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Imagine-se passando por uma terapia de vidas passadas e descobrindo que foi a �nica mulher letrada do har�m do Rei Salom�o, encarregada de escrever a hist�ria do povo judeu.







O Professor


Do bonde que chegava �s duas horas da tarde, no fim de linha de Amaralina, onde hoje fica o �Quiosque das Baianas�, saltava, invariavelmente, um individuo corpulento, todo vestido de preto. Cara amarrada, n�o olhava para ningu�m, desconhecia a todos. Descia para a praia, andava pelo lado do bar, passava em frente � nossa casa e ia se sentar na deserta e erma ponta de areia, a cavaleiro do mar. Isso, em todos os dias da semana, exceto aos domingos e feriados.

Sentava-se solit�rio e tirava do bolso um livro e punha-se a ler; em longos intervalos, repousava-o nas pernas e alongava o olhar por mar adentro, fitando o distante horizonte. N�o se mexia: ficava inteiramente im�vel. Seu rosto impass�vel, nada demonstrava.

Ao escurecer, levantava-se, sacudia a areia e voltava pelo mesmo caminho. No bar, pedia educadamente um copo d��gua; num banquinho esperava a chegada do bonde e, assim como chegara, nele ia de volta � sua origem.

J� est�vamos em Amaralina, em nossa casa de praia, para passar as f�rias de 1939 ou 40 (a mem�ria n�o me deixa precisar), e em busca de recuperar o tempo perdido, eu vivia o dia todo na praia e nos arrecifes da beira do mar, pescando ou mergulhando nas piscinas naturais. Logo notei a sua presen�a e na minha inata, inconveniente e irreprim�vel curiosidade, procurei �puxar conversa�, todavia ao me aproximar, fechou mais a cara e a enterrou no livro. Continuei o caminho, pois era curioso mas n�o mal-educado.

Ningu�m sabia quem era esse misterioso personagem; por semanas observei a sua imut�vel rotina e procurei descobrir o que ele tanto fitava no imenso oceano. Algumas vezes, pensei v�-lo falando ou, talvez, declamando uma poesia, dirigindo-se a algu�m no meio do mar. Mas, posso ter me enganado.

At� que afinal, o mist�rio foi, em parte, desfeito. Antonio, um irm�o de Zunara, de uma fam�lia que chegou para veranear perto de n�s, estudante no Gymn�sio da Bahia, o identificou: Tratava-se de um professor, catedr�tico, muito conceituado, respeitado e querido dos alunos do curso Cl�ssico; ensinava Latim e Portugu�s, suas aulas eram brilhantes e, geralmente terminavam sob aplausos. Entretanto, o porque daquele estranho procedimento n�o p�de justificar. �Deve fazer parte da mudan�a de comportamento que apresentou ap�s a morte de sua esposa e a sua depress�o subseq�ente.� E contou o que era de seu conhecimento.

�Era extremamente bem-educado, cumprimentando, cordialmente, colegas, alunos e funcion�rios . Vivia ainda, os momentos de euforia, causados pela sua vit�ria no concurso a que se submetera para a c�tedra de Portugu�s e suas aulas, bem preparadas, eram seguidas atentamente pelos alunos. Nas aulas de Latim, chegava a se entusiasmar quando declamava seus poetas preferidos, ao ponto de atrair professores e alunos de outras classes, atravancando a entrada. At� que sua jovem esposa, veio a falecer depois de r�pida enfermidade.

