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A Feira da Ladra � um daqueles lugares onde podem sempre acontecer-nos coisas surpreendentes. � muito por causa disso que tantas vezes l� vou. N�o gosto especialmente de antiguidades nem de velharias, n�o aprecio moedas nem coleccionadores e depois n�o me apetece ser perseguido por vendedores desesperados para se desfazerem de objectos de ocasi�o . O que aprecio � a variedade oferecida em desordem diante dos olhos. A vastid�o de pe�as, o olhar dos vendedores, aquele amontoado desordenado de quinquilharia vindo n�o se percebe de onde e ali disposto, todas as manh�s de ter�as e s�bados, por muitas m�os que as v�o, desde madrugada, retirando de caixas e caixotes guardados uns de dentro dos outros. E depois h� sempre os compradores, uma am�lgama de gentes variadas que animam a vista a qualquer �voyeur�.
Foi l� que conheci Hanna. T�o bela que se destacava de todos. De um branco muito claro, contrastando no negro do vestido, aberto, deixando ver as costas onde vinham cair os longos cabelos loiros esvoa�ando ainda molhados ao vento quente do Ver�o. Hanna perguntava em ingl�s, num ingl�s que n�o era fluente nem exacto, o pre�o de uma velha m�quina fotogr�fica de fole a um homem que gesticulava, de olho muito aberto ensaiando um pre�o contado pelos dedos. Ofereci-me para tradutor e avisei-a do excessivo valor da transac��o. O vendedor n�o gostou mas, concedeu-me este acaso, a d�vida de conhecer um ser extraordin�rio e maravilhoso.
Hanna era enfermeira rec�m-formada vinda de Hamburgo � procura do Sul. O Sul � um destino, disse-me mais tarde. Acreditava estar-lhe destinada uma miss�o, a de sempre caminhar para o Sul. O Sul era o seu sonho, a sua utopia fraternal. Foi esta a raz�o do curso, da recusa em seguir Medicina, como era desejo do pai oftalmologista conceituado, mas que Hanna sabia que s� lhe iria a atrasar a miss�o. Estava em Lisboa de passagem e procurava ali na feira caleidosc�pios antigos e m�scaras portuguesas.
Tinha um conhecimento profundo de m�scaras e das culturas onde se originavam. Ouvia uma noite inteira falar de povos e tribos, de rituais e dan�as, de uma forma que nem mesmo os estudiosos seriam capazes. Hanna amava �frica. Voc�s tamb�m s�o j� um pouco africanos e ria muito quando dizia isto. Sabia do que falava.
Hanna tinha feito teatro, representara, descobrira muitas coisas. Volteavam-lhe no pensamento projectos que eu muitas vezes tinha dificuldade em entender quando ela no calor do entusiasmo misturava gestos com frases em alem�o para sublinhar um ingl�s que ambos dominavamos mal. Lera muito, desde os cl�ssicos � vanguarda do pensamento artistico. Confessou-me a sua predilec��o politica pelo anarquismo, enquanto citava Bakunine e Chomsky, e contou como dos sindicatos de estudantes passara em pouco tempo �s ONG�s viradas ao Terceiro Mundo. Achava a Europa desinteressantemente balofa e egoista. Fechado no seu umbigo. Decadente. E falava disto tudo sem uma ponta de tristeza. Hanna tinha nascido no s�tio errado e aquela viagem era o retorno ao seu lugar de origem ancestral em que j� tinha vivido e que por erro lhe fora nesta vida negado. Uma corre��o que fazia � vida, entendes? perguntou-me na �ltima noite que sai com ela e acabamos conversando frente ao Tejo.
Hanna escreveu-me durante um ano, cartas que teimavam sempre em chegar atrasadas perguntando por outras minhas que muitas vezes nem chegavam. Traziam sempre testemunhos de felicidade como nunca li. Ignoravam a guerra, falavam da d�vida da alegria, da escola que montara, das vacinas que nem sempre existiam, do grupo de teatro que tinha criado com as crian�as da aldeia onde vivia.
Um dia as cartas atrasaram mais do que o habitual, que era sempre muito tempo. Preocupei-me a principio, afligi-me depois e tentei contactar a organiza��o . N�o havia noticias. Foi pela Cruz Vermelha que soube meses depois que Hanna tinha morrido. Um acidente com uma mina.
Sempre que olho o c�u � noite procuro ver a estrela onde sei que ela est�. Sorrindo. Da pr�xima Hanna acerta logo com o teu destino, sem precisares de fazer corre��es. Ou talvez de tanto tempo passado a terra seja j� s� uma, um Sul de paz e festa como tu gostavas.
Andr� de Agualva S.Jo�o do Estoril [email protected]