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A M�e

— N�o, Dora, ele est� mortinho.

— Ora essa, ele dorme! Isto N�O � morte.

— � sim. Esse a� n�o acorda mais.

— Vamos deixar o plantonista a par.

— Vai na frente, Cl�. Preciso antes terminar estas papeletas aqui.

— Vou ficar na lanchonete te esperando.

Aos quinze anos, veio Dora parar no hospital. Sua primeira fun��o — medida de precau��o da diretora, que viu na silenciosa menina presa f�cil e por demais tentadora para o seu amante, um m�dico-platonista, tamb�m casado — foi no necrot�rio.

No come�o, arrepios de medo e um choro que sufocava flagelando todo corpo. Sozinha na c�mara escura, desgrenhava os cabelos, amassava com as m�os o rosto, andava de lado a outro se beliscando. A� vinha a calma. Refeita, mantinha o controle diante de qualquer defunto, ganhando a admira��o de S. Delano e Souto, seus companheiros de servi�o.

Passou a preferir a sala dos mortos ao resto do hospital. Cantando baixinho, imaginava-se no mosteiro mais alto do mundo, nua em p�lo, cercada de aves mansas. Ou, quando em sil�ncio manipulava a claridade, criava um ambiente de sala de proje��o.

Vira muitos filmes com namorados os quais n�o conseguia lembrar direito, e seus modos eram reflexo das obras ditas de arte. Acabou se apaixonando pelo ritmo daqueles filmes e mais ainda pelos personagens de alguma forma isolados em suas tramas de ador�vel discri��o. Gostava, e muito, das coisas impl�citas. Associava as imagens granuladas ao seu trabalho e vida no necrot�rio. Cada fotografia era para ela um dia in�dito, mesmo que fosse c�pia fact�cia dos dias anteriores. No preto e branco amplo cabiam todas as suas fugas. Indistintos, sua paz, seus dias, sonhos e mortos.

Desde ent�o, passara a sentir a felicidade como um estado permanente. E jamais houve para ela algo como L'Alegria. Era s� estar ali.

Pediu aumento de carga hor�ria, iniciando-se nos exaustivos plant�es em per�odo integral. Vinte e quatro horas de trabalho por doze de descanso, dormindo como se morta estivesse, mas sem lirismo, sem firulas p�stumas.

Tanto apego n�o tardou a despertar na diretora a desconfian�a. Prontamente, a Doutora anunciou sua transfer�ncia. Iria � luz do dia, sob as vistas de todos.

Dora entrou em p�nico. Ap�s meses envolta em delicadas cortinas voltava a assanhar os cabelos, andando de um canto a outro da sala.

Foi dar com a cara numa das gavetas, l�grimas grossas pingando do queixo. Encostou a l�ngua na ma�aneta. Olhou o n�mero. Lembrou-se do morto ali dentro. Puxou-a.

Era um belo rapaz de n�o mais que dezoito anos. Um gigantesco e belo Rock Hudson. Trabalhado com refino, a ponto de se iluminar de modo diverso dos outros mortos. Dora o media com as m�os, atenta � ressurgida vitalidade do rapaz. Ligou uma l�mpada fraca. Deu-lhe as costas e foi parar numa mesinha encostada na parede. Voltou de pano na m�o, com qual vendou-lhe os olhos. Ele n�o tinha cheiro de morto. Perfumou-o metodicamente, enquanto se conteve.



Alfredo D.O.Filho

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