Nunca Estamos Sozinhos...
De repente, n�o mais que de repente, me senti abandonado, sozinho, inteiramente s� em todo o universo. Os carros que passavam velozmente pelas movimentada avenida e os milhares de pessoas que, apressadas, deviam estar voltando para casa, me faziam sentir como uma poeira c�smica no meio do movimento dos corpos celestes. Era ao cair da tarde. Estava sentado num banco de pracinha arborizada, junto a uma coluna, acho que a alta e feia Coluna de Constantino. Mas estava de costa e n�o a admirava; olhava hipnotizado para o transito veloz e confuso. Foi quando o cansa�o bateu. Um cansa�o ao mesmo tempo f�sico e mental. Havia passado o dia andando e andando, percorrendo todo o "Pal�cio de Topkapi", pela manh� e o enorme "Grande Bazar", agora � tarde. Sentia as pernas doendo. N�o conseguindo parar um taxi, sentei-me no primeiro banco que encontrei, a beira de uma das mais movimentadas avenidas de Istambul.
Sim, estava na distante e misteriosa Istambul, Constantinopla como muitos ainda a chamam. Como vim parar aqui? � outra hist�ria. Refugiado na Europa, mas especificamente, em Portugal, recebi uma verba extra e resolvi fazer uma viagem, para desaparecer. E desapareci de tal maneira que j� nem sabia quem eu mesmo era. Meu passaporte portugu�s, autentico, fornecido por uma organiza��o semelhante � "Anistia Internacional", dizia que eu era um tal de Manuel Morgado. � terr�vel voc� ter que se despojar de sua identidade. Essa talvez tivesse sido a gota d'�gua que fez transbordar todo o fel que vinha armazenando, agravada pela completa aus�ncia de calor humano. Ningu�m, ningu�m conhecido. Nem fam�lia, nem parentes ou amigos, ningu�m.
A visita �queles magn�ficos lugares, havia sido feita na hora errada. Realmente ficara deslumbrado pelas riquezas do Pal�cio e por tudo de ex�tico e curioso do imenso Mercado, mas contraditoriamente, haviam me deprimido e revoltado.
Porque tanta coisa bonita neste mundo, ao mesmo tempo que tanta mis�ria humana?
N�o tenho certeza, ainda hoje n�o tenho certeza, mas � prov�vel que a velocidade dos ve�culos passando bem perto de mim, tenha tido um efeito hipnotizante e me induzido a buscar um fim para todos os males que me afligiam. Foi quando senti um bolo crescendo dentro de meu peito e ent�o soltei um grito angustiado:
- "Poooooorrrrrrrrrrrrrrrrrraaaaaaaa !!!", e repeti: "Pooorrrrrraaaaa !!!" e desabei a chorar com o rosto enterrado nas m�os.
- "O que � isso companheiro ? Que � que est� acontecendo ?" Uma voz grossa, me interrogou.
- "Nada, apenas estou me sentindo sozinho e triste." Respondi automaticamente.
- "Mas voc� n�o est� mais s�, eu estou aqui." Continuou a voz rouca.
Espantado, levantei os olhos e atrav�s da n�voa que os turvava, avistei aquela figura imensa de um enorme guarda fardado. Imediatamente, me veio a mente a figura do "Sargento Garcia", o infeliz perseguidor do "Zorro". A cara redonda, com grandes bigodes e a barba por fazer, a enorme barriga e a farda estranha, ajudavam a refor�ar a id�ia.
- "Mas, fala portugu�s. Voc� � brasileiro?" Perguntei, espantado.
- "N�o, sou turco mesmo, mas morei muito tempo em S�o Paulo. Meu nome � complicado, portanto me chame de Mustaf�, que � como me chamavam no Brasil. O que se passa contigo? Porque o choro?
Enrolei. Disse a ele que era saudade da fam�lia, separado que estava h� muito tempo. Sentia-me muito sozinho e abandonado.
- "Estou largando o servi�o. Venha comigo. Quero que conhe�a minha fam�lia. Minha 'n�ga' � paulista e tenho uma quadrilha de meninos".
E me ajudou a levantar e me arrastou at� onde estava seu carro. Um autom�vel t�o velho que a nem mais marca tinha. Informei-lhe que tinha que voltar ao navio antes das dez horas.
- "Ainda s�o s� 6 horas. Quero que prove o "Kusu Pirzolasi" que a patroa faz. � cordeiro no forno. Uma delicia. E vamos beber um "Raki" maravilhoso que eu mesmo preparo. N�s moramos perto do porto e depois, eu lhe levo l�. Deixe comigo."
Passei tr�s horas agradabil�ssimas, tomei ch� de ma��, de rosas e n�o sei de que mais, comi e achei maravilhoso o cordeiro que a Isabel preparou e me fartei com os doces folheados, Joguei bola com os meninos que falavam um pouco de portugu�s. Me despedi com tristeza. Todos os maus pensamentos tinham desaparecido.
No caminho para o porto, olhando para aquela estranha figura � que me dei conta. Ele deveria ser, s� poderia ser, n�o podia ser ningu�m menos do que o meu Anjo da Guarda de plant�o naquele dia.
E, ao p� da escada que me levaria a bordo, abracei aquele corpanzil enorme e, como a emo��o n�o permitia palavras, estiquei-me nas pontas dos p�s e beijei-lhe as duas gordas bochechas.
- "V� tranq�ilo." - disse-me ele. E nunca mais o vi.
LUCIANO COSTA REIS
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agosto - 2001