Pequenas considerações sobre os velhinhos e as filas
Filas. Não sei porque decidi falar sobre filas. Acho que porque acabei de enfrentar uma há pouco. Você certamente já enfrentou várias em sua vida então certamente sabe do que estou falando. Pois bem não achei a menor graça nessa. Tirou-me todo o pouco senso de humor que me restava e que já não era lá grande coisa. Sou um resmungão. E ainda mais agora que estou me sentindo violentado em minha virilidade. Não é exagero. E explicarei o porquê. Porque basicamente o problema das filas está nos velhinhos. Não estou sendo grosso com os velhos. Eu mesmo serei um velhinho um dia - isso se viver até lá. Daí o sentir-me violentado. Se você não gosta do termo podemos então chamá-los de membros da terceira idade o que ainda pode não ser suficiente, pois alguns ainda consideram "terceira" como algo meio discriminatório. Então se você se encaixa aí, podemos usar a mais nova expressão para se referir aos velhinhos que é a turma da melhor idade. Não sei que louco imaginou isso. Repito: não sou preconceituoso. Mas chamar de "melhor idade" é demais. Mas, se você chegou até aqui, e antes que desista de ir adiante, esclareçamos o problema.
Todos já presenciamos a situação dos velhinhos integrantes da terceira e melhor idade (VITMI) - chamemos assim para agradar a todos, e criemos ainda, mais uma sigla - nas filas sejam elas quais forem. É um suplício. Para eles e para os outros. Para eles é um tortura medieval sem precedentes. Serem submetidos a ir aos caixas eletrônicos fazer o saque de seus minguados rendimentos do INSS. Além do desgaste físico a que são submetidos, há ainda o desgaste moral, pois sempre tem alguém na fila para chamá-lo de "velho enrolado" quando ele ou ela está frente a frente com o caixa eletrônico e tem que enfrentar a difícil tarefa de digitar sua senha - geralmente a data de nascimento ou um único digito repetido seis vezes. Os mais jovens à fila ficam impacientes. Esticam os pescoços, encostam o rosto na porta de vidro para ver o que se passa lá dentro deixando o vidro embaçado com seu bafo. Outros começam a olhar ao redor e fazer comentários desconfortáveis, olham o relógio, fazem caretas de impaciência, ouve-se alguns impropérios resmungados a meia voz. É um show de horrores. E note que estou me apegando à apenas uma única faceta da fila. Filas na verdade renderiam um tratado sociológico muito mais amplo, abrangendo todos os demais aspectos e peculiaridades relativas aos seus mais diversos tipos, como fila do banco, fila de emprego, fila do cinema, fila de entrada no estacionamento, fila do sopão para os desafortunados sem teto. As filas virtuais como fila de espera do consórcio, da expansão telefônica, das agências de matrimônio. E ainda as filas dedicadas ao público infantil como fila para brincar num centro de diversões, filas das campanhas de vacinação, onde as crianças aprendem a resmungar desde a mais tenra idade, fila da merenda nas escolas públicas - isso se a merenda não foi desviada da escola ou deteriorou-se por incompetência administrativa. Enfim são filas para todos os gostos e idades. Mas não quero, nem temos paciência para ir tão longe nessa questão. Limitando-se então aos VITMI, é importante considerar alguns detalhes esquecidos por essas pessoas que tanto os ofendem e que eu me dei conta pensando em quando eu mesmo for um deles. Observe-se que o cerne da questão está na dificuldade de adaptação tecnológica pelos VITMI associada às limitações físicas. Nós os, por enquanto, mais jovens, não vemos nenhum mistério em operar a "maquininha do dinheiro". Afinal ela representa o auge da tecnologia para a nossa geração. Informações que são trocadas eletronicamente, de forma abstrata. O acesso fácil ao dinheiro, desde que esteja na conta é claro. Tudo isso comandado a partir de simples toques em um teclado. Parece fantástico não? Sim. Para nós. Agora imaginemos os velhinhos - deixa a sigla prá lá - para os quais o auge da tecnologia, em seu período de maior atividade, eram as hoje obsoletas máquinas de autenticação cheia de engrenagens e com uma manivela do lado que o caixa do banco pomposamente manipulava, imprimindo assim o valor recebido pelo então jovem. Ele que por sua vez resmungava dos velhinhos de sua época que tanto demoravam para assinar seus nomes no recibo do caixa. Sim, ele mesmo que hoje sofre os revezes irônicos da vida. Como vêem, na verdade estou defendendo os velhinhos. Todavia não se deixem levar pelas aparências. Eu mesmo já xinguei muitos velhinhos. E admitamos todos. Você também já xingou não?
Mas pensemos agora em nós mesmos. A tecnologia que hoje nos fascina será a mesma que amanhã nos trairá. Não faz muito tempo eu ficava estupefato com os computadores do tipo CP500. Embasbacado com um joguinho no qual o objetivo era controlar um ridículo ponto verde na tela preta que ia de um lado a outro sem deixá-lo sair. Passados quinze rápidos anos, hoje continuo atordoado com os jogos da série Quake e os simuladores de corrida e vôo cada vez mais complexos e detalhados. Capazes de fazer-nos sentir transportados para dentro da ação. Tudo isso limitado a um PC aqui em minha salinha de estudo. Mas os problemas ainda estão por vir. Já me vejo no futuro em uma fila de caixa eletrônico para receber minha suada aposentadoria. Sim as filas ainda existirão, pois eu e você estaremos lá, pois não teremos conseguido receber nossos vencimentos em créditos eletrônicos via telefone celular, Palmtop nem pelo acesso via TV, através da nova tecnologia WAP. Com isso teremos de , inevitavelmente, ir a um caixa eletrônico onde seremos xingados na hora de usar o scanner de retina. "Ô velho burro.....tira o óculos primeiro senão ele não lê!!! Que idiota não sabe nem usar o scanner!!!!". Todos na fila estarão impacientes. "Não precisa encostar o olho não!!!". E depois de muito tentar aparecerá uma mensagem holográfica a nossa frente dizendo, "Não foi possível ler sua retina. Dirija-se à sua Agência". Desgastado fisicamente lá irei eu e descobrirei que o problema não é do equipamento e sim da minha catarata. Vou ter então que colocar meu polegar em um scanner de impressão digital. Com alguma dificuldade por causa do Mal de Parkinson, enquanto deixo esperando o funcionário do caixa - ele ainda existirá também, apesar de todos os bancos serem privados - e sua respectiva fila. E assim nossa vida cumprirá o seu ciclo. De fila em fila até que a morte nos separe.
P.S.
Dependendo de sua crença em vida pós morte, talvez você tenha boas chances de enfrentar ainda uma fila para entrar no céu, no purgatório ou no inferno, quem sabe. Ou ainda uma fila para reencarnar.
Autor: Márcio Salgues