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Imagine-se passando por uma terapia de vidas passadas e descobrindo que foi a �nica mulher letrada do har�m do Rei Salom�o, encarregada de escrever a hist�ria do povo judeu.






� Mulher de Burqa no Campo de Futebol *

Sil�ncio! Amorda�adas elas passam. Bocas costuradas, vontades domadas -assim eles pensam!- violentamente esmagadas pela sociedade que as quer dizimar. "Mas como se far�o mais fan�ticos sem as mulheres de burqa?" -pergunto ingenuamente a meus bot�es silenciosos. Se elas n�o podem ser tratadas por m�dicos homens e mulheres s�o proibidas de trabalhar, como sobreviver num mundo masculinamente hostil? Os homens do Taliban pensam que no silencio por tr�s dos v�us n�o h� pensamentos, revolta, �dio. Eles acreditam piamente que costurando as bocas, cobrindo os rostos, transformando-as em coisas sem forma, elas se encolher�o mentalmente e recolher�o tamb�m as vontades! Pobre Taliban irracional... Dentro dos turbantes n�o h� muito, j� se v�, pois que ningu�m -ouviu bem, Mr. Bin Laden?!- ningu�m domina o reino do pensamento. Esse � democr�tico por excel�ncia e jamais um ditador externo ali reinar�, por mais poderoso que seja! Porque eles negam-lhes educa��o depois dos 12 anos, cr�em que elas param de pensar.

As mulheres de burqa encolhem-se externamente e cobrem-se com o v�u da vergonha de n�o ser homem. As que se aventuram pelas ruas sem companhia masculina pertencente � fam�lia, podem legalmente ser chicoteadas, terem partes do corpo amputadas, ou mesmo mortas. Quietas, elas curvam-se ante a dor de calar e seguir, a dor de n�o ter direito sobre as pr�prias vidas. Elas n�o dizem palavra, mas as mentes trabalham mais que um formigueiro antes do inverno. As mulheres de burqa acocoram-se nas ruas poeirentas do Afeganist�o e estendem as m�os � caridade alheia; disputam com animais o que lhes seria destinado e, miseravelmente triunfantes, carregam para seus filhos restos de p�o mofado. Crian�as no Afeganist�o logram comer o que foi tirado de animais... As valentes m�es cobertas pelo burqa da inf�mia Talibanesca, n�o sentem vergonha por ter que pedir nas ruas. Elas se envergonham por verem seus filhos tratados pior que animais. Envergonham-se por n�o poderem trabalhar e trazer para casa um m�nimo para que seus filhos, condenados � morte aos cinco anos de idade, possam quebrar essa senten�a. A cada cinco crian�as no Afeganist�o, uma n�o completar� o quinto anivers�rio. Essas s�o as mulheres que n�o choram a perda dos maridos engolidos pelas guerras constantes; elas choram no sil�ncio das noites a perda do calor, da comida, da coberta, da casa que com eles se foram, da liberdade fict�cia de ir e vir que eles representavam.

As mulheres de burqa sussurram livros entre si. Agrupam-se em sua vida de sombra, tiram o v�u da vergonha que n�o sentem e pintam as unhas, maquiam os rostos, escondidas dos mil olhos do Taliban, expondo aos espelhos o pre�o da adultera��o de Deus. Cobertas dos p�s � cabe�a pela ignom�nia da religi�o levada a extremos, elas escondem do mundo o que s�o, verdadeiras obras de arte esperando serem desvendadas, admiradas, reflexos de imagens fugidias. No entanto, s�o seus olhos apenas que v�em no espelho quebrado. Como um grupo de p�ssaros chilreadores, elas se reunem no segredo de um quarto esquecido e alienam-se do mundo insano de pesadelo em que vivem. O pequeno quarto passa a ser a realidade que perderam, roubada pelos turbantes negros, as longas barbas manchadas de sangue de homens, mulheres e crian�as. Ali, elas fazem de conta que os cad�veres que o ex�rcito do Taliban deixam expostos a c�u aberto, s�o sementes ca�das em solo f�rtil, que florescer�o em profundos tons vermelhos. Vermelho, como o esmalte que espalham nas unhas irregulares, vermelho que desliza suavemente, em curvas elaboradas pelos l�bios firmemente cerrados.

