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A noite de Pagliacci
Um homem vai ao médico e diz que está deprimido. Ele se sente só, num mundo ameaçador e cruel, onde o futuro é vago e incerto. O médico diz: "A solução é simples. O palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá vê-lo, melhorará o seu astral." O homem começa a chorar e diz: "Mas Doutor, eu sou o Pagliacci."
Autor desconhecido
A esquina: encruzilhada de caminhos tão opostos quanto obscuros.
A noite: negro abismo sequioso do brilho em que se exaltam e se consomem todas as luzes.
O homem: solitário e taciturno.
Deteve-se na esquina. A lua oscilava entre as nuvens derramando um brilho pálido por sobre as ruas desertas. Precavido, olhou para um lado e, depois, para o outro, procurando a melhor forma de arriscar a vida ante a travessia. E, neste intuito, repentinamente deu-se conta de que a solidão era a única regra.
Seus lábios ingênuos até mesmo ensaiaram um sorriso, julgando cômica a caricatura que o inusitado lhe impingia. Mas a ingenuidade é tênue e passageira como um sonho, demasiadamente frágil e fugaz para furtar à consciência o gosto seco e anguloso da realidade: não tardou para que ele percebesse a vulgaridade de sua inocência em meio àquele jogo de dados viciados.
Com o horror a escorrer-lhe em gotas frias de suor, ele permaneceu, em plena catatonia, a observar o tom patético emanado por seus maneirismos, agora flagrados em bestial futilidade. Ele ergueu os olhos aos céus na esperança de que Deus o amparasse. As nuvens dissiparam-se abrindo espaço para que o luar se escancarasse numa estridente e debochada gargalhada.
Desesperado, vasculhou as ruas envoltas na penumbra procurando encontrar, num ponto qualquer, um sinal que por mais distante, por mais breve, por mais vago, fosse capaz de resgatar-lhe para além deste mundo de eternas suposições. Mas somente as sombras embaladas pelo luar emergiam do nada em sua companhia. Difusas e imprecisas. Débeis figuras tão incertas quanto sua própria travessia.
Tornou os olho aos céus e pela primeira vez viu nas estrelas as marcas do destino: por sobre o veludo negro, jaziam fragmentos de um cristal estilhaçado ao acaso. Ele contemplou a lua e entendeu o seu sorriso. Dentro de sí, uma ferida recém aberta, chorava e gritava a insensatez e a morbidez daquela estúpida piada.
PAGLIACCI
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