- Diário de Bordo do primeiro Oficial. Hoje comemora-se o vigésimo aniversário do lançamento da Galípoli. A situação permanece a mesma, nosso capitão ainda está hospitalizado e os médicos dão como pouco provável que o mesmo sobreviva. A situação a bordo é delicada. Todas as facções se encontram exaltadas e apesar de esforços solitários de alguns líderes não se consegue entrar em acordo para encerrar as divergências. Incrível, quando do lançamento desta nave os cientistas nos garantiram que todas as probabilidades que se poderia encontrar em uma viagem de 100 anos haviam sido antecipadas, estudadas e solucionadas. Brilhantes cérebros humanos e os mais sofisticados computadores foram usados em cálculos intrincados. Mas essa situação não fora prevista. O pobre capitão tentou equacionar e resolver os problemas. Mas somente o que conseguira foi um disparo de laser à queima roupa. Os médicos já o desenganaram. Todo conhecimento médico atual ainda não é suficiente para salvar a vida deste homem. Quando acontecer o inevitável serei automaticamente alçado à condição de capitão desta nave. Espero que esteja à altura desse cargo. Desligo.
O primeiro oficial Alecsander Houston levantou-se de seu console. Por alguns momentos ficou ali, em pé, olhando para o painel de comunicação de seu quarto que insistia em piscar, indicando uma ligação. Alecsander não estava com vontade de atender. Mas era seu dever. Com um peso no coração apertou o botão que liberava a transmissão, pondo-se na escuta.
- Capitão, nossos sensores nos indicam a existência de um planeta classe humana neste setor do espaço. As sondas já foram enviadas e estão fazendo a checagem. Sua presença é solicitada na ponte de comando.
- Ok Breno, estou indo.
A locomoção de Alecsander de seu aposento até a ponte se transformara em um martírio. O primeiro oficial não conseguia andar três passos sem ser parado por um membro da tripulação que gostava de esclarecer sua posição particular em relação aos últimos conflitos. O oficial escutava pacientemente o reclamante esclarecendo que o assunto ainda não fora devidamente estudado e que quando os oficiais e médicos da nave tivessem alguma resposta aquele tripulante seria o primeiro a saber. Na ponte de comando havia um alerta. Se Alecsander não conseguisse se apresentar à ponte em 15 minutos os oficiais que se encontrassem de plantão poderiam pressionar a tecla de alarme amarelo. Isso facilitava as coisas para Alecsander se desvencilhar do tripulante que porventura o estivesse retendo.
Os 15 minutos se esgotaram, como o primeiro oficial não conseguiu chegar até a ponte o alarme amarelo foi acionado. Alecsander deu graças ao ver o tripulante que lhe tomava o tempo se despedir apressadamente, liberando o oficial para que este conseguisse cumprir suas atribuições que não eram poucas.
Com o rosto cansado e a fisionomia claramente demonstrando as poucas horas de sono dos últimos dias, finalmente Alecsander chega à ponte. Suas preocupações aumentaram ainda mais quando o oficial de plantão grita a plenos pulmões.
- Capitão na ponte.
Apesar de não ser oficialmente o capitão Alecsander já começava a se acostumar com esse título.
- Muito bem. O que está acontecendo. O planeta é classe humana mesmo?
Sem desviar os olhos de seus equipamentos Breno, que acumulava no momento as funções de segundo oficial e exogeógrafo responde de forma clara e sem apresentar nenhuma dúvida.
- Sim capitão. O planeta é classe humana mesmo. Tamanho aproximado ao planeta Mercúrio senhor. Rica flora e fauna, sem resquícios de vida inteligente. Há água em abundância. O lugar ideal para recarregar os nossos reservatórios de água.
Água, a nave encontrava-se com a água racionada desde que os últimos confrontos armados entre aquelas facções beligerantes acabara danificando o aparelho de reciclagem de água. A equipe de manutenção estava quase concluindo os reparos necessários, mas água pura sempre era bem vinda.
