Meu Velho Pai


Lembro-me ainda, parece incrível!

Em meu berço deitado, às vezes brincando, às vezes chorando e outras vezes, porque não dizer, até pensando.

Sim, eu pensava. Pensava que já estava na hora dele chegar.

Ele chegava sempre no inicio da noite.

Passos cansados, paletó às costas, mangas arregaçadas.

Vinha direto para o meu berço.

Seu rosto se iluminava, seu sorriso se alargava, seus olhos brilhavam.

Ele se curvava me olhando, com aquele rosto suado, grande, porém formoso, pegava carinhosamente minhas mãos e, entre as suas que me pareciam enormes, me falava como sempre: "Meu garotão, o pai está aqui filho, pensei em você o dia todo, não o esqueci um só momento".

Eu não sabia o que estava querendo me dizer, mas, entendia aquela mensagem de tão grande amor e carinho.

Eu também lhe falava a meu modo e ele me ouvia, sentia a alegria que eu transmitia com tantos pulos, gritos que eu dava mostrando um grande sorriso sem um só dente para enfeitar.

A gente conversava muito então.

Eu sentia o seu calor, aquele suor que me parecia tão gostoso sentir...

Ele não se importava com os protestos de minha mãe.

Ela gritava, "venha jantar, vá tomar um banho, você deixa este menino mal acostumado".

Ele apenas ria. E eu também.

O tempo foi passando.

Esperava todos os dias por aquele rosto grande, suado e formoso que se debruçava sobre o meu berço e me dizia: "Meu garotão, o pai está aqui filho, pensei em você o dia todo, não o esqueci um só momento".

Do berço fui para a cama e já o esperava na porta pronto para me atirar em seus braços quando ele chegasse.

Era o mesmo rosto, o mesmo sorriso, o mesmo suor...

Fui crescendo. Meu rapaz dizia ele, juízo filho, seja um bom homem.

Ele estava presente em todos os momentos de minha vida.

Comecei a reparar seus cabelos brancos.

Seus passos eram pesados. Cansados.

Já não podia mais me atirar em seus braços embora eles que sempre me amparavam em todos os momentos difíceis de minha vida.

Suas mãos ainda sondavam a febre em minha fronte. Ele ainda rondava meu sono e me cobria carinhosamente nas noites mais tormentosas.

E os anos se passaram.

Vi seus cabelos branquinhos coroarem de uma beleza singela e máscula aquele rosto grande, aquele sorriso imenso e até suor...

Nossos caminhos já eram outros.

Eram seus netinhos que ele pegava no colo.

Eram eles que o beijavam com o mesmo amor que um dia o fiz também.

Por muitas e muitas vezes.

Ele me olhava agradecido e ainda brincava "Pensei que nuca mais fosse sentir o seu cheirinho...".

Mas veio um dia...

Eu estava longe.

Foi muito para mim. Encontreio-o ali. Deitado, inerte, com aquele grande rosto, sem o sorriso, e sem o suor.

Não pode me olhar, não me deu um sorriso.

Eu também não pude me atirar em seus braços.

Apenas, senti, ele estava morto!

Que tristeza meu velho!

Que saudade, meu amigo!



Autor: Rosalvo L. Tavares
1 1
Hosted by www.Geocities.ws