Asas
Alcan�ara por fim a idade da insignific�ncia. Seus 80 anos pesavam-lhe como um elefante pregado �s costas. A cabe�a repleta de mem�rias dava a cada dia um gosto amargo e ran�oso. Certa manh�, ao acordar, notou que tinha asas.
Duas grandes asas brancas . Morrera e virara anjo? Sonhava? Enlouquecera?
Achou melhor conferir na porta de vidro da loja de eletrodom�sticos. Estavam l�: grandes e majestosas, imposs�veis e leves. E lhe ficavam bem. Sim, sem sombra de d�vidas, nascera para ter grandes asas brancas. Ent�o decidiu test�-las. Como morasse na cal�ada em frente ao banco, saiu para procurar algum lugar alto de onde pudesse pular. Pensou no viaduto, mas achou-o baixo demais. Olhou ao redor � procura de alguma montanha, mas as centenas de pr�dios comercias tapavam-lhe a vis�o. Decidiu andar pelas ruas desfilando a novidade anat�mica, porque Deus o escolhera e era o primeiro mortal a ganhar asas ainda em vida. Ele que n�o tinha casa. Ele que n�o tinha roupas. Ele que n�o tinha juventude. Ele que n�o tinha sonhos. Olhou para si e viu o monte de trapos pregado ao corpo. Achou que as vestes n�o eram dignas de t�o glamurosas asas. Seguiu nu pela cidade suja � procura de um trampolim. J� se imaginava sobrevoando os carros, a cidade, a igrejaSSim, a igreja. A igreja era o local ideal para saltar. Entrou decidido e orgulhoso, como se fosse um santo. Sentiu-se feliz ao notar-se observado por dezenas de fi�is. Mas o padre cessou a missa. As pessoas interromperam as ora��es. As faces encheram-se de espanto diante da vis�o inesperada. O homem, que n�o era santo, manteve a marcha retesando as grandes e impetuosas asas, ainda mais orgulhoso diante da indigna��o da plat�ia.
E como a vida n�o lhe dera mais que o par de asas, saltou do alto da igreja e seguiu sobrevoando a cidade. O avi�o lotado de gente viu passar, espantado, o estranho p�ssaro. Os homens, l� de baixo, olhavam para o alto sem compreender o fen�meno. Homens de neg�cio, cientistas, te�logos, profetas, videntes e crian�as. Todos o invejaram e, por um breve instante, desejaram ser aquele homem que de tanto n�o ter nada, um dia ganhou a liberdade.
Andr�a Martins