- Muito bem senhor Breno. Rume a Galípoli para lá. Alguém já deu um nome para o planeta.
- Senhor, tomei a liberdade de batizá-lo como Delta Nilo.
- Delta Nilo, nome estranho para um planeta.
- É em virtude da escassez de água senhor. Na Terra o delta do rio Nilo é uma região fértil, servida pelo maior rio do mundo.
- Estou a par da Geografia de nosso planeta mãe oficial Breno. Não precisa me relembrar.
Estava claro que Alecsander se encontrava no limite de um esgotamento físico e psíquico. As palavras anteriores foram proferidos em um tom duro e com muita aspereza.
Sentado na cadeira de capitão Alecsander solicitou a Breno mais alguns dados das sondas enviadas para Delta Nilo. Neste momento a luz que indicava que alguém da nave estava em um holorádio tentando entrar em contato com o capitão piscou insistentemente. Com um misto de cansaço com desânimo Alecsander aciona seu holorádio.
A figura que se forma à sua frente é do reverendo Muller, um dos líderes da facção luterana.
- Capitão, gostaria de poder lhe falar, tão logo tenha tempo.
- Olhe reverendo, sei que precisamos conversar, mas agora é impossível. Descobrimos um planeta classe humana e vamos entrar em órbita do mesmo. Como sabe desde que seus homens fizeram aquela tola demonstração de força nosso reciclador de água está sem funcionar. Vamos tentar conseguir água neste planeta.
- Olhe capitão, não precisa ficar me lembrando daquele lamentável incidente. O que tenho a relatar é que os ditos cristãos de Roma cadastraram mais uma operação de aborto. Esse comportamento agressivo para com a vida precisa acabar capitão. Nós não toleraremos mais assassinatos nesta nave. Até agora consegui controlar meus homens, mas não posso ser responsável se algum grupo mais radical agir por conta própria.
Dito isso o reverendo desliga o holorádio, sem ao menos se despedir de Alecsander.
Bem, esse assunto teria de esperar mais um pouco. O objetivo de Alecsander agora era Delta Nilo. Mesmo que a manutenção conseguisse consertar a contendo o reciclador de água os estoques necessitavam, e com urgência serem recompostos. De que adiantava um reciclador se não houvesse o que reciclar?
- Capitão
- Sim Oficial de Segurança Marcellus.
- Enviei uma patrulha para a frente das dependências médicas senhor. Um grupo de muçulmanos xiitas está protestando contra o grupo de cristãos de Roma.
- Ok Marcellus, cuide disto para nós está bem.
A Galípoli se aproximava cautelosamente de Delta Nilo. Todos os sensores e sistemas de localização da nave estavam ligados em sua capacidade máxima. Até agora todos os alienígenas descobertos nessa viagem exploratória eram seres gentis e pacíficos que receberam muito bem os terranos, mas nunca se podia negligenciar na vigilância.
A nave chegou até a órbita estabelecida sem problemas. Delta Nilo se prenunciava como sendo um planeta belíssimo.
Até ali, naquela órbita alta se podia ver com nitidez os três continentes, e os pólos. Afora os continentes uma grande quantidade de ilhas de bom tamanho podiam ser vistas.
- Breno, prepare uma equipe, vamos enviar algumas pessoas pousar neste planeta. Não se esqueça de enviar o instrumental necessário para analisar a composição da água deste mundo.
- Sim senhor, tomei a liberdade de já preparar a equipe quando da confirmação das sondas senhor. A equipe já se encontra a bordo da nave auxiliar somente me aguardando.
Alecsander soltou um sorriso cansado. Olhou o segundo oficial com um misto de admiração e respeito. As vezes Alecsander se julgava no posto errado, estava claro que Breno se sairia um capitão melhor do que ele jamais poderia ser.
- Autorização concedida Sr. Breno. Vá lá e veja se nossa procura por água teve um fim, ou se devemos voltar á procura.
