O Pre�o do Perd�o
Sabe, essas hist�rias costuman
acontecer todo dia, ali�s, v�rias vezes ao dia em todo o
mundo. Apenas pretendo contar uma delas hoje.
Noite chuvosa, mas uma baita festa
estava acontecendo naquele dia. Festa essa que nem mesmo
a chuva poderia estragar, pensou o jovem formando. Hoje
estava vestido com seu terno bege, sua melhor roupa,
estava com o cabelo arrumadinho, cortado pela manh� e
penteado apenas h� alguns minutos, o carro enceradinho,
lavado � tarde no melhor lava-r�pido da cidade...tudo
correto, tudo nos conformes, para que a melhor noite da
sua vida at� aquele momento n�o tivesse nenhum
imprevisto estragando o grande momento.
Veloz, o autom�vel logo chegou ao
gin�sio onde se realizaria dali a alguns momentos a
formatura. Foram cinco longos e tenebrosos anos cursando
Engenharia...j� tinha um emprego garantido por conta de
seu destacado rendimento, em uma firma de produtos
qu�micos em S�o Paulo, sal�rio que jamais seria
garantido ali no interior. Estava com a vida garantida
ap�s o t�rmino do curso.
Saiu do carro e se encaminhou para o
gin�sio a destacada figura. Destacada por conta da boa
apar�ncia propiciada pela sua gen�tica (alto, cabelos
negros e olhos azuis, al�m do rosto de pedra
magnificamente talhado), al�m de ser um rapaz sem d�vida
muito bem cuidado. logo que saiu do carro, um grupo de
convidadas come�ou a encar�-lo com olhares
gulosos...algo at� t�pico para este homem.
Adentrou o gin�sio, ricamente
decorado para esta ocasi�o, v�rias mesas na quadra,
todas decoradas com toalhas muito bem feitas em verde-
musgo, um palco montado na altura do gol, todo em azul-
turquesa, e cadeiras para os formandos se sentarem
diante do palco. A cerim�nia ainda n�o havia come�ado,
os formandos ainda estavam conversando animadamente em
um canto. Dentre eles uma mo�a logo se destacou, uma
linda loirinha com cabelos encaracolados, olhos verdes,
com um bonito vestido verde, que se encaminhou em
dire��o ao homem de terno bege. Enquanto ela andava,
quase trope�ou em um rapaz de preto, que se encaminhava
para o lado dos banheiros. Mesmo assim, continuou se
aproximando do homem de terno bege.
- Betinho, que bom que voc�
chegou!!! - disse a mo�a de verde ao cumprimentar o
homem de bege.
Betinho, o homem de bege, n�o deixou
por menos, lascando um meloso beijo nos l�bios da
loirinha, que pareceu derreter diante de tal atitude.
- Parece que a noite come�ou boa
hoje... - disse Betinho, completando - Voc� est� linda,
Van. T�o linda que eu n�o resisti e te agarrei. Chega a
estar mais linda do que as formandas.
- Sempre canastr�o... - disse Van,
rindo, antes de ser outra vez atacada pelos beijos de
Betinho. Ap�s se desvencilhar dele, disse - Agora eu vou
ao banheiro. Fique bonitinho a� que eu j� volto.
- Voc� sabe que eu ficaria bonitinho
em qualquer lugar, gata - ele disse, fingindo ser
convencido.
Ela se encaminhou at� o banheiro, e
ele ficou sentado em uma das mesas preparadas para a
formatura, pensando na vida dali pra frente. Por�m, n�o
ficou pensando mais que dois minutos, visto que de
repente suas tripas pareciam ter dado um n�, t�o apurado
estava para ir ao banheiro.
E foi.
Mas antes tivesse cagado nas cal�as,
como ele pensou pouco depois.
Isso porque, logo depois que saiu do
banheiro, ouviu algumas risadinhas num corredor perto do
banheiro. Como parecia ser sua namorada, foi ver o que
estava acontecendo.
Virou o corredor.
Perdeu a cor.
Escondeu-se e ficou espiando.
Parecia ainda n�o ter digerido
direito as informa��es quando se escondeu. Parecia ter
visto Van com outro cara. E, enquanto espiava, parecia
ter visto os dois entrarem num quartinho onde os
encarregados pela limpeza guardavam alguns utens�lios,
vassouras, rodos, baldes, essas coisas.
E n�o viu mais nada. J� n�o era ele
no controle do corpo bem apessoado. Era outro, o seu
lado negro, que, obcecado pela desonra propiciada pela
garota, dava as ordens para o corpo executar.
E o corpo as executou muito bem.
Primeiro, foi at� a cozinha
improvisada ali no gin�sio, onde os cozinheiros
preparavam a comida, e os gar�ons recebiam instru��es de
como proceder. E pegou duas facas, bem afiadas, que
ficaram bem escondidas dentro das mangas do terno.
Depois, se encaminhou at� o banheiro.
Lavou bem o rosto, agora mais petrificado do que nunca.
E, finalmente, se encaminhou at� o
quartinho, para resolver seus problemas e recuperarsua
honra.
O que se seguiu depois foi muito
r�pido. O homem quase havia atingido o �xtase quando
sentiu o metal frio penetrando suas costas. Depois,
sentiu que outro peda�o de metal frio penetrou sua nuca.
E n�o sentiu mais nada.
Van estava paralisada, tomada pelo
horror. Logo depois viu as facas dilacerando seu
pesco�o, uma atingindo a jugular e a outra a car�tida.
Antes de perder a consci�ncia, ainda
olhou bem fundo nos olhos azuis, agora encravados num
rosto petrificado. Tinha agora n�o um olhar de terror,
mas sim de uma estranha ternura, os olhos j� ficando
cheios de l�grimas.
- Me...perdoe. - e desmaiou, sem
haver tempo suficiente para as l�grimas rolarem.
Naquele momento, foi como se seu lado
negro fosse outra vez trancafiado nas profundezas da sua
mente...e Betinho outra vez tivesse assumido o controle.
Ao olhar seu trabalho, duas vidas que pereceram perante
suas m�os, levou as m�os ao rosto.
N�o podia crer. N�o aconteceu. N�o
havia feito isso. Iria acordar dali a pouco, perceberia
que era tudo um sonho.
Ficou ali parado, im�vel, por uns dez
minutos, at� perceber que n�o iria acordar. Sim, havia
conseguido lavar a sua honra, mas a que pre�o? A mulher
que amava estava morta, mas mesmo assim n�o era isso o
que mais do�a.
O que ele n�o estava suportando era o
fato de que Van o amava. Podia t�-lo tra�do...mas o
pedido de perd�o antes do derradeiro suspiro fez com que
a culpa parecesse um c�ncer dentro de seu peito.
Culpa por ter assassinado duas vidas.
Culpa n�o por ter recuperado a honra,
mas por ela j� n�o ter import�ncia.
E a culpa j� n�o cabia em seu peito,
tinha que arrancar isso de dentro de seu cora��o.
Os metais penetraram fundo no peito,
querendo arrancar a culpa da alma. Tentou abrir o peito,
mas j� n�o tinha for�as para tanto. Viu Van, a mulher
respons�vel pela sua cegueira, pela sua c�lera. "N�o sou
eu que tem que te perdoar, voc� � que tem que me
perdoar", pensou.
E n�o voltou a pensar.
O Homem de Amparo