Dia dos Namorados

Dia dos Namorados. Tentei não percebê-lo, tentei não ligar a televisão durante a semana que o antecedeu, tentei de tudo para não ser contagiado por esse dia. Mas não houve como. Apenas se eu fosse um monge budista morando no cume de uma montanha que eu ia me livrar do Dia dos Namorados (e o pior, sem namorada).

Acordei aquela manhã como as outras. Tudo comum até eu sair a rua. Todo lugar que eu olhava eu via duas pessoas se beijando. Era perseguição! Só podia ser isso. Comecei a ficar com raiva de todos os amantes do mundo. Bando de gentinha piegas, melosas, que só sabem ficar sussurrando palavras ridículas no ouvido um do outro: 'chuchuzinho, minha gatinha, amorcito, amore mio' e tantas outras que deixam esse dia ainda mais entediante.

Refugiei-me na argumentação perfeita. Quando as pessoas me perguntavam como eu passava o Dia dos Namorados sem namorada eu lhes falava que isso era um grande jogo comercial feito pelas grandes lojas para ganhar dinheiro em cima dos consumistas enamorados. Assim como o Natal, o Dia das Mães e o Dia dos Pais. Eu já tinha minha retórica na ponta da língua:

- Tudo isso é marketing comercial. Onde anda o verdadeiro amor entre as pessoas? Porque precisamos dar presentes caros e sem significado ao invés de apenas ficarmos olhando os olhos da pessoa amada, dizendo o quão importante era estar ali ao lado dela e o quanto ela significa pra nossa felicidade?

Era perfeito. Todos entendiam meu ponto de vista e quase terminei o dia com uma namorada. Quase terminei com alguns namoros e quase juntei outros com tal afirmação. O importante, no entanto, era que eu não me sentisse isolado ou triste ou até mesmo 'solteiro' demais.

O dia estava terminando e eu tinha que fazer alguma coisa: comprei-me flores. Flores do campo bem bonitas. Ia por no meu quarto e dizer que uma admiradora secreta me deu. Fim de caso.

E até escrevi-me um poema.

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