No exato momento que Breno desaparecia pelo elevador pneumático de encontro à nave auxiliar o alarme vermelho interno tocou estridentemente pela ponte de comando. O holorádio piscava ininterruptamente indicando haver pelo menos três ou quatro ligações para o capitão. Bem, Alecsander era um só, atenderia os chamados na seqüência de chamado.
- Alecsander. O que diabos está acontecendo?
A figura robusta de Marcellus se forma na frente do capitão. Percebia-se nitidamente que o mesmo fora ferido muito levemente por um laser.
- Capitão, confronto nas dependências médicas. Eu e meus homens estamos tentando colocar ordem neste caos mas os ânimos estão muito exaltados senhor.
- Droga, já vou para aí. Capitão para todos da segurança, se dirijam o mais rápido possível para as dependências médicas. Autorizado uso de lasers para tonteio.
Desligando a primeira chamada Alecsander imaginou que as outras três que se encontravam em sua lista tinham relações com os acontecimentos verificados nas dependências médicas.
- Alecsander falando.
Do outro lado a figura inconfundível de Murresh Abdan, líder espiritual dos muçulmanos islâmicos da nave, se apresentou com seus olhos negros e profundos.
- Capitão. Os cristãos de Roma estão nos desafiando abertamente. Não estou mais conseguindo controlar o ímpeto dos filhos do profeta. Um grupo de membros mais exaltados está atacando as dependências médicas, não posso ser responsabilizado pelos acontecimentos.
- Sr. Murresh, veja o que consegue fazer, daqui a pouco estarei nas dependências médicas.
Ao desligar o chamado de Murresh, de maneira autônoma e imediata entrou a terceira das ligações para Alecsander. Padre Dave estava ali naquela projeção holográfica olhando de maneira assustada e confusa para seu interlocutor.
- Capitão, por favor venha logo, estamos em uma situação de alto risco aqui nas dependências médicas. Não há mais como protelar a resolução desta situação.
- Ok Padre Dave, tenho mais uma ligação, no mínimo é o reverendo.
Alecsander tinha razão. A sóbria figura do reverendo Muller novamente se materializava pelo holorádio.
- Capitão, foi avisado do que poderia acontecer. A resolução dessa situação não pode mais ser postergada.
- Sim Reverendo, sei disso. Estou me dirigindo para as dependências médicas. Vamos resolver isso de uma vez por todas.
A vontade do primeiro oficial que já há dez dias desempenhava as funções de capitão era deixar para trás seus problemas atuais e se dirigir para o belo Delta Nilo refugiando-se neste bucólico paraíso.
No entanto as responsabilidades falavam mais alto do que a vontade de Alecsander. Havia ali naquela nave 1.000 seres humanos que de uma forma ou de outra dependiam das decisões do capitão para poderem sobreviver. Havia ainda o restante da missão, seriam mais 80 anos de exploração até que os descendentes daqueles homens e mulheres de agora conseguissem voltar ao planeta Terra. O planeta mãe. A situação estava insuportável, das decisões que fossem tomadas agora dependia o futuro não só dos atuais homens e mulheres da nave, como também de seus filhos e netos.
No entanto tudo parecia conspirar contra Alecsander, da superfície de Delta Nilo vinha mais uma ligação para o capitão.
Ao ser completada a mesma a imponente figura de Breno vai se materializando no holorádio.
- Breno para Galípoli. Capitão temos boas novas.
- Continue senhor Breno.
- Senhor, a água do planeta é limpa e cristalina. As análises espectrais indicam composição na base de duas partículas e meia de hidrogênio para cada partícula de oxigênio. O grau de pureza da água é de 99,99%. Não foram encontrados nenhum tipo de bactéria, vírus ou micróbios que possam colocar em risco a vida dos tripulantes senhor. Sugiro que a nave desça diretamente no lago em que estamos. Esse lago é grande e podemos carregar os reservatórios diretamente no lago, sem necessidade de passar pelos purificadores.
