dele, n�o para servir ou ser servido por ningu�m! Para exercer esta grandeza, tudo o que ele precisa � dar-se conta dela.
A rainha provavelmente foi deposta, a jornada de trabalho diminuiu, o tempo livre aumentou... e, ao contr�rio das previs�es mais sombrias, o formigueiro continua de p� (� s� deixar o a�ucareiro aberto em cima da mesa que iremos perceber isso...) e funcionando. Imagino at� que hoje em dia ele funcione melhor.
E essa � a raz�o deste texto, desta homenagem. Ele � dedicado �s cigarras que fazem a diferen�a em seu meio. Que, com sua can��o, fazem deste pequeno formigueiro um lugar melhor para se viver. A todos aqueles que seguem sua pr�pria personalidade, munidos apenas da certeza de estar a fazer o que deve ser feito e, principalmente, da mais brutal indiferen�a, (a maior fonte de coragem que existe) aquela que contraria as tend�ncias mais r�gidas e muda (quase) sem querer o pr�ximo cap�tulo da f�bula.
O livro continua e sempre vai continuar aberto.
Rafael Pereira de Menezes
09/08/2002