Segundos

   Meu nome é Carlos e tenho apenas 23 anos. Já fui de tudo: traficante, boxeador, assassino de aluguel e agora ladrão. Não tenho tempo para culpar tudo e todos pelos meus problemas, mas agora eu tenho um filho e uma esposa para sustentar. Minha esposa se chama Isabel, uma ótima mulher que de dia é empregada doméstica e na noite faz strip-tease nas casas noturnas de Porto Alegre. E eu estou desempregado e desesperado.

   Eu não queria pensar em roubar, mas no desespero fui obrigado. Comecei a pensar no meu filho de 3 anos e decidi que roubar era o único jeito. Eu e meu amigo Roberto planejamos entrar num ônibus e descolar uma grana. Ele tinha dois revólveres (as únicas coisas que seu pai deixou depois que morreu). O dia estava muito bonito para este tipo de coisa: o sol estava num brilho que eu nunca vi na minha vida, o céu era de um azul todo especial. Parado naquela parada, sozinho com Roberto comecei a rezar em silêncio.

   — Carlos, é agora. — Eu olhei para o rosto de Roberto e vi que ele estava pálido. E como ele, eu também estava nervoso. Depois olhei e vi no horizonte um ônibus chegando.

   — Boa sorte! Vai dar tudo certo, Roberto.

   Eu fiz um sinal para o ônibus parar e ele parou. A porta se abriu e com medo, mas muito medo, puxei a arma e gritei:

   — É um assalto! — Com a arma na mão e falando aquilo, me senti pela primeira vez na vida poderoso. Mas eu também pensei no meu filho e me veio uma vergonha de mim mesmo.

   — Sem pânico, pessoal. — Falou Roberto com uma calma de profissional.

   Comecei a olhar o ônibus e estudar a situação. Tem 12 pessoas na parte da frente e 6 na de trás. Roberto abriu um saco e começou a recolher as coisas de valores dos passageiros. Foi quando um filho da puta da parte da frente do ônibus levantou rápido e com uma 45 automática apontou para mim dizendo:

   — Parados. Eu sou da polícia.

   Meu amigo Roberto começou a atirar nos passageiros. E aquele filho da puta, em vez de atirar no Roberto, atira em minha direção. Eu vi como num filme em câmera lenta a bala sair do cano e começar a vir na minha direção. Comecei a lembrar de alguns momentos da minha vida. Lembrei das pessoas que falam que quando estão perto da morte pensam em questão de segundos em grande parte das suas vidas.

   Comecei a lembrar quando vi Isabel pela primeira vez em um bar pé-de-chinelo; lembrei quando fizemos amor na beira da praia; lembrei quando meu filho Lucas nasceu; lembrei da minha falecida mãe chorando porque eu estava viciado em cola de sapateiro; lembrei quando o Lucas fez um ano de idade; lembrei quando eu matei uma pessoa pela primeira vez; lembrei quando minha mãe morreu nos meus braços.

   Quando voltei em mim, vi que estava Roberto morto com um tiro na cabeça e o filho da puta do policial também morto no chão com muitos ferimentos a bala no peito e no estômago. Quando olhei para mim, senti que a bala tinha entrado no meu peito e lentamente comecei a cair no chão e fechar os meus olhos.

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Texto de Marcos Caldeira

Digitação de Rita Barboza



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