- Ótimo Oficial Breno. Aguarde minhas ordens. Estamos com sérios problemas a bordo da Galípoli. Há uma confusão dos infernos perto na frente das dependências médicas, parece que o nosso mundo vai ruir. Aguarde novas ordens. E Breno, bom serviço.
- Obrigado capitão.
Dito isso Alecsander desliga o holorádio e se dirige com toda pressa possível em direção às dependências médicas da nave. O fato de em Delta Nilo haver grandes reservas de água potável lhe deu uma idéia, mas outros fatos necessitavam ser levados em consideração. Enquanto se locomovia pelos corredores da nave Alecsander se dirige para uma cabine fechada de holorádio, informa ao computador de bordo que a conversa é prioridade Gama, ou seja não deve ser gravada, somente o capitão da nave e seu interlocutor poderiam estar a par do assunto tratado. Após a confirmação por parte do computador Alecsander novamente entra em contato com Breno na superfície de Delta Nilo solicitando mais algumas informações.
A ligação foi efetuada e por vinte minutos Alecsander conversou com seu segundo oficial. Finalmente deu-se por satisfeito e continuou na direção das dependências médicas.
Ao chegar nas dependência médicas Alecsander encontrou a situação parcialmente serenada. Marcellus e um forte contingente da segurança haviam conseguido dominar a situação. O problema é que dirigentes e representantes de diversos credos religiosos aguardavam o capitão para expor e esclarecer suas opiniões sobre os últimos incidentes.
Visivelmente esgotado Alecsander conversa com os diversos líderes religiosos ali presentes e marca uma reunião com todos para dali a duas horas. Afirmava o capitão que neste meio tempo teria pelo menos uma sugestão para tentar resolver os conflitos religiosos que abalavam a Galípoli.
Com relutância os líderes ali presentes acabaram por concordar com a solicitação do capitão. Afinal os conflitos iniciaram-se há dois anos, de forma tênue e somente nos últimos dois meses é que adquiriram esse caráter litigioso e de confrontação que existia. Duas horas não iriam fazer diferença.
Contente com a concordância à sua solicitação Alecsander entra em um cabine de holorádio e solicita que a segunda nave auxiliar seja preparada para ir até Delta Nilo.
A nave é preparada rapidamente e Alecsander pessoalmente resolve pilotá-la dispensando qualquer acompanhamento. O pouso foi efetuado na mesma região em que Breno se encontrava. Ao desembarcar Alecsander se surpreende com a bela visão que o planeta proporciona. O lago perto do qual se encontrava é belo, águas límpidas e bem piscoso. Ao fundo daquela região vislumbrava-se uma cadeia de montanhas totalmente tomadas por espessa floresta. Na direção contrária das montanhas se destacava uma ravina enorme e verde.
Breno recebe o capitão com alegria. Alecsander resolve não estragar a alegria de seu segundo oficial com os problemas encontrados a bordo da Galípoli. A conversa entre os dois gira em torno do planeta, da composição atmosférica, da água, da flora e fauna. Breno até se assusta com a torrente de perguntas do capitão. Todas girando em torno do planeta.
Faltando somente 20 minutos para findar o prazo que solicitara aos líderes religiosos da Galípoli, Alecsander finalmente se mostra satisfeito com as respostas e parte novamente em direção à nave.
Ao adentrar-se à sala de reuniões Alecsander já se encontrava pelo menos com 10 minutos de atraso.
A reunião é longa e tensa. Cada um dos líderes religiosos expõe sua versão dos últimos acontecimentos e expõe a maneira como acha que deve ser solucionado o problema. As divergências de opinião entre os diversos participantes daquela reunião logo se fazem presentes. Alecsander a tudo escuta pacientemente. As vezes solicita ao computador de bordo que analise esta ou aquela colocação de alguma das pessoas ali presentes.
Por longas seis horas a reunião se arrasta, e novamente, como de outras vezes não se consegue chegar a um verdadeiro acordo entre os participantes. Alecsander então resolve tentar sua última cartada.
