Noite de Balada
S�bado, 22:15 da noite. Em v�rios pontos da cidade escuta-se o som de chuveiros ligados. deslizam ferros el�tricos sobre tecidos caros. Roupas sociais, de festa at�. Toca o telefone, algum amigo liga perguntando daquela carona que tinha sido combinada na v�spera. 'Confirmado?' ele pergunta. 'claro que sim, passa a�!'. Hora de se arrumar com todo o zelo que a ocasi�o exige. Aquele perfume caro, aquela camisa importada. Claro, � necess�rio estar preparado para a encena��o que se iniciar� daqui a cerca de uma hora. Toca a buzina, olho pela janela. Hora de ir embora.
Entro no carro. Todos est�o ali, com o mesmo estilo de roupa, �s vezes at� o mesmo perfume. Engra�ado, eles nunca usam esse tipo de coisa em outras ocasi�es. Nem eu! O r�dio est� alto, n�o d� pra pensar direito. Li uma vez que depois de uma certa quantidade de decib�is, o c�rebro perde a capacidade de concentra��o. Mas quem ali queria pensar? Hora de abstra��o. Alguns aspectos da personalidade daqueles que estavam no carro come�am, lentamente, a desaparecer.
Para um ator assumir um personagem e convencer seu p�blico, deve abstrair-se momentaneamente de sua personalidade e dar lugar a seu personagem. Deve reagir como este, pensar como este. Durante a encena��o, deve ser este personagem.
Estamos nos aproximando do local. O tr�fego de ve�culos � intenso, principalmente por se tratar de um s�bado � noite. Enfim, chegamos. 'Quem paga o estacionamento?'. Ah... nesta hora os personagens voltam a si. Talvez porque o dinheiro n�o sai do bolso do personagem, mas sim do ator. Mas logo depois, este desaparece novamente, para reaparecer apenas no momento de pagar a consuma��o ou nos pequenos contatos com a realidade que poder�o ocorrer durante a noite (normalmente, estes contatos s�o os piores momentos da noite) . Que fila! Quanta gente! Nesta hora os papeis come�am a se definir. Minto. A pe�a j� est� escrita. Os pap�is sempre estiveram definidos e j� est�o naquele teatro, esperando apenas os atores que ir�o os assumir. A �nica d�vida � quem ir� atuar em qual papel.
Passo pela revista, o seguran�a mal encarado cisma com algo no meu bolso. Ser� que ele achou que eu estava armado? Vai saber. Ele me liberou quando viu que aquele objeto estranho era um telefone celular. Entro na casa. Engra�ado, sempre que a gente entra em um lugar desse tipo, nossa primeira rea��o � tentar descobrir onde fica a pista e, principalmente, o bar. Na pista de dan�a se passar� a trama principal desta cena previamente anunciada. O bar servir� por vezes como camarim, outras vezes como um palco onde se desenrolar�o as cenas conseq�entes da trama principal. � o grande pano de fundo dos acontecimentos. S�o cenas realmente engra�adas, para algu�m que n�o est�, neste dia, participando do jogo.
Ainda � 23:30. Pista vazia. A m�sica que at� ent�o era lenta e dava ao ambiente uma falsa atmosfera pacata, passa a ditar o r�timo das cenas que se seguir�o. Forma-se a primeira rodinha. Atores experientes normalmente abrem o espet�culo. A presen�a destes atrai e encoraja a participa��o dos atores menos experientes. Todos se juntam e acabam formando uma grande massa disforme e sem cor pr�pria, dotada apenas de uma entona��o artificial fornecida por luzes coloridas e fuma�a de cigarro.
Come�a o primeiro ato. As rodas iniciais come�am a se desfazer quando alguns atores come�am a dan�ar de forma engra�ada na frente de desconhecidos. Depois de alguns instantes, estes dois come�am a trocar informa��es. Inicia-se uma conversa desconexa sobre a quantidade de vezes que j� participaram de tal encena��o 'voc� vem sempre aqui?', a qualidade das bebidas do bar, a m�sica que est� tocando no local. A conversa, se interessante se aprofundar�. Surgir�o perguntas de car�ter mais pessoal que acabar�o levando ambos os personagens, depois de alguns minutos, a produzirem uma cena que poderia at� ser chamada de rom�ntica.
