O que se entende por irracional? O que nos vem em mente quando constatamos que algo é irracional ? Um comportamento irracional é aquele que, como o próprio nome diz, é livre da razão : impensado e instintivo. Assim, um comportamento irracional é aquele que é comandado por uma força não racional, ou seja que não envolve o uso da razão. A conduta irracional é freqüentemente ligada aos animais que não o homem. Existe até uma divisão (unânime e incontestável) entre os animais irracionais e os animais racionais, sendo que os animais racionais são representados apenas pela espécie humana. O título deste texto pode parecer um absurdo; não é difícil que cause espanto em alguns que vierem a ter contato com ele, pois ele trata de um assunto extremamente delicado e polêmico. No entanto, é extrema ingenuidade pensar no homem como um animal plenamente racional, livre de instintos ou qualquer motivação denominada irracional, pois alguns elementos da irracionalidade ainda estão presentes na espécie humana, sendo que alguns não se encontram em nenhuma outra espécie, ou seja, são peculiares à espécie humana. A antropologia e a biologia provaram que muitas das leis naturais que regem o comportamento dos animais irracionais são válidas também para o homem. O que tentarei mostrar neste texto é que o homem civilizado, que julga viver "sob o domínio da razão", na verdade também possui a sua irracionalidade pois a vida em meio a civilização também é regida pela mais conhecida lei da natureza : a lei do mais forte, a luta pela sobrevivência. Mas que fatores são esses que me levam à idéia de que o ser humano também possui um caráter irracional, além do racional que já lhe é notório ?
É muito fácil observar a irracionalidade humana, basta sair a esmo pelas ruas de uma grande cidade e constatar-se-á com grande rapidez, que o ser humano possui impulsos irracionais tão poderosos quanto os racionais, e que a crença na razão como sua principal força criadora seja, por si só, uma irracionalidade. Na cidade a ausência da razão é perceptível principalmente no comportamento das pessoas que é puramente mecânico e padronizado, sendo que qualquer conduta ou padrão diferentes daqueles valorizados pelo "senso comum" são cruelmente reprimidos pela maioria das pessoas, visando a manutenção da ordem social. Esses padrões, ou verdades sociais, são tidos como incontestáveis; questioná-los ou desobedecê-los é uma prova de imaturidade ou imoralidade, constituindo um comportamento não-valorizado. Assim sendo, o homem como indivíduo, não pode exercer o seu poder de análise racional sobre a sociedade em que vive, e mesmo que assim o faça, não agirá de acordo com suas convicções, pois tem medo de ser discriminado pela mesma. O indivíduo prostra-se diante do poder social e dos valores morais, sem que nem ao menos tenha-os investigado à luz de sua própria razão; ele simplesmente os aceita, sem questionamentos e sem ressalvas.
Marx, com seu método dialético baseado nas idéias de Hegel, foi um dos primeiros a perceber que a sociedade faz o indivíduo, e não o contrário, como se pensava até então. A crítica que Marx fazia à sociedade capitalista do século XIX inclui também uma atenção especial no tocante à alienação. As idéias disseminadas pela sociedade são aceitas pelo indivíduo de uma forma mecânica, o que constitui, na realidade, uma forma de alienação. Assim o indivíduo é dominado pela sociedade, sem nem ao menos poder perceber isso - Marx ainda vai mais longe ao afirmar que as idéias individuais são fruto do meio em que se vive, e que portanto estão relacionadas com a classe social do indivíduo. Os pensamentos comuns à sociedade, ou seja, aqueles destinados à manutenção da ordem social vigente, são o que Erich Fromm chamou de "caráter social". Em um livro onde discute os temas comuns entre as idéias de Freud e Marx, ele atenta para a existência de dois componentes : um caráter individual e um caráter social. O que Fromm tenta fazer nesta obra é um casamento entre as idéias dos dois, ao constatar a interdependência entre indivíduo e sociedade, procurando uma síntese entre as duas teorias, isto é, uma lei que valha tanto para o comportamento individual como para o comportamento social. Mas, como ele mesmo procura afirmar é inegável o imenso poder de dominação que a sociedade exerce sobre o indivíduo, e embora sua individualidade seja ameaçada pelos interesses sociais, isso não chega a constituir uma completa negação da sua individualidade