Por mais uma hora expõe seu plano aos seus ouvintes. Pondera sobre essa ou aquela colocação anterior e ao final da sua exposição vislumbra nos rostos dos homens e mulheres ali presentes uma fisionomia nova. Pela primeira vez em dois anos uma tênue esperança surge como que por encanto.
Alecsander solicita aos seus interlocutores que analisem com carinho sua colocação e lhes dá o prazo de 24 horas para pensar e dar sua resposta.
Finda a reunião Alecander se dirige para seus aposentos, e pela primeira vez em mais de 12 dias consegue dormir profundamente sem ter seu sono interrompido por qualquer conflito interno.
O dia seguinte começou com tremenda agitação dentro da nave. Os corredores se encontravam totalmente tomados por homens e mulheres que corriam de um lado para outro se preparando para cumprir mais um estafante dia de serviço. Mas havia uma novidade no ar. Sentia-se que o clima de animosidade reinante há dois anos amainara.
Os presságios eram confortadores. Alecsander autoriza o pouso da Galípoli em Delta Nilo. Se utilizando dos recursos de bordo os tanques de água da nave seriam abastecidos com a preciosa água descoberta naquele planeta.
O pouso ocorreu sem problemas. O carregamento da água duraria em torno de cinco horas, durante esse período Alecsander autorizou aos tripulantes que descessem no planeta. Após o longo período em que permaneceram no espaço, sem pousar em nenhum planeta, a tripulação recebeu com muita festa aquela licença inesperada.
Alecsander, no entanto, ainda tinha sérios problemas para resolver. A reunião com os líderes religiosos estava marcada para dali a duas horas.
Na hora de reunião, apesar do clima de animosidade entre os participantes ter sofrido uma alteração, para melhor ainda havia riscos de confrontação.
Alecsander pacientemente aguardou as últimas exposições dos diversos representantes religiosos da tripulação e esperou a resposta para a sugestão que fizera no dia anterior.
- Diário de bordo, hoje é o terceiro dia do quarto mês do vigésimo aniversário de lançamento da Galípoli. Hoje faço o registro como capitão da Galípoli. Nosso capitão anterior faleceu há dois dias. A nossa tripulação encontra-se recomposta pelos dias de descanso em Delta Nilo. O que pensávamos ser apenas uma operação de carregamento de água se transformou em uma permanência de cinco dias naquele idílico planeta. Registro neste diário um alerta aos viajantes futuros. Nossos cientistas nos informaram quando do lançamento desta nave que todas as hipóteses de ocorrências que de alguma maneira poderiam prejudicar o relacionamento dos homens e mulheres da tripulação foram pensados, analisados, e revisados pelas melhores equipes de psicólogos da Terra. O planejamento antecipado, as simulações feitas por computadores de última geração garantiam que qualquer problema de relacionamento humano poderia ser devidamente equalizado. Ledo engano. A Galípoli foi lançada para uma missão de exploração de longa duração, 100 anos. É lógico que a tripulação original poderia não estar viva para completar tão longo tempo de vôo. Portanto nossa nave foi tripulada por homens e mulheres com idades entre os 25 e 45 anos. Os filhos gerados pelos tripulantes logicamente seriam inseridos no contexto da nossa viagem e obrigatoriamente fariam parte da tripulação. Pelos cálculos dos cientistas os netos da tripulação original é que encerrariam a nossa viagem. Retornando enfim ao planeta mãe. Nossa parte foi realizada. Uma vistosa e saudável geração de adolescentes se espalha por todos os recantos da nave, confirmando as previsões de nossos cientistas. Mas uma variável do comportamento humano não fora devidamente pesquisada. Quando juntamos em um espaço confinado jovens com faixa etária entre 15 e 16 anos despertamos nestes o instinto humano do sexo. Este se faz presente e fala alto. E mesmo com a existência de um sem número de métodos anticonceptivos o instinto humano muitas vezes relega para segundo plano esses pequenos detalhes. Resultado há dois anos tivemos um número até exagerado de jovens grávidas em nossa nave. Por