A mudan�a foi triste; n�o dizem que foi total, pois que seus deveres, seu procedimento, sua educa��o, sua etiqueta permaneceram irrepreens�veis. Mas os sorrisos, as alegres tiradas e os fatos pitorescos com que costumava enfeitar suas aulas, desapareceram por completo. Chegava ao Gymn�sio no exato hor�rio e se dirigia diretamente � sua sala. N�o cumprimentava, n�o falava com ningu�m e sem, sequer, olhar para os alunos, come�ava sua prele��o que, contudo, continuava brilhante. Nos intervalos, escondia-se na biblioteca e, conclu�das as aulas desaparecia do pr�dio. O homenzarr�o que tinha sido, minguava a olhos vistos. E ningu�m conseguia ajuda-lo; n�o admitia aproxima��o.�

Passei ent�o a observar o professor, embora sempre de longe, com outros olhos. O menino que eu era ent�o, 12 ou 13 anos, passou a compreende-lo. E, quando ele fixava o olhar num distante ponto, eu mirava na mesma dire��o e, juro, algumas vezes eu �via� ou �sentia� que havia qualquer coisa l�. Uma nuvem, uma mancha, uma sombra, n�o sei.

Dois meses, se tanto, passaram-se e numa tarde em que voltava de uma pescaria distante, percebi que ele estava deitado, o que era inusitado. Corri e vi logo que estava morto, Nunca tinha visto um cad�ver, mas a intui��o me ensinou. Estava, deitado de lado e seus olhos permaneciam abertos, olhando para aquele mesmo ponto no horizonte. Na sua face havia um sorriso de alegria. Afirmo, garanto; por mais que queiram me desmentir, ele sorria, sorria sim.

Nem a lata de Formicida Tatu, nem a garrafa de Guaran� Solim�es vazia, ao seu lado me convencia de que n�o houvesse uma paz celestial irradiando dele e aquilo em seu rosto n�o fosse uma riso de felicidade. N�o adiantava o m�dico legista me falar de um tal de �ricto cadav�rico�, que a morte por envenenamento era a mais cruel poss�vel e que seu rosto estava crispado num esgar, numa careta de dor. Eu sabia o que tinha visto em seus olhos! Eu sabia o que ele vira!

SUA AMADA TINHA VINDO BUSC�-LO.

Depois que o legista, a policia, os parentes colocaram seu corpo num caix�o e o levaram at� o rabec�o, permaneci sentado perto de onde o tinha achado. J� era noite alta, fazia frio e s� a luz do lampi�o a g�s iluminava o local. Meu pai j� havia mandado me chamar; ficaria mais um pouco respondi. Deixei as ultimas lagrimas enxugarem e s� ent�o, me movi. Foi quando levantei o lampi�o que encontrei o livrinho de capa dura e ar antigo, ca�do na areia. Era do tipo dos que o professor costumava ficar nas m�os por horas. A claridade era insuficiente, levei-o para casa. L� poderia l�-lo. J� o considerava meu; o professor havia deixado para mim, n�o tive d�vidas.

Li na capa: SONETOS de Luis Vaz de Cam�es.

Abri onde um pequeno marcador de couro velho me conduzia e li:

Alma minha gentil, que te partiste
T�o cedo desta vida, descontente,
Repousa l� no C�u eternamente
E viva eu c� na Terra sempre triste.

Se l� no assento et�reo, onde subiste,
Mem�ria desta vida se consente,
N�o te esque�as daquele amor ardente,
Que j� nos olhos meus t�o puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da m�goa, sem rem�dio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que t�o cedo de c� me leve a ver-te,
Qu�o cedo de meus olhos te levou.

Sim, a pen�ltima linha estava sublinhada com um tra�o vermelho; era a sua confiss�o. Minhas constantes leituras de livros policiais, devorador contumaz dos livros de Edgar Wallace, Agatha Cristie, Conan Doyle, S. S. van Dyne, Ellery Queen e de todos os outros que tinha oportunidade de pegar, j� me faziam raciocinar como policial. N�o havia d�vida: Ele se matara, ou, como dizem hoje, cometera o tresloucado gesto. Esperara por Deus leva-lo cedo, como pedia. N�o sendo atendido, tomou suas pr�prias medidas. Tive muita pena dele; professor catedr�tico, homem super inteligente fazer uma coisa assim... E isso me marcou para o resto da viida.

Eu come�ara a conhecer qu�o terr�vel era o tal do Amor ....










LUCIANO COSTA REIS
[email protected]
nov - 2001





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