As idéias da sociedade são implantadas no inconsciente de cada indivíduo através do processo da educação, ou seja na infância onde o homem tem sua razão ainda pouco desenvolvida, sendo que a Família e a Escola desempenham papel fundamental na formação do discernimento moral do indivíduo. E vale lembrar também que os primeiros preconceitos são aprendidos nessa fase, principalmente por intermédio da Família. A criança, ingênua e livre de preconceitos, durante toda a sua infância é bombardeada por um mar imposições morais, que se alojam em seu inconsciente e passam a fazer parte de sua personalidade. Quando se torna adulto sua razão não pode mais se livrar desses conceitos moralmente válidos, sendo que todo o tipo de pensamento que não obedeça aos valores morais da sociedade, ou a comportamentos pré-estabelecidos, são inconscientemente reprimidos por si próprio, mesmo que isso seja agressivo à sua natureza. O efeito mais catastrófico de tudo isso, segundo meu ponto de vista, é a crença que todo o homem social tem (e que também se trata de uma crença imposta pela sociedade, no sentido de que esta não se mostre como um inimigo da razão individual) de que possui idéias próprias e de que seu pensamento não é influenciado pelo pensamento da sociedade. Considera-se imune ao poder alheador da sociedade e que a construção de sua moral resultou de um processo racional estabelecido por si próprio, sem qualquer interferência social - assim tem uma falsa percepção de liberdade, que também lhe é transmitida pelo pensamento coletivo. Sob essa crença de liberdade de pensamento e atitude, o indivíduo escolhe entre os poucos comportamentos socialmente aceitáveis, aquele que mais condiz com sua natureza, suas percepções morais e sua posição social, e segue esses padrões de conduta à risca, apenas com leves ajustes à sua realidade pessoal, julgando-se plenamente satisfeito (felicidade e satisfação muitas vezes não são sentimentos próprios do estado do espírito do indivíduo, tratando-se de falsas convicções introduzidas por uma vontade de aceitação ou auto-afirmação perante à sociedade). Esses sentimentos, que fazem parte do inconsciente coletivo, traduzem-se em uma espécie de otimismo insensato, isto é, otimismo irracional, um sentimento de esperança que está presente em quase todos os indivíduos e que os distancia ainda mais da razão individual. A sociedade não permite ao indivíduo que ele olhe para dentro de si, que ele descubra o mundo por si próprio. A esse processo de alienação às vontades e necessidades individuais e de aceitação irracional às regras da sociedade dou o nome de resignação. À primeira vista, "resignação" pode parecer uma denominação um pouco forte, mas declaro desde já que ela é um dos fatores mais importantes para que o homem possa viver em sociedade; ela é necessária ao convívio social, e sem ela seria impossível pensar em civilização. A resignação atua na banalização de comportamentos como por exemplo andar vestido e comer utilizando talheres, levando o indivíduo a aceitá-los com a maior naturalidade, o que torna quase impossível a ele ver esse conformismo. A própria noção de maturidade que nos é transmitida pela sociedade constitui na verdade em conformismo; o sujeito maduro é aquele que é resignado, conformado.
Falando sobre resignação, surge uma questão importante, que diz respeito a como provar a necessidade de resignação do homem civilizado. Ela é a força que condiciona o comportamento social, e já foi possível observar que trata-se de um fenômeno puramente irracional, onde a sociedade subjuga o indivíduo às suas regras, sem que esse possa recorrer à sua razão. A resignação está intimamente ligada aos valores morais da sociedade, e pode se atribuir a ela a preservação da ordem social. No entanto, faz-se necessário mostrar a força que age contra a resignação, a força que condiciona o indivíduo, o egoísmo. O egoísmo é mais uma manifestação irracional é o princípio de todo o comportamento individual; sendo assim, as ações individuais, voluntárias ou involuntárias, têm sempre o propósito do benefício individual. Egoísmo também é uma palavra muito forte, tem um significado quase sempre relacionado a um sentimento vil, mas se considerarmos ele como uma força vital, ou seja, a força que mantém o homem vivo, seu uso pode ser facilmente entendido. O homem é movido por um instinto de sobrevivência e o egoísmo está presente nesse instinto, nessa vontade de sobrevivência. A vontade, como uma manifestação egoísta, é o princípio do comportamento humano, como já foi dito por Arthur Schopenhauer. (Essa vontade foi traduzida por Freud como a libido, ou vontade sexual.) O homem não é capaz de fazer nada que acredite que não lhe cause prazer ou satisfação, mesmo diante de situações adversas e do sofrimento ele procura "se sentir da melhor maneira possível". Assim, o homem vive porque acredita que a vida lhe é benéfica, porque tem prazer em viver. O suicídio também é um ato egoísta, onde o homem, incapaz de conviver com o sofrimento prefere morrer a continuar vivendo sem vontade. O egoísmo está presente até em pequenas coisas como o ato de respirar, que é um ato egoísta, pois visa manter a sobrevivência do indivíduo; é uma necessidade vital. Ele pode ser entendido como a força responsável pelas necessidades e vontades individuais, sendo o responsável por todos os sentimentos, pensamentos e ações humanas.
