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Invisibilidade Urbana



Seu nome realmente n�o interessa, o importante em seu perfil � que era um mendigo. Atualmente estava morando na marquise da portaria de um grande magazine da cidade, vivendo da boa vontade e da caridade alheia, misturado a tantos outros na mesma situa��o. Fizera bons amigos durante a vida, mas dividia a cacha�a entre pouqu�ssimos. Um dia, logo pela manh�, antes mesmo que o vigia da loja viesse importun�-lo, acordou com mais frio que de costume. Olhou ao redor e viu seus vizinhos ainda deitados, amontoando-se para evitar a brisa gelada das manh�s de inverno. Lentamente levantou-se e, sem tirar o velho e surrado cobertor de cima de seu velho e surrado corpo, come�ou a caminhar pela cidade. Apesar de acostumado com a indiferen�a dos transeuntes, naquele dia isso o estava, de alguma forma, incomodando. Algo de diferente o impelia a continuar andando, uma sensa��o estranha que jamais havia sentido antes, algo que o fez parar diante de um enorme edif�cio comercial em pleno centro da cidade. hesitou por um minuto e entrou pela portaria, olhando fixamente para a cara do seguran�a que, sem mudar uma ruga do rosto de lugar, continuou em sua posi��o. Impass�vel diante do intruso, que continuou sua caminhada pelo sagu�o do pr�dio. Parou novamente diante do elevador, apertou o bot�ozinho e esperou. Enquanto estava ali, em p�, parado em frente as portas met�licas inexoravelmente fechadas, ficou pensando: O que diabos est� acontecendo aqui? Quando finalmente as portas se abriram, algumas pessoas come�aram a sair, sem sequer erguer os olhos para aquela estranha e deslocada figura. Boquiaberto, perplexo mesmo ante indiferen�a geral por sua pessoa, entrou no elevador e, sem entender o que estava escrito naqueles bot�es, apertou o que estava mais alto. Durante alguns minutos ficou aproveitando a m�sica que tocava na cabine e admirando as luzinhas piscando em cima da porta. Com um agrad�vel e sonoro Plim, as portas se abrem novamente e ele sai para um novo sagu�o, todo decorado com plantas ex�ticas. O ch�o mais parecia um espelho. Olhou para o seu lado direito e viu uma enorme janela panor�mica. N�o resistiu e foi olhar de perto. Colou o nariz e espalmou as duas m�os na vidra�a, que cheirava a produto de limpeza. Dali, conseguia ver quase toda a cidade. For�ando um pouco a vista, conseguiu enxergar o Magazine, de onde acabara de vir e observou, l� de cima, o tal vigia acordando seus companheiros. Ser� que algu�m, alguma vez, parou para ver essa cena, mesmo que daqui de cima, rodeado de tanto luxo? Com o vidro todo emba�ado, virou-se com uma pequena l�grima nos olhos. Pequena demais para vencer a barreira de sujeira que a impedia de rolar face abaixo. Olhou fixamente para o rosto da linda recepcionista sentada atr�s do balc�o e foi em sua dire��o. A mo�a, mecanicamente sorriu para ele, ofereceu um caf�, apontou para o sof� e pediu que aguardasse a chamada. Aceitou o caf� e perguntou se podia usar o banheiro. Sem tirar o sorriso dos l�bios, a gentil senhorita apontou uma porta no canto da sala. Ele n�o conseguia lembrar de, alguma vez, ter entrado em um lugar t�o bonito. Jogou de lado o cobertor, sentou-se no vaso e fez suas necessidades, enquanto admirava-se com a decora��o daquele toalete. Ao seu lado, um rolo de pap�l-higi�nico. Meio sem jeito, puxou as folhas macias e perfumadas, t�o diferentes dos peda�os de jornal a que estava habituado e limpou-se. Ap�s se recompor, olhou-se por alguns instantes no espelho iluminado. Lavou as m�os e o rosto, passou um pouco do sabonete l�quido em baixo dos bra�os e saiu. Aquilo o estava deixando deprimido. Sentou-se no sof� e, em poucos segundos, uma senhora com um uniforme absolutamente engomado estendia em sua dire��o uma fina x�cara de porcelana cheia de caf�, quentinho e fumegante, como h� muito n�o via. Agradeceu e sorveu, gota a gota, aquela n�ctar dos deuses. Quando acabou, abandonou a x�cara no ch�o aos seus p�s. olhou para a recepcionista, impass�vel, absorta em seus afazeres. Olhou mais uma vez para o ch�o e viu sua imagem nele refletida. Uma sensa��o agrad�vel percorreu-lhe o corpo. Bem devagar foi se acomodando no sof�, macio e confort�vel. Puxou o cobertor at� os ombros e deixou que o sono lhe viesse. Lembrou-se de sua m�e, seus irm�os, sua fam�lia, seus amigos. Como ele queria que eles o vissem ali, deitado em um sof� na cobertura de gente bacana. Os pensamentos foram aos poucos desaparecendo. Uma �ltima coisa lhe passou pela cabe�a: Obrigado meu Deus, por me deixar morrer assim.

E morreu.


Marcelo Torrecillas
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