www.rabiscos.cjb.net




Imagine-se passando por uma terapia de vidas passadas e descobrindo que foi a �nica mulher letrada do har�m do Rei Salom�o, encarregada de escrever a hist�ria do povo judeu.







MEU VENTILADOR VERMELHO



Deitado na cama, olhava o ventilador de teto, girando e girando, refrescando , afastando o calor e as muri�ocas. Com a luz acesa dava para ver que era pintado de um vermelho vivo, verniz brilhante, t�o brilhante que cintilava, refletindo os raios de luz. E girava, e girava, causando um efeito hipnotizante, que provocou a chegada do sono. Apaguei a luz e, como diz o poeta. "entreguei-me aos bra�os de Morfeu".

J�, embaixo das cobertas, enquanto Morfeu n�o chegava, passei a rememorar o porque do verniz vermelho. Se voc� est� pensando que tem relacionamento com pol�tica de esquerda, com nacionalismo, comunismo etc, tem raz�o. Deixe explicar.

L� pelos anos de 76 ou 78, n�o preciso mais, j� estava eu em Guarajuba e, embora morando na praia, era atormentado pelo calor e pelos pernilongos, assim, quando um vendedor bateu palmas no port�o e anunciou "ventiladores de teto", o acolhi com alegre curiosidade. Sem hesitar, mandei-o entrar e pousar seus carregos. Mas, quando come�ou a falar em "portunhol", esfriei. Lembrei-me de recentes aventuras no mundo subterr�neo da resist�ncia, em Buenos Aires e me acautelei.

Achei interessante a maquina que me mostrou, um ventilador potente, pendur�vel no teto e que refrescaria todo o ambiente. Era novidade, pelo menos aqui. Fechei rapidamente o negocio e, enquanto era montado o equipamento, pendurado no teto, feita a instala��o el�trica e posto a funcionar, entabulara conversa com o vendedor, sondando-o, ainda precavido. Disse-lhe que, como turista conhecia grande parte da Argentina, seu pais natal. Ele, chamar-se Carlos e eu passei a denomina-lo, ent�o, de Gardel , em homenagem ao maior argentino, Carlos Gardel, portenho, como ele.

Conversamos bastante, pois o servi�o demorara 2 horas e ele ficara para almo�ar comigo. Aos poucos foi contando que estava refugiado, embora inocente, jurava. Mas, quando lhe fiz um sinal, secreto e conhecido por poucos, mesmo na Argentina, abriu-se e confessou-se membro dos "tupamaros". Estava na Bahia apenas para descansar, nada mais. Alertei-o para a "Opera��o Condor" e o mandei ir adiante. Que procurasse em Salvador "algu�m", que conhecia "outrem", que o despacharia para mais longe. Soube que embarcara, logo depois e nunca mais o vi.

Trocamos correspond�ncia espa�ada, por muitos anos, e � distancia fizemos �ntima amizade. Em 98 soube de sua morte, em paz, com a fam�lia na Argentina. No mesmo dia o ventilador pifou.

Levei algum tempo, at� resolver reforma-lo. Mandei enrolar o motor, trocar algumas pe�as, inclusive as p�s de alum�nio, enfim, gastei o pre�o de dois novos. Mas, aquele era o "ventilador". Pintei-o de vermelho vivo, em l�gica e saudosa homenagem ao "Gardel" e passei a cham�-lo de "Boris, o vermelho", titulo do livro que Jorge Amado nunca acabou de escrever.

E, enquanto Morfeu, o deus grego do sono n�o chegava, fiquei a matutar. H� pessoas, a quem n�s conhecemos a vida toda e que n�o nos dizem nada. � como se nunca tivessem existido. Ou, como se fizessem parte do cen�rio no palco da nossa vida. Outras, como no caso do Gardel, com quem temos um breve encontro, num fugaz instante da nossa exist�ncia e que nos marcam com tanta for�a que passam a fazer parte da nossa exist�ncia.

E, interessante, logo depois que ele se foi, n�o conseguia mais lembrar de sua fisionomia. Passou a ser um vulto na minha mem�ria, mas que n�o sa�a dela. Quando, enfim, anos depois, bastante depois que j� t�nhamos iniciado correspond�ncia, � que pedi-lhe, a pretexto de conhecer a sua fam�lia, o retrato que, j� esmaecido, guardo at� hoje. E, interessante, na fotografia n�o se parecia nada com a figura que eu imaginava. Por qu�?

E, enquanto Morfeu, o deus grego do sono n�o chegava, continuei a navegar na mem�ria e me lembrei de um filme ingl�s, visto no distante ano de 42 ou 43. Um casal desce de um trem numa pequena esta��o de baldea��o numa nevoenta, �mida, escura e fria noite. N�o se conhecem, ambos j� maduros na idade s�o os �nicos ocupantes da sala onde se refugiam. Come�am a conversar e por motivos diversos, ambos est�o traumatizados, fr�geis e procuram abrigo e apoio um no outro, se abra�am, se beijam e se apaixonam. A procura de um lugar onde possam dar vaz�o a paix�o, atravessam os trilhos em busca de um albergue defronte. Mas n�o encontram vaga; o decadente hotelzinho est� lotado. Voltam desiludidos, � sala fria e se abra�am, como se quisessem aquecer um ao outro. O apito de um trem que chega � esta��o os faz despertar para a realidade; � o trem dele, o dela vir� depois. Se separam desesperados, ele embarca e da janela do trem que se distancia, acena para ela que fica, em lagrimas, no meio das brumas na escura esta��o.

Filme bobo. Mas, o rapazinho que o assistiu, l� se v�o sessenta anos, nunca o esqueceu, Chamava-se "Brief Encounter", que quer dizer "Breve Encontro", em ingl�s. Duas almas que se cruzam num �timo de tempo e se marcam para sempre.

Como o breve encontro que tive com CARLOS, o "GARDEL" , de quem nunca esqueci.

E meu ventilador vermelho, o "Boris" continua girando, girando, girando ... e Morfeu n�o chega ...








LUCIANO COSTA REIS [email protected] tel 0.xx.71.674.1276 agosto - 2001





Hosted by www.Geocities.ws

1 1