Os sentimentos também são uma manifestação do egoísmo instintivo do homem. Como já dizia Nietzsche, o homem ama o sentimento que tem pelo objeto de desejo e não o objeto em si. Assim, o aparecimento de um sentimento pode ser entendido como uma tentativa de satisfação de uma vontade individual, visando o bem-estar próprio. Mesmo o amor, o mais sublime dos sentimentos, também está baseado no princípio egoísta de satisfação pessoal. Os sentimentos podem assumir uma proporção patológica senão houver a satisfação da vontade ou necessidade, e quando isso acontece põem em risco a vida do próprio indivíduo "detentor do sentimento". Um amor doentio e não correspondido pode levar o indivíduo ao suicídio, ou a cometer qualquer outro tipo de atentado contra a própria vida ou a de outrem. Quando está tomado por um sentimento, o homem revela a sua face mais egoísta, procurando a satisfação a qualquer preço. Os sentimentos geram uma inquietação, e só com a eliminação dessa inquietação é que eles desaparecem. Há uma crença de que a razão pode dominar os sentimentos, mas vejo isso como uma afirmação infundada. Sentimentos ocupam um lugar muito mais importante do que a razão na vida do homem, é mais fácil que eles controlem a razão do que a razão os controle. Esse é mais um indício da irracionalidade humana : o seu caráter sentimental.
Desde o início da filosofia, na Grécia Antiga, muitos filósofos já percebiam o poder dos sentimentos e das sensações na vida do homem. Parmênides foi um deles, que viu os sentimentos como uma força que corrompia a razão individual. Ele considerava o mundo dos sentimentos como um mundo irreal, e que devíamos nos livrar dele em busca do verdadeiro mundo : o mundo da razão e do pensamento. Ora, no entanto vemos que isso é impossível pois os sentimentos são características naturais ao homem e que um homem livre de sentimentos e sensações, trata-se apenas de uma especulação metafísica. A busca pela razão plena é o principal objetivo da filosofia e de todas as outras ciências, porém, não creio que seja possível ao homem chegar a um ponto de conhecimento total, de verdades absolutas, pelos motivos que já explicitei acima e por muitos outros. A vida do homem é governada por uma não-razão, e assim acredito que aconteça com o universo. Mesmo que o universo tenha uma lógica isso não quer dizer que ela possa ser alcançada pela razão humana; acredito ainda que a crença de que se pode chegar a um entendimento sobre todas as questões sobre o universo e sobre a vida seja uma conseqüência da limitação intelectual do homem.
Dentro desse assunto cabe a discussão : o homem é limitado em sua razão, mas será que também é limitado em seus sentimentos ? Tudo o que foi dito acima, resume-se em afirmar que a capacidade sentimental do homem é maior do que a sua capacidade racional, mas será que há limites para os sentimentos ? Devo admitir que não tenho respostas para essa pergunta, pois para respondê-la seria preciso iniciar uma análise racional sobre os sentimentos, o que não levaria a lugar algum, pois sentimentos não podem ser entendidos pela razão. Mesmo que haja limitações para os sentimentos humanos não é possível percebê-las, pois a distinção de limites é algo próprio da razão. Para sentimentos não se consegue ver seus limites, nem muito menos quaisquer outros conceitos de quantidade, qualidade, relação ou modalidade (classes das intuições a priori instituídas por Kant). Admitindo os sentimentos como a maior das propriedades humanas, pode-se efetuar uma análise baseada na razão sobre o comportamento humano, sem no entanto entrar no campo dos sentimentos em si.
