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Franco e Berta

"N�o d� mais... Estou saindo com um carinha mais light. De problemas j� me bastam os meus..."

Franco, naturalmente silencioso, foi entrando sem ser percebido. Era parte de seu h�bito n�o encher a casa com sons desnecess�rios. Berta estava no quarto, conversando ao telefone com uma amiga.

Nheec...

Quando ela chegou, ofegante, a porta j� estava fechada e a casa vazia.

- Porra... e hoje � noite de lua cheia... - suspirou ao telefone da sala enquanto olhava pela janela. Do outro lado da linha a amiga emudecera.

No cais do porto - ao menos se sentia feliz por n�o ser um cara light - desceu a rampa, dando na �gua. Tomou um barquinho menos de dez minutos depois e foi descer num ponto afastado, sem ilumina��o. Durante a travessia vira pedras gastas aqui e ali, destas cobertas de lodo e infestadas de sereias, as pequenas baratas-d'�gua.

Deixou o barco se afastar para come�ar a andar. Fazia frio e os sons, na amplid�o, pareciam motores. Prestava aten��oRumor de mar, de vento, de barcos, de bichos, de homens, mais uma fome rumorosa que lhe deixava frio por fora e por dentro. Andara menos de cem metros e sua vis�o j� se acostumara � luz �nica da lua.

Dois pescadores descarregavam pe�as de uma traineira. N�o deram aten��o � sua aproxima��o. Franco os cumprimentou e ficou a observ�-los por alguns instantes. Bebiam conhaque em ta�as grandes e apropriadas, as m�os segurando o bojo. Estavam agasalhados, gorrinhos encimando-lhes as faces, como se fossem pescadores de bacalhau em �guas n�rdicas. Era uma fantasia. Senhores curvos que provavelmente escondiam algo, pois eram por demais distintos para aquelas condi��es.

Sem dizer palavra, disp�s-se a ajud�-los. Sentia-se em outro plano, redivivo numa era arcaica. Os movimentos sa�am-lhe lentos, aqu�m da sincronia com o tempo real.

- Levaremos muito tempo, rapaz.

- Tanto melhor.

As vozes deles o deixavam atordoado, reverberavam de um jeito sobrenatural � sua volta.

Passaram ao descarregamento de peixes prateados. Os velhinhos eram amigos de longu�ssima data, acostumados a pregar pe�as como aquela nas respectivas fam�lias, que �quela altura os procuravam nas emerg�ncias cardiovasculares da cidade. Alugaram o barco, embebedaram o timoneiro durante a pescaria, e agora conversavam sobre galinhas.

Da aragem marinha aproveitou a cad�ncia e foi, no avan�ar da noite, ficando cada vez mais parecido com os velhos. Visto � dist�ncia, era um deles.

Acordou na manh� de um feriado, sem ter o que fazer. Chamava-se Douglas e n�o conhecia nenhuma Berta.



Alfredo D.O.Filho

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