Estou confortavelmente sentada em frente � televis�o. A tela exp�e a imagem de uma mulher em Kabul, sendo conduzida at� pr�ximo a goleira do que um dia foi um campo de futebol. A c�mera titubeia, testemunha escondida da monstruosidade de um regime totalit�rio que engole os direitos humanos, monstro nojento, de entranhas vermelhas do sangue dos inocentes. Pendurado � goleira, um boneco de teatro de fantoches -um corpo de homem balan�a molemente ao sabor da brisa. (Que horas s�o em Kabul?) Paralisados pelo terror que n�o querem admitir, meus olhos seguem a cena sem acreditar que � real. O mesmo soldado obriga-a a ajoelhar-se -representa��o m�xima da humilha��o, da perda do respeito ao ser humano, espelho do Taliban. O burqa esvoa�a lentamente como uma bandeira pedindo paz -in�til. Ela espera, visivelmente sem compreender o que faz ali, ajoelhada num campo de futebol onde um homem pende da goleira, enforcado. "Onde est�o os vinte e tr�s homens e a bola?", ela pensa, confusa. Meus olhos seguem a cena como que fascinados pelo terror do que, n�o consigo crer, vai acontecer. Os segundos s�o r�pidos, mas a cena se crava com �nsia de eternidade a minha mem�ria visual, convulsionado minhas noites, amargando meu caf� ado�ado com leite condensado, apertando minhas unhas no bra�o da poltrona como se fora minha pr�pria carne. Quisera eu punir-me, por n�o estar l�, abra�ando-a em toda sua fragilidade de m�rtir forcada! Outro soldado aproxima-se lestamente e encosta o fuzil na cabe�a da mulher. Imagino a sensa��o do metal frio na cabe�a dela, passando atrav�s do tecido do burqa. Mil�simos de segundos e minha mente pede por clem�ncia -que crime teria ela cometido, amorda�ada, despida de toda dignidade sob o burqa? Os segundos continuam passando numa velocidade monstruosamente calma -prova de que Deus n�o pode mudar o que j� passou. Um tiro e parte do c�rebro dela voa, caindo no ch�o, h� alguns passos. Meu rosto se umedece de l�grimas, mas meus olhos, teimosamente abertos, acompanham-na ainda. O corpo cai, im�vel, silencioso, um amontoado envolto pelo tecido do burqa que a cobre ainda, segunda pele. Meus dentes cravam-se nos l�bios, o suficiente para sufocar um solu�o e um grito de pavor. A mulher morreu em sil�ncio, sem esbo�ar uma �nica rea��o, ignorante do que ocorria a sua volta. Mas nem assim Bin Laden ou o Taliban possuem seus pensamentos. Ningu�m jamais saber� o que se passou na cabe�a dilacerada por um tiro � queima roupa. E, no entanto, a mulher de burqa triunfa em pensamento: a revolta dela agora mora em mim.

* O programa "Beneath the Veil -- Inside the Taliban's Afganistan", apresentado por CNN, trata das atrocidades que comento acima:

http://www.cnn.com/CNN/Programs/presents/index.veil.html


* National Review publicou um texto excepcional do antropologista Stanley Kurtz -"Veil of Fears", 28/01/02, pg 36-onde ele observa que o uso do v�u "� aceito por milhares de mulheres e homens Mu�ulmanos como uma das chaves para sua maneira de viver" e que "o Taliban jamais se preocupou em refor�ar suas regras [de uso do burqa] em �reas tradicionais".





Milla Kette






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