Sendo o egoísmo o sentimento maior, que controla todos os outros sentimentos, não se pode achar limites pare ele também. Sua intensidade varia de indivíduo para indivíduo, não sendo algo imutável, mas é possível perceber que é natural do homem, vem do próprio instinto de sobrevivência. Atrevo-me até a afirmar que o homem é o mais egoísta de todos os animais, e a isso se deve toda a sua evolução. A necessidade de dominar a natureza, de subjugá-la, de entendê-la - ora, isso não seria a mais clara constatação de que o egoísmo do homem é o principal motivo de sua evolução ? Até a própria razão é movida por esse egoísmo, pelas necessidades e vontades humanas. Esse instinto egoísta do homem em muito se aproxima com o instinto dos outros animais, e tudo me leva a crer, que o homem é um animal tão irracional quanto os outros, mas que possui propriedades que nenhum outro animal tem, daí a diferença. "O homem no fundo é um animal selvagem e terrível. Nós os conhecemos unicamente no estado subjugado e domesticado, denominado civilização : por isto nos assustam as eventuais erupções de sua natureza.", essas palavras de Schopenhauer definem bem aquilo que penso a respeito do homem e da civilização. O convívio social é na verdade, a tentativa de "domesticação" do homem; esta só é possível através da já citada resignação, ou aceitação aos padrões sociais, que reprime esse egoísmo individual, visando a manutenção da sociedade. Porém, o fato de o homem encontrar-se nessa forma "resignada", não quer dizer que tenha abandonado seus instintos selvagens por completo.
Freud também atentava para essa agressividade natural do ser humano, e via o egoísmo individual como uma ameaça à sociedade : "A sociedade civilizada está perpetuamente ameaçada de desintegração por meio dessa hostilidade primária dos homens uns contra os outros.". Assim, o maior inimigo que a sociedade pode ter é o indivíduo, ou melhor, os interesses individuais. Para evitar que os indivíduos destruam a sociedade, esta exerce uma dominação muito grande sobre todos eles, estabelecendo uma série de imposições que não podem nem ao menos ser contestadas. A sociedade exerce seu domínio sobre o indivíduo impedindo-o de pensar, e até mesmo de sentir. Freud ainda acrescenta : "Homo homini lupus; quem tem coragem de contestar isto em face de todas as provas em sua própria vida e na história ? Essa crueldade agressiva geralmente fica à espera de uma provocação, ou então, entra a serviço de outra finalidade, cuja meta pode também ter sido alcançada por medidas anteriores. Em circunstâncias, quando as forças da mente que comumente a inibem deixam de atuar, ela se manifesta igualmente de forma espontânea e revela os homens como animais selvagens a quem é estranha a idéia de poupar seus semelhantes.". O que Freud quis dizer com "forças da mente" ? A meu ver, essas forças da mente nada mais são do que os sentimentos morais que buscam o controle os sentimentos individuais, estes muitas vezes nocivos à sociedade.
O homem lobo do homem é uma expressão tão verdadeira e válida que não se é possível contestá-la. A História do homem é na verdade a história da irracionalidade humana; se empregarmos um olhar crítico sobre a História facilmente se chegará a esta conclusão, face a todas atitudes "desumanas" que o homem cometeu durante sua História. Aliás, existe uma grande curiosidade em torno do adjetivo "humano" - ele na verdade não corresponde àquilo que o ser humano realmente é, e sim àquilo que ele gostaria de ser. Assim, o significado de humano diz respeito aos sentimentos sociais de bondade e gentileza, e não ao egoísmo que é próprio do homem. O processo histórico nos mostra as grandes barbáries causadas pelo homem; esse mesmo homem que se julga racional é capaz de cometer as mais terríveis atrocidades em nome da razão. Basta lembrar das duas Guerras Mundiais, e de todos os atos de selvageria cometidos durante as mesmas, e poder-se-á ver a enorme dimensão da irracionalidade humana.