motivos diversos algumas das futuras mamães resolveram que não queriam o filho gerado. Inúmeras operações de aborto foram marcadas nas dependências médicas da nave. A Constituição de nosso planeta mãe, a Terra, autorizava esse direito a qualquer mulher. Mas entrou em ação a segunda variante não programada por nossos cientistas. A tripulação original foi formada por homens e mulheres de diversas raças, e principalmente, diversos credos religiosos. Alguns destes não permitem a prática do aborto. Os primeiros confrontos entre as facções religiosas foram apenas no nível de idéias, mas em todas as épocas sempre existiram os fanáticos religiosos. Os confrontos iniciais que se faziam a nível de discussões sobre os ensinamentos desta ou daquela religião degenerou em uma série de conflitos entre os mais fanáticos. Já haviam se registrado muitos feridos e o nosso capitão acabou sendo a primeira pessoa morta. Algo precisava se feito antes que esse fanatismo acabasse levando à destruição de nossa nave. Após muito ponderar, cheguei à conclusão de que Delta Nilo seria um mundo ideal para uma colônia humana. Ao expor essa idéia na penúltima reunião com os líderes religiosos algumas facções se demonstraram interessadas. O resultado é que a primeira colônia terrana fora de nosso sistema solar original foi fundada em Delta Nilo com representantes dos luteranos e islâmicos de nossa nave. Em nenhum momento a missão de nossa tripulação foi instalar algum tipo de colônia. Mas a necessidade de cumprir a missão, aliadas às intolerâncias religiosas, morais e éticas nos levaram a fugir da programação original. Os islâmicos e luteranos aceitaram de bom grado a idéia de se estabelecer no planeta e se prontificaram a fundar uma colônia. Espero que não haja problemas futuros entre essas duas facções pois daqui para a frente estarão por sua própria conta e risco. Ao todo 300 pessoas ficaram no planeta.
Este é o alerta que faço às futuras naves exploradoras. Antes de enviarem novas expedições tentem contornar essas variáveis de liberdade sexual e fanatismo religioso. Nós conseguimos uma solução, talvez paliativa para o fato, mas graças ao todo poderoso, nós conseguimos. Pode ser que outras naves não consigam.
Me despeço aqui, deixando para todos a análise se nossa decisão foi certa ou errada. Convém lembrar que as facções que permaneceram em Delta Nilo assim o fizeram de livre e espontânea vontade. Tal desprendimento dessas facções nos permite continuar em nossa missão.
Nota do Autor - Esse conto é um alerta que tento fazer para o futuro. A idéia de um vôo tripulado de longa duração pode ser viável em um futuro não muito distante. Uma nave que saia de nosso planeta para uma viagem de 100 anos pode muito bem ser possível daqui a algumas décadas. Uma viagem dessas obrigatoriamente seria terminada por filhos ou netos da tripulação original. Os riscos de uma expedição deste porte sofrer algum tipo de problema motivado por comportamentos exagerados de adolescentes e fanatismo religioso é real. Aos que lerem este esclareço ser uma pessoa que segue a religião Católica Apostólica Romana, sem ser no entanto fanático ou mesmo um grande praticante da religião que abracei. Em hipótese alguma quero me indispor com islâmicos, luteranos, judeus ou seguidores de qualquer religião, seja ela qual for. Também esclareço ser contra o aborto. Mas respeito a opinião das pessoas que apoiam essa prática. Apenas não me encontro entre elas. Não quero aqui passar a idéia de ser o dono da verdade. Fiz apenas um conto de ficção científica entrando talvez em uma área pouco explorada até então. Não sei se consegui fazer uma boa história. Era essa minha intenção. O fato de usar dois assuntos considerados "tabus" pela cultura ocidental (aborto e religião ) foi motivado apenas pela necessidade que senti de usar temas polêmicos na composição desta pequena e insignificante obra de minha autoria.
Novamente peço desculpas se não consegui tratar temas tão polêmicos com o tato necessário de modo a não me indispor com ninguém. Tenham certeza que a intenção não foi essa.