Um beijo normalmente inicia esta cena. Os atores determinam o seu final conforme o clima obtido pela intera��o de seus personagens e sua vontade de atuarem juntos. Os atos s�o praticados pelos personagens, mas seus efeitos se refletem diretamente nos atores. Sensa��es e sentimentos se confundem. Mas hedonismo � hedonismo e este � o objetivo de todos os participantes do jogo.
Por vezes, e por v�rios motivos, a conversa inicial pode n�o parecer interessante a um dos participantes. Esta � ent�o interrompida, de forma teatral: 'vou ao banheiro', por exemplo. A vaia ou, principalmente, o desprezo do p�blico � o maior medo de um ator. � muito dif�cil lidar com a rejei��o de seu personagem ou com a inviabilidade da sua atua��o.
Inicia-se o segundo ato. Acho que � 01:30 da manh�, est� cedo, ainda n�o quero olhar para o rel�gio. As dan�as se repetem, alguns dos casais formados no primeiro ato se separam da mesma forma art�stica citada anteriormente. Aqueles que fracassaram no primeiro ato assumem outros tipos de personagem.
Alguns se dirigem ao bar, buscando algo que quebre a inibi��o que possa ter causado o insucesso de suas primeiras tentativas, ou a falta de coragem para realiz�-las. Preparam-se assim para um outro ato, uma nova investida. Outros se dirigem ao bar para tentar esquecer a frustra��o ocorrida e acabam por l� ficando, uma vez que confundem seu personagem com sua realidade, v�em ocorrer nos palcos o que j� ocorre na vida real. Formam-se novos grupos, de amigos que resolvem apenas conversar, ou de amigas que ir�o apenas dan�ar e fingir aproveitar (leia-se esquecer) a noite, deixando de lado seus pap�is, pelo menos at� a abordagem por parte de algum ator que esteja na ativa.
Aqueles bem sucedidos no primeiro ato, mas que encerraram aquele ciclo de exibi��o, abandonam suas parceiras e retornam a seus grupos originais para contar suas conquistas e ouvir os relatos dos colegas. Neste momento, os personagens s�o novamente abalados pelo esp�rito de competi��o que reina no ambiente. Inveja e admira��o se confundem, uma vez que a linha que divide entre realidade e fic��o se torna cada vez mais t�nue. Alegria inabal�vel no semblante de alguns, uma tristeza imensur�vel no de outros. Mas a maquiagem, a produ��o e uma m�sica propositalmente alta n�o permitem que tais sentimentos sejam revelados pelos atores ou percebidos pelos demais. A festa continua.
Saio da pista, pego uma bebida qualquer e me sento no sof�.
Terceiro e �ltimo ato. As mesmas cenas que j� ocorreram por tantas e tantas vezes em tantas e tantas noites come�am a se repetir novamente. Grande parte dos atores volta ao palco principal, reinicia-se o jogo de dan�as e conversas, agora direcionado �queles que, durante a noite, mostraram interesse em contracenar. Se formam novos casais.
Um ator que estava voltando do banheiro v� sua companheira contracenando com outro ator. Um sentimento confuso surge, uma mistura de indigna��o do ser real que est� l� dentro vendo sua conquista se desfazer no ar com a indiferen�a que o personagem deve apresentar para cumprir seu roteiro. Tal mistura de sentimentos tem resultado imprevis�vel, as vezes leva at� a brigas e agress�es, por�m normalmente a indigna��o � calada e o personagem compensa aquilo que lhe agride agindo exatamente da mesma forma. As m�scaras come�am a cair. A agress�o � interna. A a��o do personagem se sobrep�e � do ator, por�m o sentimento do ator � o �nico que realmente existe.
