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Astronauta

Imaginava eu. Eu no mundo, na esteira de um trem. Perseguindo-o, colhendo seus rastros, no mundo moderno. Catando cada peda�o de madeira e ferro. Meus pulm�es imensos acumulando fuma�a. Eu imaginando o mundo. Sorrindo para o interior, crendo-me lastro e sendo correio pendurado.

�, o bicho era idiocrom�tico, poliom�rico, grande-grande-grande-grande-locomotiva. N�o saber o seu tamanho, nem v�-lo por inteiro. Carecia n�o: eu imaginava completo, fossilizava entreveros. Cabelos de tempo.

A estrada de ferro n�o fazia curvas.

Eu imaginava, dentro de um sonho, atr�s de um trem. E prestava contas a um sat�lite.


Minhas alucina��es j� eram conhecidas na reparti��o. Merlin, nesse sacerd�cio que � o flanelismo, disse-me certa vez que meu mal � sonhar quase como os outros. Quase sendo solto. As coleiras frouxas demais nas cabe�as. Sagit�rio solto, Aqu�rio solto, Escorpi�o tamb�m, C�ncer solto, Libra, Le�o, Touro, Capric�rnio, Peixes, �ries, Virgem e G�meos. Treze cabe�as soltas.

Meu trabalho � um inferno. Sinto-me sanguessugado, sem servir para nada. Mere�o, segundo uma consci�ncia feita de restos luteranos, as rasteiras, as brincadeiras e toda as emo��es de presa dignas de um servi�o p�blico.

As curvas dos meus sonhos aparecem a toda hora, em pra�a p�blica, provocando-me ere��es. H� tempos n�o as acho inc�modas. O pessoal da reparti��o n�o gosta.

Sempre almo�o por l�. Como pouco e bebo muita �gua. Folheio as revistas que o Diretor assina, vou ao banheiro, e depois as desamasso com muito cuidado. Bebo mais �gua, olho o movimento pela janela. Quando os outros voltam j� estou trabalhando. N�o comento nada. Espero o fim do expediente, em agonia crescente de fila longa e lenta.

N�o posso dizer que moro no leito de um rio subterr�neo. N�o quero dizer que a hist�ria do trem � verdadeira.


A estrada de ferro fizera uma curva. Via l� na frente, a curva que faria o trem. Loucura, a felicidade. Perto de morrer, n�o j� n�o me contentavam as retas. Aben�oando-me por conta pr�pria, imaginava o exerc�cio da curva, apaixonada precipita��o. Meu cora��ozinho, pousado em cima da l�ngua, feito l�tego na cordialidade de cada dia. Boa tarde, senhora. Que dor nos dentes. Como eu tremia naquela tarde! Como passava bem o dia. Felicidade em alegria, o mesmo no mesmo no mesmo e uma curva. Uma curva!

O trem se aproximava, mais lento que o resto do tempo. E eu, n�o vendo a hora.


O Diretor me deu f�rias. Merlin disse que n�o volto mais. Disse que v�o vender a reparti��o. Eu disse a ele que reparti��o, como o amor, n�o se presta a esse tipo de liberalismo. Ele ficou rindo, tal qual um retardado. N�o dou dinheiro a essa gente.

Ele disse tamb�m que o povo do meu trabalho me chama de Astronauta.


Nunca dormi tanto na minha vida, que � longa.

N�o tive sonhos. Quando escrevo isto, sinto como se registrasse em branco na celulose refinada dos couch�s brancos. Comi ovos crus e bebi �gua gelada, devo escrever. Assisti televis�o o dia todo, devo escrever. Fim de semana n�o � folga t�o boa para o esp�rito quanto parece. Por isso escrever pouco.

Na Segunda-feira o fim de semana foi �timo. Na Sexta, ser�. Sorrir queimado de sol, e recordar a tr�zia de um quase olhar correspondido. Durante os dias �teis ser esse tolo institu�do. Aquele do fim-de.


Eu me imaginava morrendo dentro do sonho. Tentei morrer, mas n�o � f�cil: milhares de coisas t�m que parar dentro da gente. "Imagine uma cidade entrando em colapso". Imagino, � f�cil.

O trem n�o fez a curva. Seguiu direto, atrav�s das montanhas. Verti �leo queimado durante os dias, at� perder por ard�ncia a garganta.

Uma escurid�o terr�vel dentro daquele ventre maci�o. Tive medo de encontrar confrarias secretas reunidas ali dentro, nos seus esconderijos. Enganei morcegos jogando-lhes iscas de alt�ssimas freq��ncias, pescocinhos quebrados. Rezei muito. Pedi em segredo a algu�m. Frio, suor convertido em sebo-limite, condenei todo o ouro oculto do mundo. Pedi para que me deixassem ir, para que abrissem meus olhos � for�a, com pin�as. Merlin disse que eu n�o enxergo.


Os trilhos fizeram a curva e o trem passou direto: com magnetos, miudezas que fazem as vezes de rodas aos trens japoneses, passa-se assim, anda-se reto. O trem flutua, nunca dobra, nem passa perto, ou muito perto, do centro da cidade ou da terra. Jamais acerta uma esta��o. Tamb�m n�o erra. Mas aqui n�o se fala de trens.

Sei quando sonho. Encontro um psiquiatra chamado Serafim(diz ele, dorme aqui perto). Escroto como ele s�, usa a forma f�sica do Paulo Freire velho para me atender. � in�til lan�ar m�o de cinismo com essa gente. Coloque-os entre uma imagem e seu reflexo e eles v�o correndo dar com a cara no espelho.

Dolorosa a constata��o de dar por perdido o alheamento aos predicados pr�prios, de v�-los amadurecidos, apodrecidos, carcomidos como fatos; dada a ci�ncia dos mesmos. Demorei-me al�m da conta na cultura dos signos tra�ada em forma de rede, observando sua irriga��o balanceada entre serotonina e endorfina, sua localiza��o privilegiada, os tanques com os novos esp�cimes, os desenhos no ar que as cinzas das duplicatas fazem, e uma ou outra peculiaridade da grande fam�lia da qual j� n�o fa�o parte. Registro incansavelmente minha trajet�ria fulminante, os coment�rios abafados, a impress�o de cada um sobre si mesmo, o comportamento dos meus pais no meu enterro, os motivos que te levaram a ser este fantasma, Dr. Serafim.

Pedi para que me deixassem ir. Pedi por todos e por mim, antes de pedir.


Hoje, dia vinte e seis, tirei meu velho nome da plaquinha sobre a mesa, e coloquei meu nome novo: Astronauta. Quero subir.

Deveria falar mais sobre a minha vida. Sempre h� quem se interesse. Discorrer sobre as contagens regressivas e o visto de perman�ncia que o c�u d� a quem o visita. Ensinar aos leigos os rudimentos da espera. Ou at� mesmo dar entrevistas por telefone.

Quero subir.

Hoje � noite(dez...), no casticismo do meu leito(nove...), escreverei assim:

"Queria muito falar com eles. N�o falei. (oito...) Desci pelas escadas lavadas(sete...), dei a Merlin as chaves da cidade, peguei um �nibus(seis) e nunca mais voltei."



Alfredo D.O.Filho

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