O instinto egoísta do homem encontra um de seus pontos mais altos na filosofia de Nietzsche, que nos atenta para aquilo que chamou de vontade de poder. A vontade de poder é, segundo o filósofo alemão, a vontade que todo o homem tem de dominar, subjugar, desfrutar as coisas que estão a sua volta, e que esta vontade vem sendo suprimida pelo que chamou de moral do ressentimento (moral cristã). Nietzsche dizia que a moral cristã é a responsável pela troca dos valores essencialmente humanos por valores morais, e que ela constituía uma negação da vida, isto é uma negação da individualidade. O ideal nietzschiano de super-homem (übermensch) só seria possível de ser alcançado através de um processo de superação da moral do ressentimento, pois ele via o homem não como um fim, mas como um processo, um caminho. A necessidade que o homem tem de ser comandado, de que alguém lhe diga o que fazer também foi explicitada por Nietzsche (embora já tivesse sido dita antes, de forma mais sutil, por Kant). No super-homem, essa necessidade também é superada, tendo em vista que ele deve ser uma criatura auto-suficiente, e que portanto não necessita de Deus ou de uma moral externa. Embora o super-homem de Nietzsche seja apenas uma suposição metafísica longínqua (eu diria até inatingível), é interessante citá-lo como um ideal de um ser que fosse capaz de viver a sua própria individualidade. Nietzsche é constantemente acusado de ser um filósofo que valorizava o egoísmo, mas o que essas pessoas que o criticam infundadamente não conseguem perceber é que o egoísmo é um estado natural do ser humano, e que sua valorização constitui, na verdade, a valorização da vida e da individualidade.
Não poderia terminar este texto sem falar na outra força que rege o indivíduo civilizado : a hipocrisia. Deixei-a para o fim, pois ela é a mais difícil de ser demonstrada, e só pode ser entendida depois da apresentação do egoísmo, que diz respeito ao comportamento individual, e da resignação, relacionado ao comportamento social. Ela é uma força tão poderosa e necessária como as outras duas e atua junto as relações humanas. Um homem nunca age de acordo com as próprias convicções, pois há sempre um obstáculo moral no meio do caminho, mesmo que não seja possível a ele perceber. A moral foi instituída pela razão, e por um sentimento de hipocrisia. Quando se julga alguém ou alguma atitude alheia, essa é uma atitude hipócrita, motivada por sentimentos morais. Ao julgar uma pessoa, estamos nos esquecendo de que os defeitos nela presentes, também estão presentes em nós, embora em uma magnitude que achamos que seja menor em nossas pessoas.
Um exemplo mais simples e claro que a hipocrisia é necessária às relações humanas : nunca dizemos aquilo que realmente queremos dizer a uma pessoa, e isso acontece com maior intensidade quando se tratada de algo considerado ruim. Mentimos, fingimos e dissimulamos simplesmente por uma questão de educação, para que não pensem que não somos civilizados. Assim, todas as convenções sociais como apertos de mão, saudações e frases cordiais, não refletem o nosso estado de espírito, constituindo assim atitudes hipócritas, mas estamos tão acostumados com elas que nem nos incomodamos com isso. A hipocrisia assim, situa-se entre o egoísmo e a resignação, sendo também uma das forças que condiciona o comportamento do homem civilizado. O eixo egoísmo-hipocrisia-resignação pode ser utilizado para explicar tanto os comportamentos individuais, como os comportamentos sociais, pois um depende do outro; não podemos entendê-los como coisas distintas.
A hipocrisia também é uma característica irracional do homem social; este porém, está tão habituado a ela que não consegue nem sequer vê-la. Quando lhe dizem que é hipócrita, o homem social se indigna e diz : "Eu não sou hipócrita !" - não há maior demonstração de hipocrisia do que negar que se é hipócrita.
A irracionalidade humana está presente tanto no aspecto individual, como no aspecto social. Já coloquei minha opinião sobre isso, e admito que será realmente difícil que os leitores concordem comigo e sejam capazes de "digerir" os meus pontos de vista. No entanto, devo dizer que realmente acredito neles, embora eles pareçam um pouco ortodoxos e mal-fundamentados. O homem precisa ser entendido primeiro como um animal qualquer, possuidor de instintos, para que depois se possa tentar compreender a sua razão. Existem muitas coisas acima da razão no ser humano, é impossível compreendê-las, mas é preciso considerá-las para que se possa exercer a razão de forma verdadeiramente racional.
Donimo