S�o 03:00. Os movimentos, os abra�os e as dan�as danificam o figurino montado para aqueles momentos. Assim, os personagens se tornam mais vulner�veis, mais humanos. Uma vis�o pat�tica de humanidade. Pessoas provavelmente j� b�badas, usando roupas amassadas em plena madrugada. Nada nesta pe�a � mais humano do que estas cenas de decad�ncia.
Em alguns cantos, garotas choram por n�o terem sido escolhidas para participar da pe�a. Em todas as baladas, alguma garota sai chorando! Engra�ado, aquilo n�o era pra ser irreal? Porque ent�o este sentimento de melancolia? �s vezes pergunto ou sou perguntado sobre alguma menina que conheci em noites deste tipo; a resposta, quase invariavelmente, � a mesma: 'menina de balada, n�o pega nada...' De balada, s� isso. Irreal. Mas n�o � isso que os atores sentem durante e ap�s a atua��o de seus personagens.
04:17 da manh�, cenas finais. Alguns casais trocam telefones, muitos j� se dirigem � fila para pagar a consuma��o e voltar para casa. �s garotas que choravam s�o consoladas por suas amigas, que n�o puderam faz�-lo antes pois n�o estavam ali, estavam ocupadas em seus pap�is. No banheiro, um ator vomita. Assim, deixa para tr�s os artif�cios que utilizou para tentar se encaixar em seu personagem. Parece que n�o conseguiu. Propositalmente, a m�sica muda de estilo. Um estilo mais lento. A pista deixa de ser palco, o espet�culo se aproxima de seu final. Cessa a dan�a, aqueles que ainda l� estavam tamb�m s�o empurrados para a fila.
E que fila! Que demora! Nela se forma outra massa disforme, desprovida agora daquela luz colorida de ent�o. Ela � cinza. O preto das roupas se confunde com a fuma�a dos cigarros e as express�es de sono nos rostos. Express�es neutras. Muda o tom da conversa. Acaba a pe�a.
Chega a hora de pagar as d�vidas contra�das na noite. Paga-se a consuma��o � casa. Os que ainda tem alguma consci�ncia prestam contas dos fatos ocorridos a ela. Outros s� conseguir�o faz�-lo no dia seguinte, depois da ressaca. Os que j� n�o a tem, porque se confundem com seus personagens, sorriem com os rostos enrubecidos e uma vaga sensa��o de dever cumprido.
Estas fic��es para alguns s�o a realidade, ou pelo menos a �nica chance de manter contato com uma realidade, mesmo que esta seja totalmente est�ril. Por meio de uma ilus�o. Elas bastam pra preencher o vazio de suas vidas at� o pr�ximo s�bado. At� a pr�xima cena.
Podem at� parecer meio deterministas tais constata��es, por�m n�o s�o. Todos conhecem o roteiro e ningu�m � for�ado a participar. Minha liberdade � suficientemente grande para que eu possa escolher entre tomar parte na pe�a ou n�o. Mas uma vez que minha resposta � afirmativa, no momento em que assumi a um personagem previsto na trama, n�o posso mais mudar o roteiro daquela noite. Ela n�o me pertence. Apenas o diretor da pe�a teria este poder, mas n�o existe um diretor. (pelo menos ele n�o � acess�vel aos atores, nem d� ouvidos a eles.)
05:40 da manh�. Finalmente entro no carro com meus amigos, voltamos para casa. O volume do r�dio j� n�o est� t�o elevado, muito menos os �nimos. Todos pensam em algo que est� longe daquele lugar. Algu�m �s vezes arrisca algum coment�rio sobre a noite, sobre alguma garota ou algo de engra�ado que possa ter ocorrido. Ningu�m d� aten��o, pois n�o foi real. Ocorreu, mas n�o foi real, portanto n�o tem import�ncia, principalmente nessa hora, em que sono aperta ainda mais. O dia lentamente come�a a clarear e todos percebem que tudo foi apenas mais uma noite de balada.
Rafael Pereira de Menezes
09/04/2002